Grande Entrevista

Firmino Cordeiro, diretor-geral da AJAP

Esta agricultura não é para jovens?

Portugal é um dos países da UE com menor renovação geracional na agricultura: metade dos agricultores portugueses tem mais de 65 anos e dos 264.420 gestores de explorações agrícolas identificados em Portugal, 73.7% têm 55 ou mais anos de idade. Os números, considerados alarmantes, são-nos apresentados por Firmino Cordeiro, diretor-geral da Associação de Jovens Agricultores de Portugal – AJAP que reforça a vontade de investir por parte dos jovens, o que devia ser aproveitado atendendo à necessidade de rejuvenescer o tecido empresarial agrícola.

Antes de mais nada, qual é atualmente “o peso” dos jovens na atividade agrícola nacional?
Nos nossos dias, os jovens têm efetivamente um maior peso e ainda bem. Atualmente, em Portugal, existirão entre 3 a 4% de jovens agricultores no contexto global dos agricultores.
Portugal é um dos países da UE com menor renovação geracional na agricultura: metade dos agricultores portugueses tem mais de 65 anos e dos 264.420 gestores de explorações agrícolas identificados em Portugal, 73.7% têm 55 ou mais anos de idade. De acordo com o Eurostat, em Portugal, o número de agricultores até 44 anos de idade tem vindo a diminuir na seguinte proporção: 29.130 (em 2005), 22.470 (em 2007), 25.080 (em 2010) e 19.130 (em 2013).

Por cada agricultor abaixo dos 35 anos há 5,6 agricultores
com mais de 65 anos. São números alarmantes.

Mais de metade dos agricultores da União Europeia tem 55 anos de idade ou mais e apenas 6% dos gestores de explorações têm menos de 35 anos. Por cada agricultor abaixo dos 35 anos há 5,6 agricultores com mais de 65 anos. São números alarmantes.
O panorama da agricultura na UE sofreu profundas alterações nos últimos anos. O número de agricultores diminuiu e a área média das explorações agrícolas aumentou. Entre 2010 e 2013 o número de agricultores diminuiu 12,8%. Em 2013 existiam na UE 11 milhões de explorações agrícolas com um total de 174 milhões de hectares de terra arável. A competição pela terra é hoje em dia elevada e é necessário especialização e conhecimento técnico para sobreviver num mercado global cada vez mais competitivo.
Ou seja, temos feito um importante trabalho e esforço ao nível da instalação de jovens agricultores, mas o país não deve desacelerar sob pena de estarmos a hipotecar o futuro da atividade agrícola se não se rejuvenescer o suficiente.

Está próximo do que seria desejável?
No seguimento do referido anteriormente, temos de continuar a melhorar e corrigir alguns aspetos na atratividade da agricultura, pecuária, turismo rural, florestas, recursos naturais e mitigação das alterações climáticas, para que não só os jovens associados ao espaço rural e oriundos de gerações de agricultores possam agarrar este desafio, como também outros jovens associados ao espaço urbano.
O espaço rural tem de disponibilizar um conjunto de serviços base, capaz de responder às necessidades atuais de saúde, aprendizagem, lazer e cultura, de modo a conferir aos seus residentes e aos novos empreendedores agrícolas e rurais mais qualidade de vida.

Quais são hoje as principais dificuldades que o Jovem Agricultor enfrenta?
Apesar de algumas melhorias pontuais, as principais dificuldades vão sendo sucessivamente repetidas ao longo dos anos, refiro-me ao acesso à terra, ao acesso ao crédito, à formação profissional direcionada e ao acompanhamento técnico.
De referir que, ao longo dos vários Quadros de Financiamento a Jovens Agricultores, assistimos a diferentes valores atribuídos ao prémio à primeira instalação, à percentagem de financiamento ao investimento, à majoração a essa percentagem devido à sua realização em regiões desfavorecidas, também à sua majoração se o beneficiário pertence a uma Organizações de Produtores.
Faz-se diferente quando se altera a ideologia política e porque, pelos vistos, fica bem mudar o quer que seja. A AJAP acha pouco fundamentado este tipo de alterações e pouco assente em estudos e sem uma análise objetiva da experiência de Quadros de Financiamento anteriores.

Quais têm sido as estratégias da Associação para “chamar” mais jovens para a atividade?
Possuímos e produzimos meios próprios de divulgação e informação, como a newsletter mensal – AJAP Objetiva, a revista trimestral JA – Jovens Agricultores. Possuímos uma rede de 18 técnicos com formação agrícola superior, distribuída por todas as regiões do continente, que entre outras funções prestam, jovem-a-jovem, as informações iniciais na fase pré projeto de instalação e investimento, idealização do mesmo, submissão e acompanhamento nos primeiros anos após aprovação.
São inúmeros os seminários realizados ao longo do ano e em diferentes regiões, por forma a divulgar os nossos serviços de apoio e nomeadamente ouvir os anseios e opiniões dos jovens e agricultores, para que a nossa reivindicação junto da tutela seja a mais contextualizada possível, com as necessidades das diferentes regiões de Portugal.

Tem sido um percurso difícil?
Sempre muito difícil, aliás a AJAP vai somando algumas vitórias porque insistimos, somos resilientes, e dificilmente desistimos das nossas convicções quando emanam da vontade coletiva dos nossos associados.

Comparativamente com há dez/15 anos, a situação mudou? Isto é, há mais interesse dos jovens pela atividade agrícola, como é frequentemente veiculado?
Infelizmente a realidade objetiva que o país agrícola hoje respira é de terra queimada e muito seca, e de consequências financeiras muito nefastas para o dia-a-dia de muitas explorações de pequena e média dimensão.
A agricultura portuguesa, nomeadamente a mais desenvolvida, associada a explorações de maiores dimensões, e/ou de regadio, e/ou tecnologicamente mais desenvolvida e inovadora, mesmo em pequena dimensão, respira reconhecimento e respeito publico, produz de forma diferenciada, ganha escala e exporta, o que obviamente motiva mais interesse e investimento por parte de jovens e menos jovens.
Para melhor aferir estes números, basta olhar para o peso do setor juntamente com a floresta na economia real, para a taxa de exportação comparativamente a outros produtos, para o maior equilíbrio alcançado na balança comercial em produtos agrícolas e agroindústrias, atingido nos nossos dias, impensável há dez ou quinze anos.
Este posicionamento deve ser olhado pelos governantes com optimismo, mas acima de tudo com a responsabilidade de continuar a apoiar o setor. Nomeadamente apoiar mais as explorações mais débeis e frágeis, associadas ao seu contexto de interioridade e ruralidade, com as desvantagens que daí advêm, mas também oportunidades e valorização das suas produções (produtos físicos e outras vantagens para a comunidade) que infelizmente cresce a um ritmo muito abaixo do desejável.

Os jovens que vão “chegando” à atividade normalmente estão ligados a culturas mais tradicionais ou são mais “aventureiros”?
Existe um pouco de tudo. Os jovens associados ao espaço rural e oriundos de explorações agrícolas existentes, tendencialmente associam-se a culturas tradicionais, incutindo-lhes várias melhorias. Por outro lado, os novos jovens agricultores, com poucas ou nenhumas ligações à atividade, são arrojados, mais inovadores, associam mais tecnologia, mais marketing e procuram novas culturas, ou culturas mais antigas que deixaram de ser exploradas.

No caso de novas culturas, quais podem ser as destacadas?
Nas fruteiras podemos falar do Dióspiro, Figo-da-índia, Amêndoa, Kiwi, Maracujá, Medronheiro, Noz, Pistacho e Romã. Relativamente aos pequenos frutos: Amora, Baga de Goji, Framboesa, Groselha e Mirtilo. Relativamente aos vegetais e tubérculos destacamos o Espargo e a Batata-doce.

A Ajap assume algum papel nesta matéria (aconselhamento)?
Existe, como sabe, o SAAF – Sistema de Aconselhamento Agrícola e Florestal, como medida inserida no atual PDR, e o SAA – Sistema de Aconselhamento Agrícola no anterior Programa Proder. As organizações de agricultores infelizmente não conseguem fazer aconselhamento e acompanhamento constante aos agricultores pelos seus meios, a não ser que os agricultores estejam disponíveis a pagar este tipo de serviços, o que não acontece atendendo aos seus rendimentos.
Nesse sentido, o papel das organizações sofre, ou pode sofrer, algumas interrupções na continuidade de um determinado serviço em função da circunstância deste tipo de programas, o que é mau para os agricultores e para as organizações.
Aliás, como se sabe, o Estado há muito tempo abandonou a prestação de um conjunto de serviços aos agricultores, passando essa responsabilidade para as associações e confederações de agricultores, sem no entanto ter transferido todos os meios necessários para a sua realização.
Da parte da AJAP, temos feito um esforço muito grande para manter em contínuo um conjunto de serviços de aconselhamento e de acompanhamento aos agricultores e aos jovens agricultores para que não sejam prejudicados na sua atividade, o que nem sempre é muito fácil.

Grande entrevista para ler na íntegra na edição 209 (novembro 2017)