Agrociência Floresta

Incêndio de Figueiró dos Vinhos

A Agricultura Biológica como ferramenta de Redução dos Incêndios Florestais: Parte II

3.2.1 – INCÊNDIO DE FIGUEIRÓ DOS VINHOS (1961)

Vale do Rio (1961), no final do mês de Agosto de 1961, as altas temperaturas que se faziam sentir na região conjugadas com as transformações económicas e sociais que, então, começavam a ter consequências no espaço agroflorestal, criaram as condições para que uma ignição se transforma-se num grande incêndio florestal. Este ficou na memória de todos por ter consumido as povoações de Vale do Rio e do Casalinho, no concelho de Figueiró dos Vinhos. “Naquela segunda-feira, dia 28 de Agosto de 1961, perto das 11 horas da manhã, José Simões andava a “renovar” pinheiros no Casal de Alge, quando um homem (João Almeida) apareceu junto de si “espavorido”, de sacho às costa, a avisá-lo de que o inferno subia a serra rumo ao Vale do Rio. Alarmado, José Simões pensou na mulher, nos filhos e na casa e calcorreou carreiros e atalhos para salvar o que humildemente lhe pertencia” (Tozé Silva, 2011).

Com efeito, às 16 horas do dia 28 de Agosto de 1961, um incêndio de enormes proporções atingia e transpunha o Rio Zêzere, impulsionado pela força dos ventos, propagando-se em várias direções. O incêndio chegou a desenvolver uma frente de cerca de 15 quilómetros, desde Atalaias, no concelho de Pedrógão Grande, até à freguesia de Arega, no concelho de Figueiró dos Vinhos. Conjugado com outro incêndio, que ocorrera nas imediações da serra de S. Neutel e ameaçou a vila de Figueiró dos Vinhos, foram 14 as povoações do concelho figueiroense ameaçadas pelas chamas (Relatório (não divulgado), enviado ao Inspector de Incêndios da Zona Sul, datado de 23 de Abril de 1963). De acordo com o mesmo relatório, o combate ao incêndio foi inicialmente feito pelos Bombeiros Voluntários daquela vila e por muitas centenas de populares; depois, por solicitação do Município e através da preciosa intervenção do Senhor Governador Civil e da própria Emissora Nacional, acorreram a Figueiró dos Vinhos 14 corporações desta região. No entanto, e apesar de todos os esforços para dominar o incêndio “quando os Bombeiros chegaram [a Vale do Rio] já era tarde porque não havia estrada e só veículos de tração às quatro rodas, que a Corporação não tinha, conseguiriam lá chegar”. José Lima, ex-comandante dos Bombeiros e à época Bombeiro de 1ª Classe, recorda o trajeto feito com o Buick da corporação, pela serra do Douro “com o depósito cheio de gasolina rente ao chão queimado, que nos fez perder muito tempo. Quando chegámos ao Vale do Rio já a povoação tinha ardido!”. Outro antigo Bombeiro, Leonel de Jesus Simões, recorda deste incêndio “as chamas com uma altura doida e a carne a arder dentro das salgadeiras e dos potes de azeite, que exalavam um cheiro a carne assada, misturado com o fumo do incêndio” (Tozé Silva, 2011).

De acordo com os relatos de quem viveu esta tragédia, consideram que assistiram a “espectáculo arrepiante e dantesco: aos uivos das labaredas; aos ruídos matraqueados dos desmoronamentos de telhados e paredes (fot. 1); ao crepitar das madeiras incandescentes; ao rechinar das carnes e gritos aflitivos dos animais domésticos, juntavam-se os clamores zenitantes da dor dos habitantes que, imponentes para dominar o monstro, foram testemunhas passivas e dolorosas da destruição dos seus lares e haveres” (Relato dos repórteres [não identificados] do Jornal local «A Regeneração», n.ºs 1025, 1026 e 1030, de 1961). Os esforços denodados dos Bombeiros aliados aos dos populares foram imensos, até que uma brusca e “milagrosa” viragem de vento salvou a vila (Tozé Silva, 2011).

O saldo negativo cifrou-se em meio milhão de árvores, “arderam dois mil e quinhentos hectares de pinhais”, duas aldeias calcinadas, Vale do Rio (fig. 1 e 2) e Casalinho, onde “185 pessoas ficaram sem abrigo” e se registaram dois mortos, “por asfixia e carbonização” (Tozé Silva, 2011).

Fig. 2 – Aldeia de Vale do Rio, após passagem do incêndio (1961). Fonte: Biblioteca de Figueiró dos Vinhos

 

 

Três anos depois deste incêndio, em 24 de outubro de 1964, o Presidente da República Almirante Américo Tomaz (1958 a 1974) e o Ministro das Obras Públicas Arantes e Oliveira (1954 a 1967), são recebidos com fidalguia, inauguram as obras de reconstrução da aldeia. Onde discursaram o Presidente da Câmara Municipal (Henrique Lacerda), o Ministro das Obras Públicas (Arantes e Oliveira) e o Presidente da República. Pois foi devido a esta tragédia e ao renascer das cinzas de uma aldeia, que o concelho figueiroense recebeu pela primeira vez, na sua história, um Chefe de Estado Português. Henrique Lacerda não perdeu a oportunidade e aproveitou para dissertar sobre as belezas naturais do rincão concelhio, dos seus heróis, da sua apetência para as Artes, dos seus Artistas (sobretudo de Malhoa), da sua rusticidade e das suas gentes simples e humildes mas também do seu potencial para o Turismo Nacional “como zona de eleição a aproveitar e a desenvolver”. Américo Tomás, visivelmente emocionado, congratulou-se pela humilde “aldeia, que ressurgia mais bonita do que era, das cinzas de um pavoroso incêndio”. As cerimónias de inauguração terminaram com um almoço servido no ginásio da Escola Secundária Municipal “num ambiente muito elevado”. Entretanto Vale do Rio nunca mais teve a mesma dinâmica e pujança de outrora, ficado completamente parada no tempo e votada ao abandono. Do incêndio de 1961 nunca se apuraram as causas concretas. Desses dias de má memória devia ter ficado uma lição sofredoramente aprendida. Contudo, passados 44 anos desta tragédia, recordo o Verão de 2005 que abrasou cerca de 50% do território agroflorestal figueiroense e que voltou a colocar em risco várias povoações. A rotina dos fogos, o som da sirene dos Bombeiros, continuam a marcar, a ecoar na memória das gentes do concelho, a escrever páginas de dor e lágrimas perante o braseiro sazonal que transforma as nossas serranias em paisagens lunares escuras e cinzentas (L. Lourenço, 2009 et al Tozé Silva, 2012).

Fig. 3 – Reconstrução Vale do Rio (1963). Fonte: Biblioteca de Figueiró dos Vinhos

3.2.2 – VALE DO RIO

Situa-se cerca de 7 km a Sul da vila de Figueiró dos Vinhos, numa área de relevo relativamente acentuado.

Fig. 4 – Ortofotomapa da aldeia de Vale do Rio. Fonte: José Fernandes, 2013

Assim, o seu nome surgiu devido à orografia acidentada em que se insere e à proximidade ao Rio Zêzere. Trata-se de uma aldeia muito antiga, desconhecendo-se a data da sua fundação. Segundo registos da época do incêndio, e na observação do ortofotomapa do Voo de 1956 (fig. 4), o solo era ocupado, na sua grande maioria, floresta densa, toda ela de particulares, sendo o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) a espécie que ocupava um destacado relevo, seguido da oliveira (Olea europea) e do eucalipto (Eucalyptus globulus). O vale, situado entre o rio e a aldeia, era ocupado por terrenos agrícolas, bastante produtivos (José Fernandes, 2013).

 3.2.3 – GEOGRAFIA DE FIGUEIRÓ DOS VINHOS

Figueiró dos Vinhos, apresenta uma superfície de cerca de 183 km2, em que a morfologia do terreno e a diversidade paisagística da região assenta no trinómio vale/encosta/cumes. Devido ao carácter acidentado do terreno, mesmo montanhoso, as suas cotas variam entre 150 e os 930 metros de altitude, originando uma paisagem caracterizada por ser constantemente entrecortada, com vales profundos percorridos por uma densa rede hidrográfica, encostas demasiado expostas à acção dos agentes erosivos e com alguma dificuldade de comunicação (Tozé Silva, 2012).

 3.3 – EVOLUÇÃO FLORESTAL DE FIGUEIRÓ DOS VINHOS

A presença do uso do solo/coberto florestal no concelho de Figueiró dos vinhos é bastante relevante, representando 60% da área da região. Na qual o uso do solo dominante é a floresta (Tozé Silva, 2012).

A alteração das características da ocupação florestal do concelho manifesta-se fundamentalmente a partir da 2ª metade do séc. XIX, encontrando-se descrita no levantamento efetuado pelo Dr. Costa Simões. Este revela, em 1847, que o coberto florestal era composto por alguns pinhais, castanheiros mansos isolados, castanheiros bravos, alguns soutos esparsos, montado e alguns carvalhos. Ainda segundo o mesmo autor, constata-se que a floresta em meados séc. XIX revelava-se vital para as comunidades serranas da região. Forneciam a madeira para construção do casario, lenha para o aconchego e energia do lar, o mato para complementar a adubação das terras e para as camas dos animais, território para pastoreio, e ambiente saudável para dureza do trabalho agrícola. A partir das décadas de 30 e 40 do século passado iniciou-se uma campanha nacional de arborização à base do pinheiro bravo (Pinus pinaster), surgindo assim enormes manchas continuas, monótonas e regulares, constituindo ecossistemas bastantes sensíveis aos incêndios (Tozé Silva, 2012).

Até à década 50 do século passado, a paisagem florestal desta região não variou muito, imperando o pinheiro que abrangia notáveis extensões florestais, fruto da florestação levada a cabo pelos Serviços Florestais fundamentalmente em áreas baldias e do próprio estado. Após esse período, na década de 60, realizaram-se as primeiras tentativas de plantações com eucalipto, mas era o pinheiro bravo que ainda ocupava a maior parte do território, distinguindo-se de todas as outras árvores, em grandes manchas verde-escuro, “espraiando-se ao longo das encostas desta acidentada região”. Nas décadas seguintes, as plantações de eucalipto ganharam uma maior importância em relação ao pinheiro bravo (Tozé Silva, 2012).

Com base no inventário nacional de 1974 e 1995, registou-se um considerável aumento quer do eucalipto quer do pinheiro bravo. Segundo os dados de 1995, 90% da área florestal era constituída por 52% de pinheiro bravo, e 35% de eucalipto (que corresponde a 5 vezes mais da percentagem desta arvore, que existia em 1974 (Ventura da Cruz, 2006).

Quanto às taxas de ocupação florestal, atualmente podemos observar pela análise da fig. 5, que as principais espécies no concelho são, inequivocamente, o eucalipto e o pinheiro bravo (PMDFCI, 2014).

Fig. 5 – Taxas de Ocupação Florestal, concelho de Figueiró dos Vinhos. fonte: PMDFCI, 2014

O eucalipto é a espécie predominante com 7.613 hectares aproximadamente, o que representa em termos de taxa de ocupação florestal cerca de 70%, ao que se segue o pinheiro bravo com pouco mais de 2.900 hectares, equivalente a uma taxa de ocupação florestal de 26,4%. Relativamente ao pinheiro bravo, é de destacar a diminuição abrupta

que esta espécie tem sofrido nos últimos anos, a manter-se esta tendência evolutiva, a área de pinheiro bravo em tempos dominante neste concelho, reduzir-se-á a uma existência residual (PMDFCI, 2014).

Por último, e dada a fraca representatividade (cerca de 445 ha) encontram-se outras espécies florestais, nomeadamente, espécies ripícolas como salgueiros, freixos, amieiros e também três pequenos núcleos de sobreiros, nomeadamente na proximidade da sede de concelho, junto às povoações de Ferraria de S. João e Alge, que no seu todo correspondem a uma taxa de ocupação florestal de 4,2% (PMDFCI, 2014).

Por vezes encontra-se dispersa alguma regeneração de sobreiros e carvalhos no sobcoberto de povoamentos de pinheiro bravo.

Ainda no que se refere à espécie mais representativa do concelho, podemos acrescentar que as maiores manchas contínuas se localizam no extremo sul e na zona a sudoeste da sede do concelho e também junto à Ribeira da Bouça, sendo constituídas na sua maioria por povoamentos puros (PMDFCI, 2014).

Parte I: A Agricultura Biológica como ferramenta de redução dos incêndios florestais

Parte II: Incêndios de Figueiró dos Vinhos

Parte III: As causas dos Incêndios

Parte IV: Zona Mediterrânica

Parte V: As estratégias das plantas para resistir ao fogo

Parte VI: Floresta Portuguesa

Parte VII: Alterações Climáticas

Parte VIII: Sistema Agrícola e Florestal de Elevado Valor Natural

Parte IX: A Agricultura Biológica

Parte X: Agricultura e Alterações Climáticas

Parte XI: Conclusões