Opinião

A citricultura portuguesa. Desafios e ameaças.

Os citrinos são uma cultura importante em Portugal desde o séc. XVI, sendo o Algarve a principal região citrícola do país. A meados do séc. XX houve um grande aumento da área de cultivo no Algarve, tendo a citricultura passado a constituir o principal sector da agricultura da região e um dos principais sectores da fruticultura nacional.

Nos últimos anos, tem havido um aumento da área média dos pomares, com abandono de pequenas parcelas, enquanto os maiores produtores têm vindo a fazer grandes plantações. Isto tem sido acompanhado de uma modernização tecnológica, parcialmente relacionada com o aumento do número de agrónomos responsáveis pela condução técnica das explorações citrícolas. Além disso, muitos pomares passaram a ser geridos tecnicamente pelas organizações de produtores que comercializam a fruta. Estas alterações, juntamente com a modernização das centrais, fizeram com que hoje os citrinos produzidos em Portugal tenham um elevado nível de qualidade e uma boa apresentação, o que permite fazer a sua comercialização nos mercados mais exigentes.

De entre as várias espécies citrícolas, os agricultores portugueses têm investido sobretudo na laranjeira. Isto fez com que Portugal, nos últimos anos, se tenha tornado autossuficiente em laranja. Além disso, o preço médio das laranjas exportadas tem sido superior ao preço médio das laranjas importadas. Está-se perante uma situação bastante positiva, tendo em conta o nosso défice comercial na maioria dos produtos hortofrutícolas. Já no caso das tangerinas, limas e limões, continuamos a importar mais do que exportamos.

A fruta portuguesa goza de um bom prestígio no mercado nacional e em alguns mercados europeus. No caso dos citrinos, o prestígio da produção do Algarve é reconhecido através da IGP “Citrinos do Algarve”. Esta qualidade deve-se às condições edafoclimáticas da região, a um modo de produção relativamente pouco intensivo e a uma colheita relativamente tardia, comparando com outros países produtores.

Embora o mercado das frutas seja altamente competitivo, o prestígio dos citrinos portugueses e o bom conhecimento que muitas empresas já têm sobre os mercados internacionais facilitam o escoamento da produção nacional. Por outro lado, temos alguma disponibilidade de solos e um bom conhecimento técnico e experiência na produção de citrinos. Existem, portanto, condições para a expansão do seu cultivo. A falta de mão-de-obra tem surgido como o principal factor limitante dessa expansão.

Apesar dos progressos e potencialidade referidos, podemos dizer que a citricultura portuguesa está hoje ameaçada de morte

Além da já conhecida ameaça da Tristeza dos citrinos, temos hoje uma nova ameaça, o huanglongbing (HLB), também conhecida por greening, uma das doenças mais graves dos citrinos, uma vez que reduz muito a produtividade das árvores, tornando inviável o seu cultivo em zonas onde está instalada. Esta doença é provocada por uma bactéria e é transmitida por psilas, entre elas, a psila africana dos citrinos (Trioza erytreae). Esta psila foi introduzida no norte do país e tem-se vindo a disseminar para sul pela zona costeira, estando já na Figueira da Foz, e recentemente foi descoberto um novo foco em Sintra. Além de provocar danos nas plantas, a Trioza constitui uma séria ameaça para a citricultura portuguesa, pela sua capacidade de transmissão do HLB. A bactéria que provoca a doença ainda não foi encontrada na Europa, mas, tendo em conta a crescente movimentação de pessoas e bens, é difícil evitar que ela venha a entrar em Portugal. Quando isso acontece numa região onde já existe a psila, é praticamente impossível controlar a doença. Por essa razão, para a citricultura portuguesa é importante evitar que a Trioza erytreae chegue à zona de Coimbra, onde se situam muitos dos viveiros de citrinos, e ao Algarve, a principal região citrícola. Perante este problema, o Ministério da Agricultura estabeleceu medidas de contenção da psila. Porém, essas medidas não têm sido suficientes para evitar a sua disseminação. Este ano as medidas já foram reforçadas duas vezes. Porém, se não houver um controlo rigoroso da sua aplicação e não tivermos a coragem de erradicar hospedeiros, incluindo arranque de citrinos, dificilmente conseguiremos conter esta praga. E disso depende o futuro da citricultura portuguesa e europeia.

Amílcar Duarte

Centro para os Recursos Biológicos e Alimentos Mediterrânicos (MeditBio) /Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade do Algarve, Campus de Gambelas, 8005-139 Faro

Professor da licenciatura em Agronomia e do mestrado em Hortofruticultura

aduarte@ualg.pt

Publicado na Voz do Campo n.º 208 (outubro 2017)