Agroalimentar Novas culturas

Os amendoins que costuma comer podem muito bem ser portugueses

É uma cultura totalmente mecanizada, com um ciclo de produção de cinco meses, que consegue vingar em solos pobres e com a vantagem de os enriquecer para a cultura seguinte. Falamos do amendoim que começou a ser produzido em Portugal de forma um pouco tímida mas do qual se vai identificando grande potencial de crescimento.

Foi depois de um desafio lançado pelo Grupo Pepsi CO que a Organização de Produtores Torriba entrou na cultura do amendoim, isto já lá vão seis anos. A multinacional identificou vários países europeus onde a cultura poderia ser viável, Portugal incluído, e num primeiro ano, que pode ser chamado o menos um, fez-se o teste na região de Coruche com um produtor associado daquela OP. Os resultados pretendidos não só foram alcançados como superados em aspetos como o da qualidade. Estava identificado que havia potencial e no ano seguinte a Torriba foi desafiada a apresentar o máximo possível de áreas e produtores, de diferentes tipos e com distintos terrenos. O objetivo era identificar onde estariam os melhores solos de produção e o tipo de agricultor mais adequado para esta cultura.
O perfil alcançado é o de um agricultor capaz de atuar autonomamente quando identificado algum problema. Não sendo uma cultura muito exigente em tratamentos, quando necessários carecem de uma atuação rápida, principalmente no controlo de infestantes, que naquela altura foi uma das principais questões que se colocou tanto no Vale do Tejo como no do Sorraia, explica à nossa reportagem um dos diretores da Torriba que também é produtor de amendoim, Rodrigo Vinagre.

Ciclo da cultura
Sementeira, emergência, desenvolvimento e floração
No final de abril, início de maio é quando se atinge a temperatura de solo ideal (cerca de 18ºC) para a sementeira, utilizando-se os mesmos equipamentos que na cultura do milho.
Com temperaturas normais de primavera irão passar 8 a 10 dias até à emergência da planta.
Na fase de desenvolvimento é importante que as plantas se juntem umas às outras nas entrelinhas para não existir uma grande pressão de infestantes. Quando estas existem é necessário fazer rapidamente o respetivo controlo. É também importante controlar a humidade no solo para que seja facilitada a entrada do espigão lançado pela flor (que dura 1 dia). É a partir desse espigão que se desenvolve a vagem, enterrada no solo, pelo que também nesta fase as dotações de água são particularmente importantes, representando o pico das necessidades hídricas. É também nesta fase que a ameaça de doenças é maior. Ainda assim, como o clima é bastante seco não existe grande pressão mas, reforça mais uma vez Rodrigo Vinagre, quando existe alguma doença é preciso atuar com rapidez.

Maturação
A maturação acontece por volta dos 135/140 dias após a sementeira, numa altura em que tanto o técnico que acompanha a cultura como o agricultor vão fazendo testes de maturação. Existe uma tabela na qual se colocam os amendoins e dependendo da cor que os mesmos apresentem vai sendo criada a amostragem de como é que o campo está e de como é que pode evoluir. Essa mesma tabela vai dar indicação de quantos dias faltam para a colheita e a partir daí são tomadas as decisões (também condicionadas pelo clima).

Arranque
O arranque é uma das operações mais importantes da cultura porque será ela que vai ditar o bom potencial produtivo. Se se fizer um mau arranque pode haver vagens que vão cair ou se a planta não ficar bem voltada vai demorar muito tempo a secar.

Colheita
Após o arranque, estando em boas condições e havendo condições climatéricas para o fazer, normalmente entre cinco a oito dias (no máximo 10 ) faz-se a colheita, que é a operação final. Para isso utiliza-se uma colhedora/ debulhadora, que vai separar a planta da vagem que vai ser levada para o ponto de secagem, ou limpeza, localizado em Espanha, onde o Grupo Pepsi CO também tem produção.

15 agricultores e mais de 400 hectares

No ano zero a cultura ocupou cerca de 300 hectares e perto de uma dúzia de agricultores. Alguns ficaram pelo caminho mas os oito que permaneceram especializaram-se na cultura, embora na altura com um risco associado porque trabalhava-se com variedades de ciclo muito longo.
A meio do projeto a área diminuiu para 70 hectares, chegando mesmo a temer-se o fim do mesmo. A situação acabou por ser colmatada com a entrada de duas novas variedades, de ciclo mais curto, evidenciando-se o potencial produtivo a par do apuramento de algumas técnicas culturais.
São variedades específicas para descascar (conhecidas como runner), ou seja, este amendoim é torrado e depois descascado, não tendo por objetivo ser apresentado com casca ao consumidor final.
Atualmente este projeto envolve 15 agricultores e uma área de aproximadamente 460 hectares.
Analisando a cultura de uma forma mais genérica, Rodrigo Vinagre admite que por ser relativamente nova todos os anos conhece novos desafios. “Apesar de termos entrado neste desafio com um potencial muito bom, porque já existiam todos os equipamentos e a maioria das técnicas estavam desenvolvidas, as mesmas têm de ser adaptadas à nossa realidade e à nossa região”, sustenta o responsável.
Já a Torriba encarou este projeto como algo que poderia trazer uma alternativa aos produtores, mas, como tem sido sua política, promover também a rotação aos terrenos. Recorde-se que as três principais culturas dentro da Torriba são o tomate de indústria, a batata também para indústria e a ervilha. A rotação com a cultura do amendoim é vantajosa uma vez que esta também apresenta potencial enquanto fixadora de azoto, particularmente importante nos solos em causa que são arenosos (pobres).
O mercado do amendoim tem um potencial muito grande, até porque Portugal é um grande consumidor.
Todo este projeto foi desenvolvido sempre com o acompanhamento de um técnico da Torriba – Inês Vinagre – mas, com o aumento da área este ano decidiu-se também aproveitar um recurso que estava com o grupo Pepsi CO para estar com os produtores a tempo inteiro e dar acompanhamento à cultura.
Rodrigo Vinagre acredita que este é mais um ano de teste e que vai servir para sedimentar a cultura na região. Admite que ainda há muito potencial para crescer, basta para isso que haja interesse por parte dos agricultores e terras disponíveis para o fazer, tendo em conta que este conceito de rotação é fundamental e “um agricultor que queira fazer 10 hectares precisa no mínimo de 40 para fazer rotação da cultura”.

“É uma cultura compensadora até pelo impacto no melhoramento do solo”

Na sua exploração agrícola Rodrigo Vinagre disponibiliza 70 hectares para a cultura do amendoim, nas areias de Salvaterra de Magos. Não descarta a hipótese de até aumentar essa área mas é sempre uma decisão dependente de muitos fatores. À partida a campanha deste ano mostra-se com potencial, embora à data da reportagem as plantas ainda não tivessem sido arrancadas. O comportamento do clima no mês de outubro era uma das principais condicionantes a ter em conta uma vez que a campanha pode ir até meados de novembro.
Em termos de preços admite que é uma cultura compensadora e importante também para a cultura que vai ocupar o terreno posteriormente porque fixa o azoto e até é uma cultura que entra no conceito de greening.

Publicado na edição 197 (outubro 2016)