Agrociência

TeCMeM – TeCnologia de Membranas em Movimento

A Transferência de Tecnologia para a fileira do vinho: “Tecnologia de membranas. A realidade da produção dos vinhos – novas tendências de inovação”

Martins R., Brás T. , Duarte M.F. Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL)/ Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), 7801-908 Beja, Portugal; *- fatima.duarte@cebal.pt

Em Portugal, a Transferência de Tecnologia têm assumido nos últimos anos uma posição fulcral na inovação e no desenvolvimento industrial com impactos positivas na economia nacional pelo aumento de empresas de base tecnológica e pela possibilidade de expansão nos mercados internacionais.

Com o objetivo de tornar o setor empresarial da região Alentejo mais inovador e mais competitivo, o Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-alimentar do Alentejo (CEBAL) fez a sua aposta na Transferência de Tecnologia na área dos processos de separação de membranas – uma das suas área de investigação técnico-científica cujas competências tem aperfeiçoado desde á vários anos – e viu aprovado o seu primeiro projeto de Transferência de Tecnologia: “TeCMeM- TeCnologia de Membranas em Movimento” (ALT20-03-0246-FEDER-000003) (*).

O CEBAL pretende desta forma potenciar os seus resultados de I&D ao serviço da resolução de problemas concretos, fomentando o conhecimento e a endogeneização tecnológica do território, de forma a conduzir a um aumento de valias económicas, que subsequentemente se traduzam no maximizar da economia regional, com especial enfoque nos sectores ambiental e agroalimentar, nomeadamente nas fileiras do Queijo e do Vinho.

A criação de Eventos como seminários e demonstrações tecnológicas dedicados à fileira do Queijo e à fileira do Vinho estão na base do plano de ação do Projeto TeCMeM para melhor concretizar a transferência dos conhecimentos científicos e tecnológicos. Tendo sido já feita uma abordagem mais centrada no setor dos lacticínios, com o evento “Tecnologia de Membranas: A Realidade do Setor dos Lacticínios – do Problema ao Valor” onde foi demonstrado o potencial desta tecnologia no tratamento, reutilização e valorização das águas residuais de queijarias, foi agora a vez de promover a Transferência de Tecnologia dos processos de separação por membranas para a fileira do Vinho com o tema “Tecnologia de Membranas: A Realidade de Produção dos Vinhos – Novas Tendências de Inovação”.

Tecnologia de Separação por Membranas a sua vertente técnico-científica

Assentes no princípio de que é fundamental uma aproximação da Ciência ao tecido empresarial para uma inovação sustentável, este evento pretendia apresentar o projeto “TeCMeM – TeCnologia de Membranas em Movimento”, e dar a conhecer a Tecnologia de Separação por Membranas na sua vertente técnico-científica, bem como aplicabilidade, numa perspetiva de ferramenta útil para a inovação na produção do vinho, e boas práticas na gestão ambiental a todos os interessados pelo setor vitivinícola. Pretendia-se criar uma partilha de saberes e experiências de modo a promover uma discussão de transformação e novos desafios no sector.

Dividido por duas sessões em áreas distintas do Alentejo, uma demostração tecnológica nos laboratórios do CEBAL, em Beja, e um seminário na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do (CCDR), em Évora, o evento pretendia a disponibilização do conhecimento, baseado no contato direto com equipamentos, bem como com acesso a testemunhos de casos de sucesso de utilização da referida tecnologia, a nível empresarial. O CEBAL teve também o privilégio de contar com a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), como aliada nesta iniciativa, contando com a presença de Luís Amorim, Diretor do Laboratório e da Câmara de Provadores da CVRA e o Presidente da CVRA, Francisco Mateus.

Em ambas as sessões participaram investigadores nacionais, organismos públicos e privados, entidades reguladoras e agentes económicos regionais.

Foi de laboratório cheio que se realizou a sessão de demonstração tecnológica onde se deu a conhecer, na prática, a tecnologia de separação por membranas. Compreender in loco o funcionamento da tecnologia, conhecer as diferentes tipologias/escalas de equipamentos e as suas principais exigências foram os temas abordados, culminando com a demonstração da aplicação dos processos de separação por membranas no tratamento de efluente das adegas. Foi um momento de forte interação dos participantes com os investigadores do CEBAL, resultando numa proveitosa partilha de conhecimentos.

Uma semana mais tarde realizou-se o seminário, com uma tarde de trabalhos dividida em dois painéis, um painel dedicado às práticas enológicas e outro às práticas ambientais, sendo possível desta forma abordar as diferentes vertentes de aplicabilidade da Tecnologia de Membranas no setor. Como moderadores destes painéis estiveram Maria João Cabrita, Professora do Departamento de Fitotecnia da Escola de Ciências e Tecnologia e Investigadora do Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas (ICAAM) da Universidade de Évora; e João Barroso, gestor/coordenador do Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo, da CVRA, ambos distintos conhecedores das matérias enológicas e ambientais, respetivamente.

Foram convidados a intervir nos respetivos painéis investigadores de renome na área para disseminação do conhecimento científico e agentes económicos da fileira na tipologia de caso de sucesso da utilização da Tecnologia de Membranas. O círculo de conhecimentos foi rematado com as perspetivas regulamentares que fizeram a abertura de cada painel. Estiveram presentes os órgãos máximos do setor em cada área designadamente, o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

O IVV abordou o enquadramento legal das Técnicas de Membrana no setor vitivinícola, citando a atual legislação aplicada aos processos de separação por membranas na prática enológica e dando a conhecer melhor a OIV- Organização Internacional da Vinha e do Vinho e a CNOIV – Comissão Nacional da OIV, entidades de referência no controlo e na inovação das práticas enológicas, bem como as resoluções que têm vido a ser adotadas provenientes de trabalhos de novas experimentações enológicas com recurso a Tecnologia de Membranas. Por sua vez, a APA mostrou o atual ponto de situação do tratamento e destino final das águas residuais das adegas, em particular na área de jurisdição da Administração da Região Hidrográfica do Alentejo (ARH Alentejo), apontando a Tecnologia de Membranas como um sistema de tratamento alternativos para a reutilização das águas residuais, face aos elevados padrões de qualidade que permite obter.

Os Investigadores proporcionaram o entendimento dos conceitos científicos associados aos processos de separação por membranas, apresentando as diferentes aplicações da tecnologia em enologia, bem como a investigação que está a ser desenvolvida na área. O princípio da tecnologia de separação por membranas, os seus fundamentos e aplicações em enologia, nomeadamente no mosto, vinho e valorização de subprodutos foi substancializado pela Professora Maria Norberta de Pinho do Departamento de Engenharia Química do Instituto Superior Técnico; enquanto na prática ambiental, o Professor João G. Crespo do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa falou sobre a valorização dos subprodutos do processo de produção do vinho exemplificando com a sua investigação sobre a recuperação de aromas com processos de membranas.

Testemunho: filtro tangencial na Adega

O ponto forte da tarde foi conseguido pelo enólogo e diretor de produção na Adega Ervideira, Nelson Rolo, que deu o seu testemunho na utilização dos processos de separação por membranas dada a sua experiência, de vários anos, na utilização do filtro tangencial na Adega. O enólogo abordou os benefícios que a implementação da técnica trouxe para a produção do vinho, nomeadamente a substituição de técnicas menos sustentáveis e dependentes do operador, a otimização de tempo e a rentabilização de recursos humanos e recurso económicos, fazendo referência a alguns inconvenientes e exigências requeridas pelos equipamentos e apresentando as estratégias que adotou para as contornar. A sua apresentação circunstanciou um debate extremamente enriquecedor, onde produtores e investigadores colocaram as suas dúvidas e expuseram a suas realidades.

A discussão, o confronto de realidades, o câmbio de experiências e a troca de contatos foi transversal a todo o evento. É notório que com a grande transformação que o setor vitivinícola sofreu, em especial no Alentejo, o conduziu a uma grande mudança e expansão, tornando-o mais modernizado, mais competitivo e com uma maior apetência para as atividades de inovação. O setor está mais conhecedor e mais exigente. A iniciativa TeCMeM dedicada a este setor ofereceu claramente um estimulante momento de Transferência de Tecnologia.

(*) Projeto “TeCMeM- TeCnologia de Membranas em Movimento” (ALT20-03-0246-FEDER-000003), Sistema de Apoio a Ações Coletivas na área da “Transferência do Conhecimento Científico e Tecnológico”, financiado pelo Programa Operacional Regional do Alentejo (Alentejo 2020), Regulamento Específico do Domínio da Competitividade e Internacionalização – Sistema de Apoio a Ações Coletivas – Transferência do Conhecimento Científico e Tecnológico, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

Publicado na Voz do Campo n.º 201 (fevereiro 2017)