Agrociência

A poda não aumenta a produção da oliveira

M. Ângelo Rodrigues1, J. Ilídio Lopes2, Margarida Arrobas1 1Centro de Investigação de Montanha – Instituto Politécnico de Bragança 2Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, Mirandela

Enquadramento do tema

A poda tem sido vista como um meio indispensável de melhorar a produção do olival. A primeira referência escrita à importância da poda em olival terá sido de Columella (nascido em 4 a.C.), um dos agrónomos reconhecidos do império romano. Columella citava um provérbio já antigo à época que dizia: quem lavra o olival pede-lhe fruto; quem o estruma pede-lhe com muita insistência; quem o poda obriga-o a dar azeitona (Foster e Heffner, 1941.). Os autores modernos que têm escrito sobre poda são também, de uma maneira geral, unânimes na opinião de que a poda é determinante para aumentar e regular as produções (Gucci e Cantini, 2000; Tombesi e Tombesi, 2007; Vossen e Devarenne, 2007; Garcia-Ortíz et al., 2008; Gregoriou 2009; Therios, 2009).
Apesar da poda ser uma prática ancestral e utilizada em todo o mundo, os seus benefícios fisiológicos para a árvore são difíceis de justificar. A poda remove fotoassimilados contidos nas folhas e reduz o aparato fotossintético limitando a produção de novos fotoassimilados. Podar significa sempre uma perda importante para a árvore em comparação com não podar. Deve notar-se que as árvores que crescem livres em ecossistemas naturais, sem ação direta do homem, ajustam a copa aos recursos disponíveis (luz, água e nutrientes). Sendo organismos que resultam de um processo de adaptação ecológica de milhões de anos é de admitir que são altamente eficientes no uso dos recursos disponíveis. De contrário, ter-se-iam extinguido ao longo do processo evolutivo.
Assim, uma oliveira deixada livremente sem poda expande a sua copa e ajusta-a aos recursos disponíveis (figura 1). É também de notar que a oliveira, tal como qualquer outra espécie vegetal, tem como objetivo primário produzir o maior número de embriões viáveis (frutos) face aos recursos disponíveis. Não é aceitável admitir-se que a árvore só por si não consegue orientar os recursos para o seu objetivo primário, necessitando para o efeito do auxílio do homem. Deve ainda acrescentar-se que o objetivo da árvore coincide com o objetivo do homem que tem também interesse em obter a maior quantidade de frutos. Isto não acontece em toda a fruticultura. Nas macieiras, por exemplo, o objetivo da árvore é obter um elevado número de sementes, sendo o objetivo do homem obter uma boa quantidade de frutos dentro de um calibre valorizado comercialmente, o que deixa maior margem para justificar a poda.

Para ler na íntegra na edição 207 (agosto 2017)