Agrociência Floresta

As causas dos incêndios

A Agricultura Biológica como ferramenta de Redução dos Incêndios Florestais: Parte III

3.4 – AS CAUSAS DOS INCÊNDIOS

Os fogos florestais têm causas várias, pelo que a sua análise exaustiva torna-se complexa e morosa. Atualmente, a ação humana é determinante na origem dos incêndios florestais. Com a necessidade de se atingir a temperatura de cerca de 180ºC para haver ignição, dificilmente esta é atingida de forma natural, à exceção das faíscas, estas sim completamente absortas à intervenção humana. Assim sendo, na sua maioria os incêndios florestais devem-se a causas humanas, voluntárias ou negligentes (REBELO, 2010).

Seguindo estes propósitos e de acordo com a codificação de causas oficial em Portugal (fig.6), neste ponto serão agrupados e abordados quatro tipos de causas: negligenciais/acidentais; incendiarismo; causas naturais/físicas e não determinadas ou nulas (ICNB, 2012).

Causas negligenciais/acidentais

As ocorrências de incêndio florestal devido a atos humanos negligentes ou acidentais, aqui agrupados na categoria de causas negligentes cerca de 8% do total, O uso do fogo nas diversas atividades humanas, como a pastorícia ou agricultura (ICNB, 2012).

Incendiarismo

O fogo posto constitui ainda a causa de grande número de incêndios. As causas intencionais, cerca de 4% do total (ICNB, 2012).

As ocorrências por atos intencionais denotam uma intenção própria ou propósito de causar fogo. Prendem-se geralmente com interesses economicistas em torno de terrenos, ou pretensões de alteração do uso ou ocupação do solo, nomeadamente por parte de agricultores (FREIRE et al., 2002). Por outro lado, surgem atos de fogo-posto por puro divertimento, ou seja, porque dá gosto a quem pratica este ato criminoso, quer por brincadeiras de crianças ou perturbações motivadas por situações de isolamento ou solidão. Estes indivíduos pegam fogo as matas ou florestas só para verem os bombeiros e meios aéreos de combate às chamas atoarem e muitas vezes participar no combate (Patrícia Gomes, 2012).

Causas naturais/físicas

No total esta categoria apenas representa 0,4% das ocorrências e, são uma pequena percentagem do total das ocorrências anuais em Portugal continental. De referir que as causas naturais são aquelas provocadas exclusivamente por faíscas e relâmpagos que acompanham trovoadas secas (ICNB, 2012).

Não determinadas ou nulas

Na maior parte dos incêndios florestais que ocorrem anualmente em Portugal, acabam por não ter causa determinada ou são classificados como ocorrências nulas. Isto deve-se sobretudo à dificuldade de constituição de prova. 88% de ocorrências de incêndios florestais em Portugal sem causa determinada (INCB, 2012)

Fig. 6 – Causas dos incêndios florestais em Portugal continental entre 2000 e 2010 Fonte: Com base em ICNB, 2012

 

 Às causa referidas acresce ainda a má política de florestação, visível na tendência em substituir as espécies naturais pelo eucalipto (Tozé Silva, 2012).

 3.5 – AS CAUSAS DOS INCÊNDIOS EM PORTUGAL

Os fogos florestais causados por relâmpagos ou por outras causas naturais tiveram desde sempre um papel determinante, na modelação de vários ecossistemas, nomeadamente de tipo mediterrânico. O fogo constitui, portanto, um fator ecológico que influencia a evolução das comunidades vegetais, bem como manutenção da estrutura e funcionamento de vários ecossistemas. Supõe-se assim que esta ocorrência natural de incêndios terá moldado os ecossistemas florestais sob vários pontos de vista, inclusivamente no que diz respeito às características de algumas espécies vegetais, como o súber altamente desenvolvido do sobreiro e de outras quercíneas, e a dormência de sementes de algumas plantas que podem ser crebadas pelo calor de um fogo. Numa apreciável maioria dos ecossistemas florestais, e considerando uma hipotética e atualmente quase inexistência de sistemas completamente naturais, isto é sem intervenção antrópica, a acumulação de biomassa ao longo dos anos torna inevitável a ocorrência de incêndios, reiniciando-se a sucessão ecológica como nova acumulação de biomassa o que permite a ocorrência de um novo incêndio e o retomar do ciclo. Desde logo, considerando a opinião publica, a ideia mais frequente é a de que a maioria dos incêndios são de origem intencional (propositada), ou seja, cria-se a ideia de que esta grande e abrangente problema é causado por uma franja de população mais ou menos restrita. Por outras palavras, é demasiado comum o discurso do incendiário criminoso, mentalmente desequilibrado, de atuação solitária e com motivações pouco claras, ou em alternativa, num raciocínio pragmático, o criminoso com motivações económicas. É nestas figuras “míticas”, e mais outras que possam surgir em discursos inflamados, que a sociedade expia a sua negligência para com a floresta, o que contribui em muito para a continuação do problema, que tem as suas principais raízes na forma displicente como as sucessivas gerações têm, de uma forma geral, olhado para a floresta (Joaquim Silva et al Castro Rego, 2007).

No entanto na maioria dos casos os atos negligentes têm uma relevância importante. O uso do fogo nas diversas atividades humanas, como a pastorícia ou agricultura sempre foram práticas utilizadas pelo homem para moldar a paisagem, tendo estas grande tradição em Portugal. O território português marcado por um passado recente de despovoamento e abandono rural, transformaram habitats agrícolas e silvo-pastoris em vastas áreas de vegetação combustível. Para além disso, o envelhecimento da população rural, que resulta em parte, do abandono de atividades rurais economicamente insustentáveis é motiva o cada vez maior risco destes territórios. É neste sentido que (Bugalho et al., 2009) refere que o trabalho no campo e o usufruto da paisagem carecem de abordagens inovadoras, para que a presença humana se mantenha, gerindo o território de modo a evitar perturbações catastróficas como grandes incêndios. Por outro lado, práticas agrícolas remanescentes como a queima de restolhos para limpeza de terrenos, fertilização dos solos ou regeneração de pastagens, bem como a utilização do fogo em práticas de caça, são responsáveis por um grande número de incêndios. Do mesmo modo que a prática crescente da utilização de espaços florestais para actividades recreativas e de lazer aumenta a possibilidade de atos negligentes (Teresa Gomes,2012).

Em áreas florestais particularmente secas, qualquer produto lançado para uma área de mato pode causar um grande incêndio florestal, como um pedaço de vidro quebrado posicionado angularmente em relação ao sol ou uma ponta de cigarro aceso ou mal apagado podem servir de elementos iniciadores (Lúcio, 2007). 17

Em suma, ocorrências de incêndio florestal por causa negligente ou acidental ocorrem essencialmente devido a queimadas mal controladas, festas populares com lançamento de foguetes, pontas de cigarros mal apagadas, restos de vidros nas matas ou fagulhas de escapes ou chaminés (Teresa Gomes, 2012).

Parte I: A Agricultura Biológica como ferramenta de redução dos incêndios florestais

Parte II: Incêndios de Figueiró dos Vinhos

Parte III: As causas dos Incêndios

Parte IV: Zona Mediterrânica

Parte V: As estratégias das plantas para resistir ao fogo

Parte VI: Floresta Portuguesa

Parte VII: Alterações Climáticas

Parte VIII: Sistema Agrícola e Florestal de Elevado Valor Natural

Parte IX: A Agricultura Biológica

Parte X: Agricultura e Alterações Climáticas

Parte XI: Conclusões