Agrociência

Valorização das Variedades de Oliveira Portuguesas – ‘OLEAVALOR’

 

Augusto Peixe1, Mª João Cabrita1, Mª do Rosário Felix1, Hélia Cardoso1 Isabel Velada1, Mª Doroteia Campos1, António Cordeiro2, Mª Teresa Carvalho2, Fernanda Quintans2, Adelino Batista2, Rosa Figueiredo2, Carla Inês2, Francisco Mondragão-Rodrigues3, Mª da Graça Carvalho3, Elsa Lopes3, Luís Conceição3, António Brito3, Paula Ricardo3, Maria F. Duarte1,4, Miguel Ferro4 1Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas / Instituto de Investigação e Formação Avançada – ICAAM/IIFA, Universidade de Évora, apeixe@uevora.pt 2Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P., UEIS Biotecnologia e Recursos Genéticos. Elvas, Portugal 3Instituto Politécnico de Portalegre, Escola Superior Agrária de Elvas. Elvas, Portugal 4CEBAL – Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo/ Instituto Politécnico de Beja – IPBeja, Beja, Portugal

Introdução

Figura 1 – Equipa de trabalho do projeto durante uma reunião de trabalho

O azeite Português representa 5-7% da produção mundial, sendo reconhecido pela sua alta qualidade. Manter a tipicidade do produto é por isso fundamental e só pode conseguir-se com a utilização das variedades autóctones. Um conhecimento aprofundado das suas características culturais e a melhoria da sua performance produtiva é por isso obrigatório. Foi neste contexto que se candidatou a financiamento ao Alentejo 2020 a operação “OLEAVALOR – Valorização das Variedades de Oliveira Portuguesas”. A mesma decorre entre 1 de Julho de 2016 e 30 de Junho de 2019 sendo seu objetivo geral avaliar e melhorar o potencial produtivo das principais variedades regionais de oliveira (‘Galega vulgar’, ‘Cobrançosa’, ‘Verdeal Alentejana’, ‘Cordovil de Serpa’, ‘Azeiteira’, ‘Blanqueta’, ‘Carrasquenha de Elvas’), com vista à sua maior utilização em sistemas intensivos de produção.

Envolvendo a participação de quatro instituições do sistema científico e tecnológico nacional (Universidade de Évora/ICAAM, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária/Elvas, Instituto Politécnico de Portalegre/Escola Superior Agrária de Elvas, Centro de Biotecnologia Agrícola e Agroalimentar do Alentejo/CEBAL), esta operação contribuirá para potenciar as infraestruturas de IC&DT da região, promovendo e tornando mais competitivos estes centros de saber, ao mesmo tempo que agiliza a sua articulação com as empresas. O trabalho de I&D a realizar, está apoiado numa componente de investigação fundamental e para isso recorre à utilização das mais sofisticadas técnicas de análise e diagnóstico, mas, foi também pensado de modo a que os resultados obtidos tenham aplicabilidade imediata no sector produtivo, procurando assim valorizar económica e socialmente a investigação desenvolvida.

Linhas de Trabalho

Figura 2 – Avaliação em condições de produção do crescimento vegetativo (a) e da produção (b)

 

 

 

 

 

 

 

 

1) Caracterização morfológica e agronómica das variedades.

O estudo realiza-se tanto na Coleção Portuguesa de Referência de Cultivares de Oliveira (INIAV/Elvas), como em olivais em diferentes sistemas de produção e pretende obter informação sobre o vigor, a produtividade, a incidência de pragas e doenças, a relação polpa/caroço, o índice de gordura na matéria seca, o índice de maturação à colheita e sua correlação com o índice visual de maturação.

Para averiguar da possível influência das práticas culturais nos azeites destas variedades, nas amostras de frutos colhidos ao longo da maturação, será feita a determinação do rendimento em gordura e do teor de humidade. Em azeites obtidos a partir destas amostras de frutos serão determinados os parâmetros de qualidade mais usuais (acidez total, índice de peróxidos, análise espetrofotométrica no ultravioleta e a estabilidade oxidativa).No final do estudo, pretende ter-se um conjunto de informações sobre as variedades em estudo que permitam complementar as fichas de caracterização agronómica e morfológica, a elaborar em conjunto com as restantes equipas do projeto, fornecendo informação valiosa aos olivicultores e às suas organizações quanto à adaptação, resposta às práticas culturais e às condições climáticas e de produção das variedades em estudo. Um dos entregáveis a disponibilizar no final do projeto será um manual de boas práticas de condução das variedades em estudo, em olivais intensivos de regadio na região Alentejo.

2) Simplificação dos processos de análise de infeções por vírus em oliveira e obtenção de resistência aos principais fungos causadores da gafa da azeitona (Colletotrichum spp.) e à bactéria Xylella fastidiosa

Ainda que muitas vezes ignoradas, as infeções virais nas plantas são frequentemente responsáveis por reduções significativas da capacidade produtiva e da qualidade da produção. Os testes atualmente existentes para identificação de vírus em oliveira são morosos, dispendiosos e permitem identificar apenas um número limitado de vírus em cada reação. Assim, o primeiro objetivo desta linha de trabalho é desenvolver um teste rápido, simples e que permita a deteção em simultâneo dos vários vírus que reconhecidamente tenham um impacto significativo na produtividade da planta ou na qualidade do azeite.

Figura 3 – Otimização dos testes de multiplex RT-PCR para o diagnóstico de vírus em oliveira. (A) Preparação das amostras, (B) Preparação da reação de multiplex RT-PCR, (C) Gel de agarose em que se podem observar os perfis das bandas resultantes dos produtos de amplificação dos vírus a diagnosticar

Relativamente ao outro objetivo, a obtenção de resistência aos principais fungos causadores da gafa da azeitona (Colletotrichum spp.) e à bactéria Xylella fastidiosa, não sendo provável que as empresas de agroquímicos venham a resolver estes problemas, especialmente o da gafa (já tiveram tempo suficiente para isso e não o fizeram), resolvemos tentar uma nova abordagem, baseada em ferramentas de genética e biologia molecular, para tentar ajudar na sua resolução.

Identificar-se-ão nos fungos da gafa e na bactéria da xylella os genes de patogenicidade responsáveis pela manifestação dos sintomas das doenças nas plantas. Estes genes clonar-se-ão em vetores virais atenuados que serão transmitidos às plantas por infiltração/pulverização. Conseguir-se-á deste modo que as plantas reconheçam dos produtos da atividade dos genes e desenvolvam a capacidade de proceder ao seu silenciamento, promovendo assim a sua autoproteção.

Figura 4– Observação sob luz UV de ensaios de silenciamento de genes utilizando GFP (Green Fluorescent Protein) para otimização de um vector VIGS (Virus-induced gene silencing). (A) – O gene inoculado não era supressor de silenciamento, (B) O gene inoculado é supressor de silenciamento, pode observar-se a fluorescência verde ao redor da zona inoculada.

 

 

 

 

 

 

 

 

3) Limpeza sanitária e propagação

O conhecimento atual permite afirmar que a difusão dos vírus em plantas de oliveira é um processo lento, apresentando-se normalmente isentos de vírus os rebentos do ano, o que facilita o processo de limpeza sanitária.

Figura 5 – (A) Preparação de amostras para análise molecular. (B) Plantas de oliveira em cultura in vitro para ensaios de enraizamento

 

A limpeza de clones da cultivar ‘Galega vulgar’ foi já conseguida com sucesso pela equipa de trabalho, através da cultura in vitro das extremidades de rebentos do ano e o mesmo procedimento será agora efetuado para as outras cultivares em estudo neste projeto. Pretende-se assim conseguir plantas com certificação varietal e sanitária, que possam ser utilizadas para disponibilizar material vegetativo de qualidade superior aos viveiristas interessados.

Relativamente à multiplicação, a existência de cultivares de oliveira com dificuldade de enraizamento por estaca semilenhosa, em contraste com outras onde esse enraizamento é fácil, é uma verdade inquestionável. Na proposta de trabalho que apresentamos, pretende compreender-se a regulação genética do processo de enraizamento, identificar os genes responsáveis pelas diferenças observadas e obter informação sobre os seus mecanismos de regulação trancricional e pós-transcricional. Silenciar estes genes nas cultivares de fácil enraizamento para verificar se essa capacidade é perdida, e, se assim for, aumentar a sua expressão nas cultivares de difícil enraizamento, é o objetivo final desta linha de trabalho.

4) Caracterização química de azeites

É frequente ouvir referências às virtudes e à elevada qualidade do azeite produzido pelas cultivares de oliveira Portuguesas, quando comparado com o produto obtido a partir de cultivares não autóctones, recentemente introduzidas, ainda que na verdade não existam dados concretos que, ao nível da análise química/organolética, suportem estas afirmações. Confirmar ou refutar estas alegações, é um dos objetivos desta linha de trabalho.

Atualmente, a caracterização elementar do azeite, que será obtida na linha de trabalho 1, anteriormente descrita, é suficiente para a definição, por exemplo, do valor comercial do produto, mas, a verdade é que, tanto novas diretivas comunitárias, como a maior informação do consumidor, relativamente às propriedades nutricionais do azeite, à complexidade dos perfis aromáticos de cada variedade ou à sua estabilidade durante o processo de armazenamento, obrigam a uma maior informação sobre as características químicas do produto. Assim, está também prevista a análise da composição fenólica, volátil e em ácidos gordos de cada uma das variedades em estudo.

A caracterização da fração fenólica dos azeites monovarietais tornou-se de extrema importância após a aprovação da Directiva Europeia referente à capacidade protetora contra a oxidação lipídica exercida pelos polifenóis do azeite. Os compostos fenólicos do azeite, tais como a oleuropeína e seus derivados, hidroxitirosol e tirosol, encontram-se fortemente associados a benefícios para a saúde, nomeadamente:

  • Forte poder antioxidante;
  • Proteção das lipoproteinas de baixa densidade (LDL) contra danos oxidativos;
  • Ajudar a manter o colesterol HDL nos níveis normais;
  • Ajudar a manter a pressão arterial nos níveis normais;
  • Propriedades anti-inflamatórias;
  • Contribuir para o melhoramento do sistema respiratório;
  • Ajudar a manter o bom funcionamento do sistema gastrointestinal.
  • Figura 6 – (A) Análise por HPLC dos extratos da fração fenólica dos azeites e (B) análise de voláteis por SPME-GC/MS

Abre-se assim uma oportunidade de valorização para as variedades capazes de produzir azeites com maiores índices de polifenóis e importa saber como se comportam relativamente a este parâmetro as nossas principais variedades. Tornar disponível esse conhecimento é o objetivo desta tarefa.

Relativamente aos compostos voláteis, eles são os responsáveis pelo aroma dos azeites e estão relacionados com os atributos sensoriais percebidos e avaliados pelos painéis de provadores. A presença destes compostos no azeite depende de inúmeros fatores externos, de difícil controlo, como o clima, o solo, ou as condições de colheita e extração do azeite. Mas também são condicionados pela variedade, pelo estado de maturação do fruto, ou pelo seu estado sanitário. São estes últimos fatores, controláveis, que serão tidos em conta na linha de trabalho. O objetivo final é, por um lado, a elaboração de um perfil sensorial para cada uma das variedades em estudo, e, por outro, a identificação de compostos voláteis que possam ser responsáveis por defeitos sensoriais. Quanto à fração gorda dos azeites, consiste principalmente em ácidos gordos monoinsaturados, polinsaturados e saturados, principalmente na forma de ésteres de glicerol (triacilgliceróis). Entre outros fatores, a composição em ácidos gordos do azeite está relacionada com a variedade e o grau de maturação da azeitona. O conhecimento do perfil em ácidos gordos de cada variedade, ao longo do período maturação do fruto e do período de armazenamento do azeite, permitirá compreender para estas variáveis o comportamento de cada variedade, fornecendo uma ferramenta que pode ser usada para a escolha acertada de uma variedade em função das características desejáveis para o azeite.

Resultados Esperados

A operação prevê o registo de duas patentes Europeias, uma relativa à ferramenta biológica para controlo dos principais fungos causadores da gafa em azeitona (Colletotrichum sp.) e outra relativa à ferramenta biológica para controlo da bactéria Xylella fastidiosa em oliveira. Para além disso são de esperar um significativo número de publicações e comunicações, tanto a nível nacional como internacional e do registo de variedades autóctones de oliveira no catálogo nacional de variedades. O projeto pretende potenciar a dinamização e a competitividade de empresas do setor olivícola e possibilitará ainda a integração nas instituições de I&D promotoras, de seis bolseiros de investigação a nível graduado e pós-graduado, contribuindo assim significativamente para a criação de emprego científico de qualidade, aspeto de extrema importância numa região onde o investimento em I&D em % do PIB é 2,5 vezes inferior à média nacional. Por sua vez, as parcerias estabelecidas e a consultadoria internacional prevista, são uma garantia da internacionalização da investigação e consequentemente do aumento da competitividade dos centros de I&D regionais. Ao promover a dinamização de um setor de produção chave ao nível da agricultura regional, numa região onde a contribuição da agricultura para o PIB regional ainda ronda os 13%, a operação afirma-se também como um elemento dinamizador na fixação das populações e desenvolvimento de novas oportunidades de negócio, contribuindo de forma significativa para vários dos objetivos inerentes à Estratégia Regional de Especialização Inteligente preconizada para a região do Alentejo.

Agradecimentos

Este trabalho é financiado pelo FEDER e por Fundos Nacionais, através do Programa Operacional Regional ALENTEJO 2020, Operação ALT20-03-0145-FEDER-000014 – “Valorização das Variedades de Oliveira Portuguesas (Oleavalor)”

Publicado na Voz do Campo edição 204 (maio 2017)