Agrociência Bio Floresta

A agricultura Biológica como Ferramenta de Redução dos Incêndios Florestais

Politécnico de Coimbra

Escola Superior Agrária de Coimbra

Mestrado em Agricultura Biológica

1.º Ano – 2.º Semestre

Estágio Profissionalizante

Luís Amaral

 

Parte I

I – METODOLOGIA

Para a realização deste estudo será utilizada a metodologia exploratória e descritiva, com recurso a pesquisa bibliográfica com base em artigos científicos publicados, revistas científicas, livros de referência de autores nacionais e internacionais e informação disponível nos websites de entidades ou organizações nacionais relacionadas com o tema em estudo, tais como o ICNF (Instituto Conservação Natureza floresta), C. M. F. (Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos) , entre outras.

II – INTRODUÇÃO

O provérbio Finlandês que refere que o “fogo é um bom criado mas um mau patrão” resume bem o duplo papel que o fogo tem tido ao longo dos tempos nas sociedades e as diferentes formas de como este pode ser encarado. A ideia de catástrofe e destruição que associamos hoje ao fogo, pode ser também uma ideia de bênção ou de renovação. A própria mitologia reflete este aparente paradoxo, pois tanto encontramos referências mitológicas que associam o fogo ao inferno, como outras que o associam a um bem precioso roubado aos Deuses (Joaquim Silva et Castro Rego, 2007).

Uma das figuras mais interessantes da mitologia que reflete o duplo papel do fogo é a Phoenix. Esta ave mítica que renasce das cinzas, encerra em si o duplo papel do fogo, ao longo de milhões de anos, simultaneamente uma forma de destruição e de renascimento tal como acontece com os ecossistemas que têm evoluído na presença do fogo. Na verdade, a vegetação natural, em particular no diz respeito às condições edafo-climáticas do nosso país, comporta-se face ao fogo como uma autentica Phoenix, capaz de renascer das cinzas e pronta arder de novo passado algum tempo. Estas características são, muito provavelmente, o resultado das adaptações das diferentes espécies a um ambiente em que tudo se conjuga para que o fogo surja com alguma frequência (Joaquim Silva et Castro Rego, 2007).

O presente estudo tem como objectivo demonstrar como em Portugal o ciclo do fogo nos últimos 100 anos se transformou e se associou à palavra incêndio. Às consequências por vezes trágicas que acarreta.

Alteração do uso solo associada as alterações climáticas nas ultimas quatro décadas tem contribuído para agravar este problema dos incêndios.

Deste modo aumentar o nível de conhecimento sobre os incêndios florestais, de forma a procurar minimizar os seus impactos, com o fomento das áreas agrícolas e florestais com elevado valor natural.

Implementação de um sistema agrícola de alto valor natural ou reintrodução do mosaico agro-florestal abandonado ou destruído nos últimos 100 anos.

Certificação das culturas agrícolas e florestais em modo de produção Biológico, de maneira a proporcionarem uma mais valia ambiental e económica.

III – INCÊNDIOS

3.1 – O FOGO

Embora o fogo tenha moldado os ecossistemas mediterrâneos, os regimes de ocorrência de fogo, isto é, a sua frequência, tipologia e intensidade, modificaram-se ao longo do tempo. O ciclo natural de fogo foi reduzido (J. Pereira et al., 2006), os fogos tornaram-se mais recorrentes (F. Ferreira-Leite et al., 2011), aumentaram em intensidade e extensão, tomaram dimensões catastróficas e, eventualmente reduziram a sua importância relativamente à renovação dos ecossistemas (R. Noss et al., 2006). Com efeito, em Portugal, a influência do ser humano sobre a floresta através do fogo (queima), remonta à idade do Bronze (Devy-Vareta, 1993), tendo sido utilizado como uma ferramenta de alteração do uso do solo ou do coberto vegetal. A partir dos anos 50 do seculo XX, com a profunda desestruturação do mundo rural e com uma maior pressão para arborizar terrenos incultos e/ou abandonados, criaram-se as condições para uma profunda modificação dos regimes de fogo vigentes no nosso país, até então (Bento-Gonçalves et al, 2010).

3.2 – OCORRÊNCIA DE INCÊNDIOS

As mudanças socioeconómicas verificadas no início da segunda metade do século XX, nos países europeus do sul da Europa, parece ter contribuído para um cenário onde os incêndios se tornaram mais prováveis de ocorrer e mais difíceis de extinguir, devido à elevada quantidade de material vegetal combustível acumulada ao longo dos anos (L. Lourenço, 1991; R. Vélez, 1993; J. Moreno et al., 1998; F. Rego, 2001) e que, conjugada com condições climáticas muito favoráveis (S. Pyne, 2006), proporciona um cenário favorável à ocorrência de incêndios catastróficos, resultando num incremento da dimensão das áreas ardidas (F. Ferreira-Leite et al., 2013). Embora sejam estatisticamente irrelevantes (um número reduzido), quando comparados com o total das ocorrências registadas em Portugal, os grandes incêndios florestais (entendidos atualmente, para efeitos estatísticos, como aqueles que possuem uma área ardida igual ou superior a 100 ha), são os responsáveis pela maioria da área ardida anualmente. Apesar de, nos últimos anos, não haver um aumento estatisticamente significativo do número de grandes incêndios florestais, em contrapartida verifica-se uma ligeira tendência para o aumento do número dos incêndios de maior extensão, tanto mais vincada, quanto maior a sua grandeza. Apesar de apenas na década de 80, do século anterior, se ter ultrapassado o limiar dos 10.000ha de área ardida por um só incêndio, já anteriormente, pelo menos desde o século XIX, que existem relatos escritos de incêndios com áreas ardidas da ordem dos 5.000ha (F. Silva E C. Batalha, 1859; E. Navarro, 1884; A. Pinto, 1939).

Por outro lado, muito embora a década de 70 marque o início de uma fase de incremento tanto do número de incêndios como da dimensão das áreas ardidas, fruto das consequências das profundas transformações então em curso na sociedade portuguesa, a verdade porém é que os eventos com consequências dramáticas são anteriores a este período, como foi o caso dos grandes incêndios florestais da década de 60, do séc. XX, onde, um pouco por todo o país, se verificaram alguns incêndios de grande dimensão, como sejam os casos de Vale do Rio/Figueiró dos Vinhos (1961) (L. Lourenço, 2009), Viana do Castelo (1962), Boticas (1964) e Sintra (1966) (PNDFCI, 2005).

Foi a partir do último quarto do século passado que os incêndios florestais em Portugal Continental registaram um aumento significativo. Este aumento, tanto do número de incêndios florestais como das áreas ardidas, especialmente depois de 1973 (fig. 1), ficou a dever-se a causas de índole diversa, muitas das quais terão resultado da política de reflorestação iniciada em 1901 e que, entre 1938 e 1974, foi responsável pela arborização de 287.000ha de dunas móveis e de baldios montanhosos (A. Bento Gonçalves, 2011), e, sobretudo, às profundas alterações introduzidas na estrutura socioeconómica da população portuguesa, em especial da residente nas áreas florestais, não só em resultado das transformações subsequentes à revolução de Abril, mas também em sintonia com o que acontecia nos países do sul da Europa. Os dados relativos ao período 1943-1967, foram consultados da revista florestal, vol. X, 1, Jan – Abril, SPCF, p. 12-18, “Tratamento de dados de incêndios florestais em Portugal”) de R. Natário (1997) e os alusivos ao período 1968-1979 (do caderno de geografia 7, Coimbra, p. 181-189 “incêndios florestais entre Mondego e Zêzere no período 1975 a 1985”) Luciano (1980), baseados nas estatísticas oficiais existentes, que contemplavam apenas áreas públicas (https://www.uc.pt/fluc/nicif/Publicacoes/Estudos_de_Colaboradores/PDF/Publicacoes_periodicas/2014_Territorium_21_NNR03.pdf, consultado 12/09/2017).

De facto, o levantamento dos incêndios ocorridos durante os anos de 1943 a 1979, inclusive, realizavam-se somente em áreas publicas, o que certamente conduz a um enviesamento dos resultados e a conclusões pouco precisas e informadas.

 

Fig. 1 – Evolução anual do número de ocorrências de incêndios florestais e da área ardida, entre 1943 e 1979, em áreas públicas de Portugal Continental. Fonte: Natário , 1997 e Lourenço et al ., 2012

Para ilustrar esta situação descreve-se o incêndio que ocorreu em Figueiró Dos Vinhos em 1961, de modo a exemplificar a dimensão bem como as consequências dos incêndios florestais que ocorriam em áreas privadas.

Parte I: A Agricultura Biológica como ferramenta de redução dos incêndios florestais

Parte II: Incêndios de Figueiró dos Vinhos

Parte III: As causas dos Incêndios

Parte IV: Zona Mediterrânica

Parte V: As estratégias das plantas para resistir ao fogo

Parte VI: Floresta Portuguesa

Parte VII: Alterações Climáticas

Parte VIII: Sistema Agrícola e Florestal de Elevado Valor Natural

Parte IX: A Agricultura Biológica

Parte X: Agricultura e Alterações Climáticas

Parte XI: Conclusões