Opinião

Cereais. Uma cultura de especialização

Como foi a evolução do setor dos cereais nestas últimas duas décadas?

O setor dos cereais tem tido uma evolução brutal em decréscimo de área, devido à instabilidade dos preços mas também às más condições (para produção) verificadas em Portugal, com o clima mediterrânico e as alterações climáticas a fazerem sentir-se cada vez de forma mais evidente, com primaveras muito secas e falta de água naquela altura em que as culturas mais precisam.

Além disso, tem-se assistido a uma mudança cultural nas terras melhores, que agora têm água proveniente de Alqueva, e nas quais se abandonou a cultura dos cereais e se optou por outras (em teoria) mais rentáveis, sobretudo culturas permanentes. Em suma, o cenário desta evolução é muito negativo para os cereais.

Mas, ainda assim, temos casos de sucesso?

É inegável que se os cereais forem bem feitos e se forem regados é possível atingir produções mais interessantes e é uma cultura que continua a ser rentável. Mas, naquelas terras marginais, que antigamente eram aproveitadas para esta cultura, com os preços praticados hoje em dia, tornou-se incomportável. Tornou-se uma cultura de especialização e com forte componente nas explorações mistas que também possuem vertente de pecuária e nas quais os cereais entram num sistema de rotação.

Dentro do universo dos cereais, há alguma espécie que tenha deixado de ser viável/ interessante para o agricultor?

Temos assistido a uma realidade na qual quem produz cereais está cada vez mais interessado em produzir qualidade, e isso significa cereais para alimentação humana: trigo mole e trigo duro. Isto porque nos cereais forrageiros competimos com o mundo inteiro e os preços são sempre mais baixos.

Em Portugal conseguimos produzir boa qualidade, temos capacidade industrial instalada para transformar os trigos moles e os trigos duros de qualidade e temos um preço um pouco melhor, por isso, o que temos vindo a assistir é a uma tendência de que quem produz cereais fazê-lo pela qualidade em detrimento dos cereais forrageiros.

José Palha: Produtor e presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas

Para ler na íntegra na edição 208 (outubro 2017)