Opinião

Gestão eficiente de água na agricultura e…não só: um imperativo!

Apesar de Portugal ser caracterizado climaticamente por uma significativa variabilidade intra e inter-anual, o presente ano de 2017 tem sido particularmente quente e seco.

A título de exemplo e de acordo com dados do IPMA (ipma.pt), o mês de Setembro registou os valores mais baixos de precipitação desde 1931 (note-se que anteriormente o número de estações sobre as quais há valores normais era diminuta). Estamos assim sob condições de seca severa a extrema no território continental. Condições meteorológicas que se têm prolongado pelo mês de Outubro (com temperaturas máximas ultrapassando os 30ºC em praticamente todo o território continental e ausência de precipitação). Esta situação, que se tem agravado, proporciona elevados valores de evapotranspiração potencial e muito baixos valores de humidade do solo, com evidentes impactos negativos ao nível das culturas agrícolas, característico de seca agrícola.

No imediato são apontadas quebras muito significativas na produção da castanha e da azeitona pela baixa disponibilidade hídrica.

Acresce que as altas temperaturas, que anteciparam as vindimas em 2-3 semanas, atrasam a entrada em período de repouso de culturas como a vinha, condicionando o planeamento dos trabalhos da poda e o acumular de reservas na planta para o ciclo vegetativo do ano seguinte. Por outro lado, as novas plantações e/ou sementeiras (como sejam os cereais de outono/inverno) tornam-se inviáveis, pois as jovens plantas poderão morrer ou as sementes não germinar, dado o acentuado défice hídrico no solo. Há igualmente que destacar, os impactos na pecuária, diretos pela falta de água e indiretos pela escassez de alimento.
Preconiza-se como medida de adaptação a tais condições atmosféricas, a implementação da rega em culturas tradicionalmente sob regime de sequeiro (ex. amendoeira, oliveira, vinha). De facto esta prática cultural tem um impacto produtivo e económico muito significativo, como se tem verificado no perímetro de rega do Alqueva. Contudo dadas as crescentes necessidades de consumo doméstico, a orografia do território, o custo de implementação do sistema de rega e as projectadas condições climáticas futuras mais gravosas, esta técnica terá de se constituir uma alternativa entre outras, dentro do que é designado por boas práticas agrícolas. Neste âmbito é imperativo aumentar a eficiência na gestão da água (ao nível do uso e da qualidade), promovendo-se a conservação do solo (e consequentemente a humidade do solo) e o aproveitamento de águas pluviais, sempre que possível. Há que encarar a água como um bem escasso e com valor económico (lamentavelmente esta consciência ainda não está presente em muitos utilizadores, desde o setor primário ao terciário), no âmbito de uma gestão integrada dos recursos hídricos. Há assim que investir cada vez mais na sustentabilidade hídrica, com vista a diminuir a “pegada hídrica” (envolvendo toda a cadeia de produção), tendo sempre presente que as plantas (e também os animais) são constituídas maioritariamente por água.

Por Aureliano Malheiro
Prof. do Departamento de Agronomia da UTAD