Agrociência Bio Floresta

As estratégias das plantas para resistir ao fogo

A Agricultura Biológica como ferramenta de Redução dos Incêndios Florestais: Parte V

4.3 – AS ESTRATÉGIAS DAS PLANTAS PARA RESISTIR AO FOGO

Analisando os diferentes critérios normalmente utilizados para definir o clima mediterrânico, existe um especto em comum a todos que é a existência de um período de secura estival. A ocorrência de uma estação quente e seca tem duas consequências principais, que se constituem como forças modeladoras, essenciais para compreensão das características evolutivas das plantas mediterrânicas; a ocorrência do fogo e a deficiência de água no solo durante uma parte do ano. No que toca ao fogo, as plantas evoluíram no sentido de garantir a perpetuidade das espécies e das formações vegetais, apesar da destruição da parte aérea. Algumas destas adaptações sugerem mesmo, para algumas espécies, a existência de uma estratégia no sentido de facilitar a ignição e a combustão de forma a garantir a regeneração. Adicionalmente, muitas espécies são também muito resistentes ao fogo, o que permite que tenham uma vantagem competitiva relativamente a outras espécies concorrentes que não sejam eliminadas pelo fogo. Algumas das características apontadas como facilitadoras para propagação do fogo incluem, por exemplo; a presença de óleos essenciais altamente inflamáveis nas espécies aromáticas, a acumulação de ramos e folhas secas com elevada razão superfície/volume nas urzes, ou a existência de troncos com casca que se desprende em tiras, como no eucalipto. Outras características das espécie mediterrânicas que levaram a ventilar esta hipótese têm haver com a maior facilidade de regeneração após o fogo como é o caso da manutenção de pinhas serôdias (que permanecem fechadas algum tempo) na copa, cuja deiscência se pode fazer por acção do calor no caso do pinheiro bravo. O termo pirofitismo é utilizado como adjetivo destinado a classificar as espécies cuja regeneração se encontra, pelo menos em parte, dependente do fogo. Um aspeto comum e fundamental, consiste na separação das diferentes espécies em dois grupos funcionais de acordo com a capacidade para a regenerar ou não vegetativamente. Deste modo o estudo dos mecanismos ecológicos que envolvem as espécies mediterrânicas passa assim, em boa parte, pela abordagem das suas características regenerativas enquanto adaptação ao fogo. Pode-se assim de forma simplista, considerar um grupo constituído pelas espécies com aptidão para regenerar vegetativamente (capacidade para emitir rebentos), e um outro constituído pelas espécies que apenas podem regenerar por semente. O primeiro grupo inclui todas as espécies cuja regeneração imediata após o fogo (ou outra perturbação que inclui a parte aérea) é garantida através do lançamento de novos rebentos com origem no tecido que resistiram, ou não foram atingidos, pelas altas temperaturas. Estes tecidos localizam-se no caule ou em órgãos subterrâneos tais como rizomas, bolbos, tubérculos. As ericáceas desenvolveram paralelamente a formação de intumescências de reserva (lignotubers), onde são armazenados hidratos de carbono sob a forma de amido. As xerofíticas desenvolveram a formação de raízes verticais (tap roots) capazes de atingirem profundidades de dezenas de metros, dado permitirem à planta aceder a camada solo com teores de humidade bastante superior aos da superfície, onde se fazem sentir os efeitos directos da evaporação. No segundo grupo incluem-se todas as espécies cujo os indevidos morrem após a ocorrência do fogo e que, como tal estão completamente dependentes da regeneração por sementes para poder assegurar a sua continuidade (Joaquim Silva et Castro Rego, 2007).

4.4 – A VULNERABILIDADE DA FLORESTA PORTUGUESA E DO TERRITÓRIO AO FOGO

A vulnerabilidade da paisagem portuguesa ao fogo tem sido potenciada por modificações demográficas e socioeconómicas, nas serras baldias a florestação “compulsiva” do séc. xx substituiu pastagens comunitárias por pinhais, dos quais se excluiu o gado e o fogo. A gestão passou a obedecer a ditames exteriores, frequentemente excluindo os habitantes e alheando-os do território, e forçosamente causando perturbações que diretamente ou indiretamente se viriam a materializar em incêndios (Paulo Fernandes, 2007).

Desde a segunda metade do século passado que a população rural decresce, com o consequente abandono da agricultura e redução dos efetivos pecuários (Paulo Fernandes, 2007).

É, assim, que entre 1989 e 2005, cerca de 200 mil explorações agropecuárias deixaram de funcionar, ou melhor, deixaram de existir, o que fez reduzir a população activa deste sector em cerca de 35%, ou seja uma perda de cerca de 500 mil trabalhadores, que estão presentes no êxodo rural intenso para as cidades e para a emigração. Situação esta que por outro lado se reflectiu nos desequilíbrios demográficos entre o litoral e o interior (Ulpiano Nascimento, 2009).

Paralelamente a esta redução progressiva da capacidade de intervenção sobre o território aumentou a taxa de florestação. As alterações no tipo e na intensidade de uso do solo geraram manchas de vegetação de grande combustibilidade, uniformidade, dimensão e conexidade, constituindo paisagens que o fogo percorre sem dificuldade. As áreas agrícolas e agropecuárias, foram substituídas por matos ou floresta dependendo da dinâmica da sucessão ecológica, do esforço de arborização e, muito notoriamente, do ciclo de fogo, que agora se substitui ao homem e seus animais na regulação da acumulação de biomassa (Paulo Fernandes, 2007).

Em climas mediterrânicos a vegetação evolui no sentido da tolerância à aridez estival e à pobreza do solo. A adaptação aos dois fatores reflete-se na composição florística potenciando a existência de plantas cujas características físicas e químicas tornam a decomposição lenta – logo, favorecem a acumulação de combustíveis e a ação do fogo como agente de reciclagem de nutrientes – que lhes conferem elevada inflamabilidade e combustibilidade. Aquela tendência é atenuada em solos mais férteis e quando a influência atlântica se manifesta, mas tem como contrapartida maior carga de combustível devido ao acréscimo da produtividade primária (Paulo Fernandes, 2007).

Os arbustos portugueses são maioritariamente de natureza esclerofila, por vezes coriácea, espinhosa ou perfumada, de folha perene e morfologicamente variada, favoráveis à combustão: os tojos e a carqueja, espécies mais lenhificadas e com mais de metade da copa constituída por combustível morto, que podem arder em qualquer época do ano logo após dois ou três dias sem chuva; as urzes, com folhas muito finas e poder calorifico especialmente elevado; e diversas espécies vincadamente mediterrânicas, cujo teor de humidade relativamente elevado é compensado pela composição química das folhas que as torna altamente inflamáveis. Após o fogo a recuperação da biomassa faz-se em pouco tempo, mercê da célere ocupação do espaço pelas espécies, que rebentam profusamente dos seus órgãos vegetativos ou germinam a partir do banco de sementes no solo ou, explorando fisicamente os recursos e nutrientes que o fogo torna disponíveis (Paulo Fernandes, 2007).

A florestação com árvores de crescimento relativamente rápido – pinheiro e eucalipto – veio sem dúvida agravar o piroambiente português, somando folhadas e detritos lenhosos em quantidade apreciável e uma folhagem rica em compostos voláteis, àquelas comunidades arbustivas. O pinheiro bravo representa quase metade da área arborizada ardida e é claramente a espécie mais atingida pelos incêndios, eucaliptais e povoamentos mistos (que na sua maior parte combinam as duas espécies anteriores) são também muito afetados. O índice de vulnerabilidade da fig 5 indica a probabilidade relativa das várias espécies arderem, com base em dados estatísticos respeitantes ao período de 1990 1999. Nitidamente o fogo prefere o pinhal e o eucaliptal, ou seja não é apenas por serem importantes no espaços florestais que estas espécies ardem muito, a respetiva superfície queimada é assim superior ao que seria expectável face à dimensão do território que ocupam. Todas as outras espécies, pelo contrário, ardem menos do que seria expectável relativamente à sua expressão territorial, com destaque para azinheira e o sobreiro (Paulo Fernandes, 2007).


A ocorrência de fogo é bastante menos provável na metade sul do país, ainda que seja frequente em algumas serras cuja ocupação florestal é análoga à do Norte. A explicação reside no uso predominante do solo, baseado na agricultura e no sistema de exploração agroflorestal do montado, no relevo suave e na reduzida densidade populacional (Paulo Fernandes, 2007).A parte centro e norte de Portugal, limitada a sul pelo rio Tejo, é notoriamente suscetível ao fogo, com duas exceções relevantes . São elas a faixa litoral da Estremadura e a Beira Litoral, dada a topografia favorável e a moderação climática induzida pela proximidade do mar, e o nordeste de Trás-os-Montes e interior da Beira Baixa, onde o uso agrícola do solo é prevalecente. O risco é especialmente elevado nas vastas serranias e planaltos ocupados por matos e pinhal bravo, que do Alto Minho ao Pinhal Interior constituem os elementos vegetais que dominam o espaço florestal, o que e facilmente se compreende dada a combustibilidade inerente aquelas formações (Paulo Fernandes, 2007).

4.5 – LIMITAÇÕES E EFECTIVIDADE DO COMBATE A INCÊNDIOS

Um incêndio devastador requer três coincidências: um período de seca que, predisponha todo o combustível morto para arder, seque significativamente as plantas anuais e baixe a humidade dos tecidos vivos da vegetação; a simultaneidade entre ar quente e seco com vento forte (ou rajadas, ou instável) ou relevo acidentado; uma carga de combustível elevada com continuidade horizontal e vertical. Qualquer fogo que não seja dominado no período inicial após a ignição será incontrolável nesta circunstâncias. Quando falha o ataque inicial ao fogo revelam-se os problemas de planeamento, organização e coordenação que, aliados à inexistência de uma estratégia de controlo perimetral, permitem os grandes incêndios (Paulo Fernandes, 2007).

 4.6 – UMA FLORESTA MENOS VULNERÁVEL AO FOGO

Uma estratégia assente na intervenção sobre o combustível, o único componente do piroambiente que é modificável pelo homem, pode aumentar as oportunidades e opções disponíveis para controlo de um incêndio, dado que as outras variáveis não são controláveis de forma simples. A remoção do combustível ou alteração da sua estrutura, pode modificar a tipologia do incêndio e reduzir a sua intensidade e severidade, possibilitando o combate direto. A diversificação da combustibilidade da paisagem, e as descontinuidades de usos e de combustíveis, dificultam a progressão dos incêndios e consequentemente podem diminuir área ardida por unidade de tempo. Está assim implícito que tal como a efetividade do combate é limitada pela quantidade de combustível disponível, também os resultados da gestão dos combustíveis dependem dos esforços da supressão do fogo. Ou seja, não é geralmente expectável que uma área tratada impeça por si só a propagação de um incêndio (Paulo Fernandes, 2007).

A gestão florestal deve ser compatível com o piroambiente ou o fogo catastrófico será inevitável. Vários fatores diretamente ligados à arborização têm implicação no perigo de incêndio e devem ser cuidadosamente ponderados, começando logo na escolha da(s) espécie(s) a utilizar e incluindo as atividades silvícolas e de exploração efetuadas ao longo da vida do povoamento (Paulo Fernandes, 2007)..

A floresta com pinheiro e eucalipto tem em todo mundo colocado problemas sérios de incêndios para cujo controle é difícil alocar recursos. Infra – estruturas de acesso e de apoio ao combate e a compartimentação com faixas corta – fogo podem der suficiente para assegurar a proteção do povoamento florestal em piroambientes mais suaves e quando a probabilidade de incêndio é reduzida. Mas se durante a vida do povoamento for provável a ocorrência de pelo menos um incêndio com consequências desastrosas, então a iniciativa de florestar deve acautelar a necessidade de proteção intensiva através da gestão do combustível e de silvicultura preventiva. Paradoxalmente, o custo de manutenção de uma defesa adequada é frequentemente exorbitante e compromete a rentabilidade do investimento, o que deveria ter inviabilizado a arborização à partida (Paulo Fernandes, 2007).

São facilmente enunciados os princípios da defesa contra incêndios em floresta de elevada combustibilidade constituídas por coníferas ou folhosas esclerofilas. Numa parte substancial da formação, nunca inferior a um quinto da área ocupada, é crucial que a intervenção periódica mantenham reduzida a quantidade de combustível da folhada e do sub-bosque, e as arvores devem estar desramadas e razoavelmente espaçadas para prevenir o fogo de copas. Se a casca das arvores for suficientemente espessa, o fogo controlado constitui a técnica mais eficiente e económica para alcançar o primeiro objectivo (Paulo Fernandes, 2007).

Situação ideal, porque dispensa alguns dos tratamentos descritos no parágrafo anterior, surge porém quando a formação florestal modifica naturalmente o comportamento do fogo. Tal é o caso dos bosques de folhosas caducifólicas, cuja combustibilidade em relação á vegetação circundante é significativamente diminuída não só pela natureza do combustível como pelo ambiente mais húmido, fresco e abrigado do vento. Um efeito similar de redução da intensidade do fogo é proporcionado pelas plantações densas de coníferas de agulha curta que formam uma manta morta compacta e inibem o desenvolvimento do sub-bosque (Paulo Fernandes, 2007).

Existem também diferenças obtidas entre a capacidade de persistência pós-incêndio das coníferas e das folhosas. Ambas podem sobreviver total ou parcialmente ao fogo em formação gerida de acordo com os princípios acima expressos, o que dependerá principalmente da intensidade do fogo e da dimensão das arvores (e da forma como foram geridas). As segundas têm a capacidade acrescida de recuperarem por rebentação com maior ou menor facilidade, após combustão ou exposição danosa ao calor. É assim frequente observar, na primavera após um incendio, ilhas verdes de quercíneas no seio de um pinhal negro. No entanto, as folhosas para terem um desenvolvimento adequado precisam de um acompanhamento e intervenções silvícolas regulares, principalmente nas idades mais jovens (Paulo Fernandes, 2007).

A capacidade da floresta resistir ao fogo também se joga no seu exterior e interface. Por um lado, a queima dos resíduos da atividade agrícola e as queimas para renovação de pastos constituem uma importante causa de incêndios. Por outro, a manutenção de áreas agricultadas e a gestão de matos – utilizando o fogo judiciosamente e com objetivos pastoris, cinegéticos ou conservação de habitats naturais, têm um papel importante na constituição de um mosaico de cobertos vegetais e combustibilidades diferenciadas, em complemento da gestão de combustíveis e silvicultura preventiva em localizações estratégicas (Paulo Fernandes, 2007).

Constitui uma atitude saudável e pragmática o reconhecimento da inevitabilidade do fogo, para o qual há que preparar a paisagem proactivamente, favorecendo as formações florestais que pela sua estrutura e composição são mais resistentes ao fogo. Apenas desta forma é possível mitigar o impacto ambiental e socioeconómico que os incêndios têm em Portugal (Paulo Fernandes, 2007). 

Parte I: A Agricultura Biológica como ferramenta de redução dos incêndios florestais

Parte II: Incêndios de Figueiró dos Vinhos

Parte III: As causas dos Incêndios

Parte IV: Zona Mediterrânica

Parte V: As estratégias das plantas para resistir ao fogo

Parte VI: Floresta Portuguesa

Parte VII: Alterações Climáticas

Parte VIII: Sistema Agrícola e Florestal de Elevado Valor Natural

Parte IX: A Agricultura Biológica

Parte X: Agricultura e Alterações Climáticas

Parte XI: Conclusões