Agrociência

DROSÓFILA DE ASA MANCHADA. Prejuízos em várias culturas

Textos de divulgação técnica da Estação de Avisos de Entre Douro e Minho, nº 01_2017 (II Série) (janeiro 2017)
Ministério da Agricultura, das Florestas e do Desenvolvimento Rural/ DRAP Norte/ Divisão de Apoio ao Setor Agroalimentar/ Estação de Avisos de Entre Douro e Minho/ Texto: C. Coutinho, a partir das publicações abaixo indicadas e de resultados de observações na Região de EDM.

A drosófila de asa manchada (Drosophila suzukii Matsumura) é uma pequena mosca originária do sudeste asiático, introduzida na Europa a partir de 2008, expandindo-se num curto espaço de tempo por toda a área ocidental do continente, continuando a sua progressão para leste. Está classificada na Lista A2 da OEPP como praga de quarentena. Este inseto exótico constitui uma praga capaz de provocar elevados prejuízos em variadas culturas
frutícolas. Parece preferir pequenos frutos de cutícula fina, como morangos, cerejas, framboesas, amoras, mirtilos e uvas. No entanto, pode atacar também pêssegos, damascos, ameixas e outros frutos, incluindo os de plantas silvestres e semisilvestres (amoras das silvas, baga de sabugueiro, medronhos…) e ornamentais (Cotoneaster, Crataegus…). No seu comportamento alimentar e reprodutivo, distingue-se das outras drosófilas, também chamadas moscas do vinagre, por ter a capacidade de atacar os frutos sãos e de neles inserir os ovos. A postura e o desenvolvimento das larvas, além dos prejuízos diretos que causam, favorecem a contaminação dos frutos por bactérias e fungos, acelerando o seu apodrecimento e perda.

Biologia
Os adultos de Drosophila suzukii têm o aspeto de uma mosca do vinagre, de 2,6 a 3,4 mm, sendo a fêmea ligeiramente maior que o macho. O macho possui uma mancha escura na extremidade de cada asa. A fêmea possui um ovopositor de maiores dimensões e mais fortemente denteado que o de outras drosófilas, o que lhe permite perfurar a cutícula dos frutos sãos e inserir os ovos sob a epiderme.

A fêmea começa a por ovos 2 dias depois de ter eclodido, vive 3 a 9 semanas e produz em média 400 ovos durante a
vida. Os ovos eclodem ao fim de 1 a 3 dias, dando origem a larvas, que se desenvolvem num período variando entre 3 e 15 dias. De seguida, as larvas evoluem para pupas, por vezes no exterior dos frutos, de onde emergirão os adultos, dando assim origem a uma nova geração. Ao longo do ano podem ocorrer 7 a 15 gerações, conforme as temperaturas. As temperaturas favoráveis à postura situam-se entre os 10 e os 320C. As temperaturas mais desfavoráveis situam-se abaixo de 13 e acima de 280C. Acima de 300C, a fertilidade dos machos é afetada. Potencialmente, uma única fêmea poderia dar origem a milhares de milhões de descendentes num só ano, se a Natureza não dispusesse de eficazes mecanismos de controlo de uma tal proliferação.

Estas capacidades, de reprodução rápida e de voo, dão à drosófila um forte potencial de dispersão local, alguns quilómetros em redor. Frutos contaminados com ovos ou larvas de D. suzukii asseguram a sua dispersão a longas distâncias. O comércio mundial de frutas no mundo contemporâneo, é mesmo considerado o principal meio de expansão desta praga. Os níveis da população na primavera dependem das condições meteorológicas do inverno anterior. Muitos dias ou semanas de frio intenso podem causar elevada mortalidade. As fêmeas resistem melhor ao frio que os machos e por isso são mais numerosas na primavera seguinte. A população desenvolve-se fortemente na primavera, vai aumentando progressivamente durante o verão, com flutuações devidas a condições de calor e secura. No outono, tem novo pico de desenvolvimento, recomeçando então a decair. À aproximação do inverno, os adultos deixam de se reproduzir (diapausa reprodutiva), sob o efeito da diminuição do fotoperíodo (horas de luz solar) e das temperaturas. Nessa altura, sobretudo depois da queda da folha, os adultos concentram-se em abrigos diversos perto dos pomares. Condições de secura durante o verão diminuem a atividade do inseto. Temperaturas superiores a 250C e humidade relativa do ar inferior a 60%, também lhe são desfavoráveis. A drosófila de asa manchada prefere os locais ensombrados e frescos para viver. De resto, estudos feitos até agora parecem demonstrar que a D. suzukii prefere os climas húmidos mais a norte, relativamente às condições de maior secura e aridez do Mediterrâneo. No entanto, resiste aos verões quentes e tolera relativamente bem o frio do inverno.

Hospedeiro
Os hospedeiros da drosófila de asa manchada são muito numerosos, entre plantas cultivadas alimentares e ornamentais, silvestres ou semi-silvestres, dependendo da abundância local de espécies frutícolas. O vasto conjunto de hospedeiros possíveis é um dos constrangimentos para a luta contra a D. suzukii.

Medronhos destruídos por D. suzukii.

Sintomas em cerejas do ataque das larvas de D. Suzukii

Prejuízos
A perfuração dos frutos pelas fêmeas, a postura e o desenvolvimento das larvas, levam à destruição da polpa, ao colapso dos frutos e à sua consequente perda. Além dos prejuízos diretos, infeções secundárias de fungos ou
bactérias aceleram a destruição dos frutos. Esta destruição dá-se em grande escala, podendo facilmente perder-se toda a produção de morangos, cerejas, mirtilos, medronhos, uvas e outros frutos pequenos. Ataques de Drosophila suzukii nas uvas, facilitam o desenvolvimento de bactérias causadoras da podridão acética, levando à perda da produção, em qualidade e quantidade, como temos observado na Região dos Vinhos Verdes nos últimos anos.

Deteção e monitorização da praga
O método mais eficiente para detetar a presença da praga no local e acompanhar a sua evolução é a captura de adultos com recurso a armadilhas, semelhantes às utilizadas na captura massiva adiante descritas. Devem colocar-se duas armadilhas por pomar ou por parcela, distanciadas uns metros, uma no interior e outra na bordadura.
O conteúdo deve ser vertido para um recipiente (bacia, tabuleiro) e procurar aí as moscas D. suzukii. Os machos são identificáveis pelas manchas nas asas, a olho nu ou com uma lupa de aumento ligeiro (3 a 5 X). As fêmeas só são identificáveis à lupa binocular ou por outros métodos, o que tornará necessário recorrer a um serviço especializado de confiança (DRAPN, Universidades e Escolas Agrícolas).

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