Opinião

Como está e como melhorar o setor do leite ?

Luís Vieira, Secretário Estado Agricultura

O setor do leite passou uma situação difícil, não só em Portugal mas a nível de União Europeia, com um conjunto de situações a nível internacional que dificultaram as exportações da União Europeia para países terceiros, nomeadamente para o mercado russo, o que criou alguns desajustamentos entre a procura e a oferta. Neste momento o Governo, em conjunto com as organizações do setor, tomou um conjunto de medidas, mediante um Gabinete de Crise, criando um plano temático específico para o setor leiteiro. Essas medidas foram desde o apoio direto para complementar o rendimento dos produtores de leite, através de um conjunto de ajudas e criou também uma linha de crédito; abriu concursos específicos para o investimento nas explorações leiteiras (…). Pode dizer-se que neste momento o setor começa a respirar. Os preços melhoraram, embora não sejam os desejáveis mas há já uma resposta porque, para além das medidas de nível nacional, foram também tomadas medidas comunitárias que levaram a compensações pela não produção, promovendo um ajustamento entre a oferta e a procura, que permitiu melhorar o rendimento.
Houve ainda o aumento da procura em determinados mercados internacionais, nomeadamente o chinês, o que fez com que também por aí houvesse uma maior abertura em termos de exportação.


Fernando Cardoso, diretor-geral da FENALAC

A partir de 2015 ficámos sem quotas leiteiras, logo, deixa de haver regulação da oferta do leite na União Europeia e estamos a sofrer os efeitos dessa mesma desregulação. A isso somam-se algumas situações de protecionismo como por exemplo em Espanha, que vieram prejudicar muito a situação em Portugal que ficou com grandes dificuldades em exportar para lá, pelo que foi necessário um grande esforço de adequação da nossa oferta de leite à procura que existe em Portugal. Esse esforço foi penalizador para todos, prioritariamente para os produtores. Há também uma distribuição muito pressionante sobre a produção, com preços extremamente baixos e usando o leite como um chamariz para atrair os consumidores. Isso tem de ser combatido, mostrando-o aos consumidores mas também do ponto de vista legal, impedindo que tais práticas existam. Tudo isto faz com que estejamos a viver uma situação muito difícil. Ainda assim, conseguimos compensar de alguma forma esses efeitos, com uma organização da produção com base no setor cooperativo. Há muito para fazer e em vários aspetos, tanto do ponto de vista da organização como do ponto de vista regulamentar. É necessário acabar com um conjunto de práticas, que prejudicam muito o setor e dar novo protagonismo aos produtores e à agroindústria para que tenham capacidade para enfrentar a distribuição numa posição relativamente similar.


Norberto Gonçalves, gerente da exploração – ENCANTO NATURAL

Tenho um efetivo de 200 animais em Ponte de Lima e com um irmão fundei a Encanto Natural há 24 anos, com 20 animais importados da Alemanha. Desde aí fomos fazendo todo o melhoramento genético (da raça Frísia) com animais que têm sido premiados em variados concursos. Até aqui as quotas leiteiras eram a única forma de estabilizar o excesso de produção e quando essa figura foi extinta o setor entrou em crise. Outros países, onde há grandes áreas, conseguem custos de produção muito mais baixos que em Portugal e “encharcaram” o país com leite. O nosso país é pequeno, não somos autossuficientes, mas temos um grande inimigo que são as grandes superfícies. Nós produzimos leite que entregamos a uma empresa que por sua vez o vai transformar e depois negociar com as grande superfícies. Há também um lado da questão em que o consumidor não sabia que grande parte do leite de marca branca era importado. Hoje o consumidor já se preocupa mais em saber qual é a origem do leite que adquire e privilegia o leite PT. O que tem de se fazer é rotular o leite e se o consumidor preferir nacional, as grandes superfícies são obrigadas a comprar nacional.


José Carlos Ferreira, comercial – ALL4Farm

Na produção houve um bom trabalho por parte do produtor e de todos os comerciais que lidam com ele e o leite chega às prateleiras dos supermercados com qualidade. Já relativamente ao preço, está a ser mal pago. Onde o produtor pode ganhar dinheiro é na quantidade de produto que entrega. Os produtos da parte da higiene com que trabalhamos na empresa referem-se tanto aos animais (antes de depois da ordenha) e com todo o equipamento relacionado com a recolha do leite. Estes, como outros produtos similares têm contribuído para a qualidade do leite. Para melhorar o sistema a própria indústria tem de pagar melhor o leite porque, pelo conhecimento que tenho, quem está a ganhar muito dinheiro neste momento é a indústria porque está a pagar matéria-prima a um custo reduzido e depois de transformada, nos supermercados surge a preços que não param de subir (leite e derivados). A indústria devia olhar para os produtores e ver que a qualidade do leite que se produz em Portugal merece ser mais valorizada, até porque a indústria, para ter um bom produto final derivado do leite, tem de ter uma boa matéria-prima. A ALL4Farm tem como principal atividade a prestação de serviços na área da nutrição animal e na comercialização de alimentos e aditivos para animais de produção.


Jorge Paixão, comercial/técnico – CARGILL

Sinto o setor extremamente desmotivado. Quando visitamos s explorações leiteiras o que mais ouvimos é “vou fechar”, “não vale a pena” (…). Isto acontece porque o preço a que é pago o leite não corresponde às expetativas. Nós concretamente não temos possibilidade de baixar o preço porque compramos as matériasprimas. O que é que pode ser feito? Creio que passa por não haver especulação em termos bancários. A principal actividade da CARGILL é o comércio de cereais e sementes.


Tiago Gonçalves, comercial – AGRICULTEC

Neste momento o setor do leite está “um pouco em baixa”, o que também se prende com alterações dos hábitos alimentares relativos ao consumo de leite. Uma diminuição do consumo de leite provoca “estragos” em todos os setores. Em reflexo, visitamos os nossos clientes e notamos que não têm liquidez financeira para fazerem investimentos. Para melhorar esta situação é preciso informar os consumidores sobre os benefícios do consumo de leite e diversificar os produtos. A Agricultec dedica-se à importação e comercialização de Equipamentos de Ordenha, Tanques de Refrigeração (…).


Nanda Winnie, aconselhamento e vendas Portugal – euroCORN

A grande diferença entre a Holanda e Portugal é o custo de investimento dos agricultores, porque o preço do leite é mais ou menos o mesmo nos dois países. Os produtores perdem muito dinheiro todos os dias e é um assunto que a Comunidade Europeia tem de ver porque não se pode trabalhar desta forma.
A empresa euroCORN está sediada na Holanda, o seu produto é semente de milho para silagem e para grão. Em Portugal trabalha com a Cooperativa Racoop.

 


Avelino Oliveira, gerente – GONDIMIL

Neste momento o setor do leite está a melhorar ligeiramente. Podemos considerar que 2016 foi o ano zero em que os preços chegaram a valores inconcebíveis. Os equipamentos (que comercializamos) são promotores do bem estar animal, com a otimização da quantidade e da qualidade. Para continuar no setor é preciso insistir no investimento para reduzir custos e conseguir o leite ao mais baixo custo.