Opinião

A todo o momento surgem novidades com impacto nos resultados dos agricultores

*Joaquim Pedro Torres, empresário agrícola

Na sua opinião quais foram os grandes “momentos” de mudança da agricultura portuguesa  nas últimas duas décadas?
A agricultura está em permanente evolução. Surgem a todo o momento novas tecnologias, novas moléculas, novas genéticas com impacto nos resultados dos agricultores. Por exemplo, no caso do milho a genética convencional permitiu ganhos médios de 100 kg/ha anuais nos últimos 30 anos.
Em 40 anos de atividade agrícola senti 2 momentos que foram mais do que o normal progresso de uma atividade económica. “Revoluções” que marcaram grandes saltos na produtividade do solo e na produtividade do trabalho agrícola: os sistemas de rega center pivot e gota a gota algures em 1984/5 e, recentemente, o Alqueva.
O primeiro caso trouxe a possibilidade de automatizar uma operação cultural muito complexa e de ajustar as dotações de rega à capacidade de retenção de água dos solos. O conceito de aptidão para o regadio foi alterado. Desde que houvesse água, os solos de areia, os declivosos, os de textura muito pesada entraram para o universo do regadio. Os terrenos já irrigados passaram a sê-lo de forma mais perfeita. Num país de clima mediterrânico o impacto destes 100 mil hectares de novos regadios foi enorme.
O Alqueva permitiu aplicar a mesma receita a mais 150 mil hectares do Alentejo. Aqui a transformação é ainda mais profunda. O aumento espetacular da produtividade do solo pelo regadio aliado a uma estrutura fundiária de grande propriedade atraiu fortes investidores portugueses e estrangeiros. Com eles chegaram novas culturas, culturas antigas modernizadas, novas tecnologias e mesmo uma nova mentalidade. A adaptação ao regadio é apenas o primeiro passo da intensificação e, a partir daí, é preciso procurar mais e mais valor acrescentado na produção para assegurarmos um lugar de relevo no ranking da competitividade.
A influência direta e indireta desta obra na região é unanimemente reconhecido. Penso que no futuro esta influência chegará a outras regiões.
Provavelmente teríamos que recuar ao aparecimento do trator para encontrar um impacto tão grande na agricultura portuguesa.

Estando diretamente ligado ao milho, de que forma é que esta cultura mudou, em que fase se encontra e o que é que se pode perspetivar para o futuro?
Os produtores de milho atravessam um momento de incerteza. Por um lado as produtividades continuam a evoluir de forma positiva. Por outro, existem desvantagens comparativas com os principais países produtores mundiais. A chuva na época da produção (85% do milho mundial é produzido em sequeiro), os solos profundos e com matéria orgânica, a estrutura fundiária e um conjunto de regras restritivas adotadas na UE tornam muito difícil acompanhar preços de proveniências como Brasil, Ucrânia, Argentina, Estados Unidos… principalmente numa fase de transportes marítimos baratos.
O mecanismo de proteção em vigor – direitos niveladores – para milho vindo de países terceiros dispara abaixo do limiar de rentabilidade para os produtores europeus (aprox. 152 euros CIF Roterdão).

Para ler na íntegra na edição 208 (outubro 2017)