Grande Entrevista

INIAV – Pedro Brás de Oliveira

Pedro Brás de Oliveira é um nome indissociável da produção de pequenos frutos em Portugal.
Entrou para o departamento de horticultura e floricultura daquele que é hoje o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) em 1989 através de uma bolsa e diretamente para um projeto ligado aos pequenos frutos e aí desenvolveu o seu percurso, primeiro mestrado, depois doutoramento, muito focado na framboesa. O trabalho que realizou em tecnologias de produção em agricultura protegida tornaram o Instituto pioneiro a nível mundial e levaram-no aos quatro cantos do mundo, onde contactou com as maiores multinacionais do setor, conseguindo que algumas acabassem por se instalar também em Portugal anos mais tarde.

É sobre este percurso tão rico e o seu conhecimento não só em framboesa mas nos outros pequenos frutos que também existem em Portugal que falámos com o Investigador do INIAV que nos diz que o céu é o limite, porque a margem de progressão é muito grande.

  • Como vê a evolução do setordos pequenos
    frutos em Portugal?

A evolução foi brutal. Quando comecei havia 80 hectares de pequenos frutos em Portugal, excluindo o morango que representaria alguns mil hectares. Hoje a situação inverteu-se e a área de morango diminuiu bastante (pouco mais de 300 hectares) e o mirtilo, por exemplo, já ocupa 1300 hectares. Os pequenos frutos tornaram-se moda e na minha opinião tem muito que ver com o fator cópia, que na agricultura é muito importante. É minha convicção também que a entrada da Driscoll’s em Portugal fez toda a diferença, primeiro com o morango, que já praticamente abandonaram, e depois com a framboesa e amora e mais recentemente com o mirtilo. Mas também há exemplos de empresas portuguesas que produzem há muitos anos e com grande sucesso (Beirabaga por exemplo). Hoje temos uma fileira madura, importante do ponto de vista económico, com a produção praticamente toda canalizada para a exportação (cerca de 100 milhões de euros exportados em 2015).

  • Qual o pequeno fruto que mais se destaca?
    A framboesa, sem sombra de dúvida.
    E porquê?

O destaque não é em área plantada e até exige um grande investimento, mas pelo retorno económico que tem sido muito significativo. Tem sido favorável porque as margens são boas, mas não vai ser sempre assim e há coisas que se vão fazendo pelo país que do ponto de vista técnico não são as mais acertadas. À medida que este processo vai avançando tornasse mais difícil produzir em zonas onde a cultura não está tão bem adaptada (a Norte por causa do clima). Continuo convencido que o Sudoeste Alentejano é a zona de eleição do país para produção de framboesa: solos, água e clima favoráveis.

  • E porque é que o morango está a ter
    o comportamento contrário?

A área de morango cai de ano para ano porque as margens são sucessivamente mais curtas. Tenho defendido que não podemos fazer morango quando os espanhóis também o fazem. De fevereiro a maio Espanha inunda o mercado europeu de morango e a preços difíceis de competir. Quem tem resistido tem sido pela aposta em épocas de produção diferentes (outono-inverno), conseguidas mais a Sul.

  • O segundo melhor cotado será então
    o mirtilo?

Sim e pode ir de Norte a Sul, sem problemas. É uma cultura de ar livre, logo por aí com um investimento mais baixo e sem as exigências em investimento que tem a framboesa. A grande mancha da cultura situa-se a Norte e aí é uma cultura fruteira no sentido tradicional do termo. Tem alguns requisitos diferentes das outras fruteiras mas genericamente os produtores adaptam-se bem. Estamos a investir, em termos de conhecimento, como é que vamos trazer os mirtilos para Sul, podendo aí praticar-se a cultura protegida e em substrato, tentando tirar o maior partido possível de alguns momentos em que os preços são mais altos(outubro). Passa pelo melhoramento de variedades que tenham esse momento de produção e através da manipulação do ciclo produtivo com novas tecnologias de produção. Já vieram duas ou três grandes empresas internacionais instalar-se no Sudoeste Alentejano (…).

Entrevista publicada na íntegra / edição impressa de fevereiro 2017.

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