Agrociência

Vírus de Cucurbitáceas

Os vírus mais importantes e os vírus emergentes.

A família das Cucurbitáceas representa uma parcela importante das plantas hortícolas consumidas no mundo inteiro. Em cultura ou no mercado encontram-se não só as mais comuns, abóboras, chilas, chuchus, curgetes, melancias, meloas e pepinos, mas também as típicas de certas cozinhas étnicas como folhas e frutos de certas abóboras, cabaças e Lagenaria breviflorus. As pevides (sementes de abóbora) têm também tido um incremento de vendas na área dos alimentos “saudáveis”. A juntar às espécies comestíveis ainda se cultivam e vendem abóboras ornamentais e verifica-se o retorno das esponjas vegetais do género Luffa.
As doenças causadas por vírus podem ser muito destrutivas e difíceis de controlar. Na família das Cucurbitáceas cerca de cinquenta e nove vírus foram já identificados a nível mundial e só na Bacia Mediterrânica, vinte oito destes vírus foram já detetados. Claro que nem todos são importantes e muitos estão restritos a certas áreas geográficas. Em seguida faremos uma pequena síntese dos mais importantes para Portugal.

Figura nº1- Abóboras da variedade “Butternut” com sintomas do vírus marroquino do mosaico da melancia MWMV

Vírus do mosaico das Cucurbitáceas
O Vírus do mosaico das Cucurbitáceas (Cucumber mosaic virus -CMV) é o vírus mais disseminado a nível mundial infetando cerca de 1272 espécies diferentes de plantas. É transmitido de forma não persistente por 60 espécies de afídeos (pulgões). Os sintomas deste vírus estão descritos desse 1916 e está documentada a sua deteção em Portugal desde 1977 (Borges 2005). Os sintomas dependem das condições ambientais, da maior ou menor suscetibilidade do hospedeiro, do estádio de desenvolvimento da planta aquando da infeção, e da estirpe do vírus. A sintomatologia varia entre um simples mosaico, a mosaico associado a deformação foliar e atrofia da planta. O vírus pode ser transmitido por semente em 19 espécies de Cucurbitáceas entre as quais em pepino (17%) e abóbora (6,5%).

Vírus do mosaico da melancia
O Vírus do mosaico da melancia (Watermelon Mosaic virus -WMV) está disseminado a nível mundial, afeta as Cucurbitáceas, mas também outras culturas como a ervilhas, espinafres e feijão. Infeta também inúmeras plantas da flora espontânea, entre outras malvas, senécio (tasna) e bolsa-de-pastor. A sua presença foi detetada em cerca de 180 espécies distintas. Está bem documentada a deteção deste vírus em Portugal desde 1979 (Borges 2005). O vírus é transmitido de modo não persistente por afídios, nomeadamente Myzus persicae e Aphis gossypii. O WMV diminui a produção e qualidade dos frutos e provoca manchas cloróticas e deformações especialmente em melancia, curgete, abóbora e pepino. O WMV era conhecido anteriormente por o Watermelon mosaic virus 2. Um vírus relacionado o vírus dos anéis da papaieira [Papaya ringspot virus -PRSV) que é constituído por duas estirpes a “P” de “papaya” que infeta só esta cultura e a “W” de “watermelon” que infeta Cucurbitáceas. A estirpe W era anteriormente conhecida por Watermelon mosaic virus 1. O PRSV é um vírus de distribuição mundial, mas restringe-se a locais com temperaturas altas todo o ano, pelo que nas regiões temperadas só é comum em estufas pois não sobrevive em hospedeiros da flora espontânea de um ano para o outro. É transmitido por afídeos.

Vírus marroquino do mosaico da melancia
O Vírus marroquino do mosaico da melancia (Moroccan Watermelon Mosaic virus -MWMV) foi detetado em Marrocos pela primeira vez em 1972 em melancia. Até 1998 era considerado uma estirpe do WMV, pelo que se pode inferir que algumas das deteções seriam de MWMV. O MWMV já foi detetado em África (Africa do Sul, Algéria, Camarões, Canárias, Congo, Marrocos, Nigéria, Suazilândia, Sudão, Tunísia e Zimbabué) e na Europa (Espanha, França, Grécia, Itália, e Portugal). Yaboubi e coautores em 2008 afirmam que MWMV está presente em Portugal embora no texto do artigo seja vaga a localização dessa deteção e do ou dos hospedeiros. O vírus é transmitido de modo semi-persistente por afídios, nomeadamente Myzus persicae e Aphis gossypii. Infeta um grande número de Cucurbitáceas (cerca de 40 espécies), quer cultivadas (abóboras, melões melancias e pepinos) quer de flora espontânea e já foi detetado em papaeira no Congo. Os sintomas são muito semelhantes aos do WMV. No caso específico da abóbora “butternut” no fruto formam-se manchas tipo pelo de leopardo o que inviabiliza a sua comercialização (Figura 1).

Vírus do mosaico amarelo da aboborinha
O Vírus do mosaico amarelo da aboborinha (Zucchini Yelow Mosaic virus –ZYMV) foi descrito pela primeira vez em Itália 1973 em curgete, mas foi rapidamente detetado nos cinco continentes. Em Portugal foi detetado pela primeira vez em 1989 também em Curgete (Borges 2005). É transmitido de forma não persistente por afídeos nomeadamente Myzus persicae e Aphis gossypii. Causa sintomas severos em curgete, melão, melancia e pepino. Os sintomas sistémicos consistem em amarelecimento das nervuras e margens das folhas, mosaico fortemente deformante, atrofia das plantas, possibilidade de necroses (figura nº2). As folhas podem reduzir-se quase a fios. Os frutos quando se formam são muito deformados e com mosaico.

Figura nº 2 Pepino da variedade “Inglês” com sintomas do vírus do mosaico amarelo da aboborinha ZYMV

Tomato leaf curl New Delhi virus
O Tomato leaf curl New Delhi virus (ToLCNDV) foi descrito pela primeira vez na Índia em 1995 em tomateiro, mas posteriormente foi descrito em Cucurbitáceas. Em 2012 foi detetado em Múrcia, Espanha em curgete e em 2015 na Sicília e Tunísia também em curgete, melão e pepino em estufas. É um vírus transmitido de modo persistente pela mosca branca Bemisia tabaci (Figura nº3). Os sintomas em Cucurbitáceas incluem mosaico amarelo, enrolamento da folha, nervuras empoladas, atrofia e frutos com a casca encortiçada. A produção é severamente afetada. Medidas de contenção devem incluir remoção de plantas afetadas, tratamento contra mosca branca e barreiras contra a mesma. Remoção de todos os hospedeiros potenciais do vírus e do vetor. Este vírus ainda não foi oficialmente detetado em Portugal.
As variedades comerciais de Cucurbitáceas introduzidas no mercado nos últimos anos são em larga medida tolerantes e/ou resistentes a muitos dos vírus comuns como o CMV, o WMV, o MWMV e o ZYMV. Esta situação leva a que sejam menor a atenção dada a algumas práticas culturais que minimizam a infeção como tratamento de afídios e remoção de infestantes, visto que os sintomas característicos e severos que se viam nas folhas e nos frutos pequenos não são tão aparentes na maioria das situações. Tem-se por isso verificado casos em que a sintomatologia só se verifica no fruto que depois não é comercializável pelo que reforça a recomendação de tomar medidas de boas práticas para controlo de viroses.

Figura nº 3 Mosca branca Bemisia tabaci vetor do Tomato leaf curl New Delhi virus -ToLCNDV

As medidas de controlo de virose são têm que ter em consideração os três vértices da doença: a planta, o vetor e o vírus. As medidas profiláticas são à partida uma prática de bom senso e devem iniciar-se logo na fronteira. Cada um de nós deve ser um agente de boas práticas fitossanitárias. É muito tentador trazer sementes e plantas de outras paragens, mas também estamos a importar doenças que causam inúmeros prejuízos. A semente deve ser certificada e se possível de variedades melhoradas para serem tolerantes aos vírus. Remover todos os restos de uma cultura anterior que possa ter tido vírus que infetem a cultura sucessiva. Os focos de infeção devem ser imediatamente removidos. As plantas hospedeiras naturais dos vírus devem ser removidas da vizinhança das culturas. Se possível plantar quando a população dos vetores é baixa ou inexistente. Os insetos transmissores devem ser combatidos, quer usando a luta biológica quer a luta química usando produtos autorizados, não descurando os intervalos de segurança legalmente aprovados. Em estufas colocar barreiras que impeçam a entrada de transmissores de vírus.

Referências

Borges, M.L.V. 2005, Vírus, Viróides e Doenças de Plantas. EAN, Oeiras
Yakoubi, S., Desbiez, C. Fakhfakh, H. Wipf-Scheibel, C. Marrakchi, M., Lecoq H., 2008 Biological characterization and complete nucleotide sequence of a Tunisian isolate of Moroccan watermelon mosaic virus. Archives of Virology (2008) 153: 117

Margarida Teixeira Santos
Técnica Superior do INIAV
Quinta do Marquês, Av. da República 2780-159 Oeiras.
margarida.santos@iniav.pt

Publicado na Voz do Campo n.º 206 (julho 207)