Agrociência Bio Floresta

A Agricultura e alterações climáticas

A agricultura Biológica como Ferramenta de Redução dos Incêndios Florestais: Parte X

7.5. – AGRICULTURA E ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Perante os cenários previsíveis e no âmbito do projecto SIAM13, projecto pioneiro com objectivo de estudar os cenários evolutivos e impactos multi-sectoriais das alterações climáticas em Portugal, foram identificadas as seguintes propostas de medidas de adaptação para actividade agrícola: Alterações nas datas de sementeiras e colheitas; Selecção e melhoramento de variedades melhor adaptadas a climas mais quentes e secos; Adequação de práticas culturais; Substituição de culturas de regadio por outras menos exigentes em água ( melhoria da eficiência do uso de água), (José Paulino, 2009).

Reforço do papel da agricultura como prestador de serviços ambientais – água, solo, biodiversidade – garantindo a manutenção dos ecossistemas; reforço das infraestruturas agrícolas; criação das sinergias entre adaptação e mitigação; melhorar o conhecimento dos agricultores; reforço da cooperação entre Estados Membros; intensificar a investigação nas interacções clima-agricultura. Neste contexto, o reforço financeiro das medidas da PAC, tendo ainda sido considerado: Alargamento do âmbito de aplicação do apoio à sementeira directa; Aumento do apoio à produção e utilização de energias renováveis nas explorações agrícolas; e complementadas com outras medidas agro-ambientais no âmbito das ajudas directas, ao abrigo do artº 68 do Reg. (CE) 73/2009, designadamente o apoio a sistemas extensivos, tradicionais e de alto valor natural: Medida agro-ambiental de apoio ao pastoreio extensivo; Manutenção de sistemas pecuários extensivos baseados em raças autóctones (José Paulino, 2009).

Sendo a menor disponibilidade de água e maior irregularidade da sua distribuição espacial e temporal o factor determinante na evolução do sector agrícola em Portugal, considera-se prioritária a actuação ao nível da melhoria da capacidade de armazenamento e distribuição de água com recurso a tecnologias de rega mais eficientes, a par da utilização de culturas menos exigentes em água e melhor adaptadas à evolução climática prevista, aumentando desta forma a sustentabilidade sectorial. A actuação ao nível da melhoria da conservação do solo deverá merecer também um destaque dadas as sinergias notórias entre a mitigação e a adaptação que proporciona; a luta contra os incêndios florestais, a desertificação e a preservação da biodiversidade devem constituir prioridades da estratégia nacional de adaptação às alterações climáticas; a gestão de riscos e crises, decorrente do aumento da variabilidade climática, afigura-se crucial merecendo particular atenção ao nível das políticas públicas, propondo-se maior integração comunitária a este nível e reforço dos mecanismos existentes, aumentando designadamente a sua abrangência para incluir todos os tipos de fenómenos climáticos; ao nível da investigação, deve ser prioridade avaliar de forma mais precisa as interacções que ocorrem entre as combinações região /cultura /clima /solo /práticas culturais, tendo em conta que a intensidade e magnitude dos impactos das alterações climáticas dependem grandemente das condicionantes locais de cada país/região. Deve-se reforçar, também, a investigação no âmbito dos recursos genéticos, eficiência no uso da água, pragas e doenças, bem como na definição de indicadores de vulnerabilidade que permitam monitorar a evolução dos sistemas agrários do mediterrâneo (José Paulino, 2009).

7.6 – UMA AGRICULTURA E FLORESTA COM ELEVADO VALOR NATURAL, SUSTENTÁVEL E CERTIFICADA COMO BIOLÓGICA, EM TERRITÓRIOS DE BAIXA DENSIDADE. UMA FERRAMENTA PARA REDUZIR A DIMENSÃO DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS

Iniciativa “suster e inverter” a tendência de diminuição da agricultura familiar em Portugal, registada nos últimos anos. É fundamental promover o reposicionamento da agricultura familiar no seio das políticas agrícolas, ambientais e sociais, identificando lacunas e oportunidades para promover uma mudança que conduza a um desenvolvimento mais equitativo e equilibrado. “apoio reforçado” à pequena agricultura e ao rejuvenescimento do tecido social das zonas rurais, promover a ocupação de territórios maioritariamente despovoados e o exercício de práticas ambientais que contribuam para a preservação da biodiversidade e da paisagem. “Concentrar um conjunto de ajudas possíveis para defender e revitalizar este importante setor económico e social” (Capoulas Santos, 2017).

Os usos agrícolas do território asseguram a produção de diversos bens públicos ambientais, designadamente em termos de preservação da biodiversidade, da protecção do solo e do sequestro de carbono, bem como da regulação do ciclo hidrológico, zonas tampão aos incêndios e da criação de paisagem. Cerca de 3/4 da SAU é ocupada por sistemas de agricultura extensiva, quer de culturas temporárias e permanentes quer de pastoreio, criando condições favoráveis à preservação dos recursos naturais e à manutenção do importante património de biodiversidade existente no país (MAMAOT, 2013).

Monitorização e avaliação periódicas das características físicas e químicas dos solos portugueses, incluindo a RAN. Cartografia de referência dos tipos e qualidade dos solos. Prevenção/controlo da erosão e da torrencialidade. Monitorização do sequestro de carbono nos solos agrícolas e florestais Aplicação de boas práticas de uso e conservação do solo (ex.. mobilização mínima, sementeira directa, enrelvamento entrelinhas, cobertura do solo e rotação cultural, preferencialmente longa e incluindo leguminosas).

Consideração da problemática da desertificação nos sistemas de aconselhamento agrícola e florestal. Condicionamento dos apoios financeiros a projectos agrícolas e florestais à adopção de práticas relevantes para o combate à desertificação com diferenciação por subsectores e por regiões. Conservar e promover os montados, outros sistemas agro-florestais mediterrânicos, outras florestas e matagais mediterrânicos, bem como sistemas de produção agrícola mediterrânicos adequados às especificidades regionais (MAMAOT, 2013) .

Áreas agrícolas e florestais com elevado valor natural, formam o sistemas agrícolas e florestais, de ocupação do solo, com o mosaico paisagístico em que se inserem os diversos sistemas de produção agrícola.: Mosaico agrícola e natural; Montado; Prados; Matos; Floresta de folhosas; Floresta de coníferas; Floresta mista e Afloramentos rochosos (Pedro Frazão, 2017).

O processo produtivo agrícola é considerado sustentável quando se realiza com uma gestão correta dos seus recursos naturais, especialmente dos mais limitantes, e tem viabilidade económica, possibilitando, à sociedade que a conduz, a continuação da atividade agrícola‖ (Fernández-Zamudio et al., 2007, p. 807).

A Agricultura Biológica deve sustentar e melhorar a saúde dos solos, da planta, do animal e do homem, como um todo indivisível (Jorge Ferreira, 2012).

VIII – RESULTADOS

O facto de o coberto vegetal ter decrescido na sua densidade territorial assim como a biomassa no solo. Termos assistido a um fenómeno interessante, segundo o último inventário florestal, o número da área de eucaliptos ultrapassou o de pinheiro-bravo e de sobreiro. Ter-se verificado que, desde os anos 60, os incêndios têm aumentado a sua violência. Aumento que tem sido acompanhado com a expansão da área de eucaliptos. Ou seja, tem existido uma relação causa-efeito entre a “eucaliptização” do país e a violência dos incêndios, comprovado pela destruição causada. Os eucaliptos interessam mais às celuloses por serem árvores de crescimento mais rápido do que os pinheiros. Nas últimas décadas incrementaram-se tão desenfreadamente as plantações de eucaliptos que se criou em Portugal a maior área de eucaliptal contínuo da Europa. Como é uma espécie muito inflamável durante todo o ano (L. Ribeiro, 2011), aumenta a velocidade de propagação do incêndio, assim como a sua severidade e violência.

Êxodo rural, o abandono das aldeias e povoações do interior deixam terrenos que serviam para a atividade agrícola e pastorícia ao abandono. Encontrando-se grande parte ao abandono e consequentemente com a vegetação a entrar pelas habitações dentro.

Os fenómenos de despovoamento de vastas regiões predominantemente agrícolas conduziram a alterações significativas na paisagem e levaram ao desenvolvimento de condições favoráveis à deflagração e propagação do fogo.

Ainda vamos a tempo de inverter este fado, apostando no ambiente e desenvolvimento sustentável, com promoção e competitividade do sector agrícola e florestal, com gestão sustentável do património rural, dinamização das zonas rurais, reforço e coesão territorial e social. Uma agricultura biológica “sustentável” pode dinamizar e valorizar a agricultura e a pecuária. Transformar as áreas agrícolas abandonadas em zonas tampão aos incêndios. Criando descontinuidades. Gerir os combustíveis de forma sustentável, gerando rendimento. Melhorando e valorizando a paisagem. de modo a proteger a saúde e bem estar das actuais e futuras gerações e do ambiente, a par de um sistemas agrícolas e florestais com maior valor natural (sistemas pastoris extensivos, sistemas cerealíferos de sequeiro, sistemas de culturas permanentes de sequeiro e sistemas de mosaico).

Desenvolvimento endógeno com a mobilização dos próprios recursos, com prioridade para o uso dos próprios recursos naturais e renováveis da exploração.

Desenvolvimento ascendente com protagonismo para os agentes locais, como mão de obra familiar e local.

Desenvolvimento autocentrado centrado nas necessidade da própria comunidade (mercados locais e certificados), onde à uma procura por produtos biológicos e de qualidade (segurança alimentar).

Desenvolvimento sustentável Sem comprometer as necessidades das gerações futura.

O interior possui milhares de Ha de solo que pode voltar a ser cultivado e produtivo, como foi noutros tempo. É verdade que em termos de preços não conseguimos competir com os países da europa central, mas em qualidade temos a vantagem dos nossos solos não se encontrarem contaminados com pesticidas, e é esse trunfo que é a nossa mais valia “qualidade, ambiente, económica”, de forma a valorizar os nossos produtos. As consciências e hábitos alimentares estão a mudar e é ai que podemos e devemos apostar numa agricultura sustentável diversificada que sirva um mercado diversificado (variedade de produto). Não numa monocultura florestal, que só tem um produto para venda e um comprador para esse produto, Não é necessário sermos economista ou expertos na matéria para sabermos de o desastre económico que é uma monocultura.

O desfio que se coloca, passa por valorizar as pessoas de forma que voltem para agricultura, e essa não seja o parente pobre da economia local mas sim uma profissão digna.

Parte I: A Agricultura Biológica como ferramenta de redução dos incêndios florestais

Parte II: Incêndios de Figueiró dos Vinhos

Parte III: As causas dos Incêndios

Parte IV: Zona Mediterrânica

Parte V: As estratégias das plantas para resistir ao fogo

Parte VI: Floresta Portuguesa

Parte VII: Alterações Climáticas

Parte VIII: Sistema Agrícola e Florestal de Elevado Valor Natural

Parte IX: A Agricultura Biológica

Parte X: Agricultura e Alterações Climáticas

Parte XI: Conclusões