Agrociência

Controlo biológico do rebentamento de toiças com Pleurotus ostreatus

T. Machado, Nadine R. Sousa, B. Chaves Unidade de Investigação, Desenvolvimento e Inovação, LIPOR, Rua da Morena 805, 4435-996 Baguim do Monte

Introdução

É sobejamente conhecida a importância que as árvores têm para o meio ambiente. Para além das características por nós percetíveis, nomeadamente a sua beleza e a sombra que proporcionam, elas trazem muitos outros benefícios como a redução do CO2 atmosférico, melhoria da qualidade do ar (libertação de oxigénio, absorção de poluentes), redução da erosão do solo, entre muitos outros. No entanto, por vezes a sua existência deixa de ser desejável por vários motivos como segurança, fitossanidade ou até mesmo falta de rentabilidade da exploração florestal. Nesse contexto, o corte de árvores muitas vezes não é uma solução definitiva devido aos subsequentes rebentamentos de toiças e as alternativas mecânicas mais comuns, que são o corte frequente, arranque dos cepos ou a sua destruição mecânica no local, são técnicas que acarretam custos elevados e/ou prejudicam a estrutura do solo e provocam a sua erosão. Existe, portanto, a necessidade de encontrar métodos alternativos, amigos do ambiente, para lidar com esta problemática e o uso de fungos como bioagentes de controlo possui um enorme potencial. Os fungos são os decompositores por excelência da natureza, estando entre os melhores exemplos que a natureza pode oferecer aos princípios de uma economia circular: a circularidade dos nutrientes no ecossistema; os fungos decompõem a matéria orgânica disponível devolvendo ao ecossistema carbono, azoto, hidrogénio e minerais sob formas assimiláveis pelas plantas, insetos e outros organismos (Elevitch, 2004). A ideia subjacente ao uso dos fungos como agentes biológicos de controlo do rebentamento de toiças não é recente. Wall demonstrou, em 1990, que a inoculação de cepos de várias espécies, tais como Acer spp., Betula spp., Populus tremuloides e Fagus sp., com o fungo Chondrostereum purpureum reduzia significativamente o número de rebentamentos. Desde então a espécie C. purpureum tem sido não só alvo de atenção de vários estudos científicos (p.e. Hamberg et al., 2015) como comercializada para esse fim. No entanto, muito embora a sua eficácia esteja comprovada, trata-se de um fungo que não possui outro valor acrescentado para além deste. Paul Stamets (2005) mostrou há vários anos a possibilidade de cultivar cogumelos comestíveis em cepos em alternativa aos comuns troncos cortados. Fungos como Lentinula edodes (shiitake) e Pleurotus ostreatus (repolga) são microrganismos cuja frutificação origina cogumelos comestíveis bastante apreciados e com um mercado mundial já bem estabelecido. São também decompositores primários (Elevitch, 2004), conseguindo alimentar-se da madeira através da produção de enzimas que degradam a lenhina e outros componentes. Neste trabalho pretendeu-se avaliar se era possível controlar biologicamente o rebentamento de toiças de Populus sp., através da sua inoculação com Pleurotus ostreatus, unindo desta forma o controlo biológico ao aumento da biodiversidade e à produção de cogumelos que possam representar uma fonte extra de rendimento aos utilizadores da técnica.

Materiais e métodos

O trabalho foi realizado nas instalações da Lipor a 25 de março de 2016 com o objetivo principal de impedir o aparecimento de toiças em 4 árvores do género Populus que necessitavam de ser removidas porque as suas raízes interferiam com o sistema de águas pluviais da infraestrutura Lipor, conduzindo a entupimentos do sistema e à quebra de algumas condutas.

Figura 1 – (a) Furação com berbequim; (b) inserção das cavilhas com martelo de borracha

As árvores foram cortadas em 7 de março de 2016 e 3 semanas depois os cepos das 4 árvores foram inoculados com cavilhas de Pleurotus ostreatus (BioInVitro, Portugal). Em 2 dessas árvores foram também inoculadas as raízes pastadeiras que estavam à superfície do solo, sendo que as restantes 2 árvores foram o tratamento controlo, onde não foi feita a inoculação das raízes. O processo global da inoculação compreendeu 3 fases (Fig.1): na primeira fase foram feitos furos na madeira, com um espaçamento de 5-6 cm (recorrendo a um berbequim com broca de 8 mm), na segunda fase colocou-se uma cavilha de inóculo em cada furo (recorrendo a um martelo de borracha para a inserção) e a terceira fase consistiu em selar os furos pincelando-os com parafina de grau alimentar (Quimind, Portugal) previamente aquecida acima de 60ºC (Fig.2). O estado dos troncos foi inspecionado regularmente quanto ao desenvolvimento de toiças bem como à proliferação do micélio do fungo inoculado.

Figura 2 – Selagem dos furos com parafina

Resultados e discussão

Ao final de 6 meses observaram-se toiças nas raízes pastadeiras que não haviam sido inoculadas enquanto que nenhum rebentamento foi observado em locais onde a inoculação foi realizada, cumprindo-se desta forma o principal objetivo do trabalho. Os troncos continuarão a ser monitorizados ao longo do tempo para se avaliar se o efeito é permanente. Na realidade será expectável que tal aconteça uma vez que com o passar do tempo deverá aumentar a colonização da árvore por parte do fungo, expandindo cada vez mais o seu raio de ação, com a consequente decomposição do tronco.

A frutificação do fungo inoculado ocorreu 9 meses após a inoculação (Fig.3), o que superou qualquer espectativa por vários motivos; o primeiro é que a produção destes cogumelos é rápida quando realizada indoor porém no exterior pode ser morosa uma vez que as condições climáticas nem sempre são favoráveis à proliferação do fungo. Acresce ainda o facto de a inoculação ter sido feita em cepos e raízes e não troncos de média ou pequena dimensão que são normalmente a matéria-prima para o cultivo destes fungos; as raízes e os cepos constituem uma massa muito grande de madeira para o fungo ocupar, o que pode levar a que a colonização dure anos sem que nesse período ocorra frutificação (Stamets, 2005). Segundo Paul Stamets (2005), após o início da frutificação, o fungo poderá frutificar durante vários anos até que o tronco se decomponha.

Figura 3 – Frutificação dos cogumelos Pleurotus ostreatus

Considerações finais

O trabalho realizado demonstrou que a espécie P. ostreatus foi eficaz a controlar o rebentamento de toiças no choupo, tendo frutificado apenas 9 meses após inoculação. Adicionalmente, a sua introdução num espaço cujo habitat havia sido destruído pelo corte das árvores contribui igualmente para o reequilíbrio do ecossistema e a recuperação da biodiversidade perdida.

A completa decomposição do cepo por ação do fungo é um processo lento, porém eficaz e respeitando o equilíbrio ambiental. De notar, porém, que ao final de 2-3 anos os cepos estarão fragilizados pela ação do micélio e a destruição mecânica estará bastante facilitada, tornando-se uma opção viável. No entanto, caso o fungo utilizado seja comestível, como foi o caso neste trabalho, dependendo da produtividade de cogumelos alcançada talvez seja interessante manter os cepos por mais anos, enquanto houver frutificação.

Para que a tecnologia aplicada neste trabalho seja eficaz é essencial que o fungo consiga proliferar no cepo/raízes pastadeiras. Para tal, vários parâmetros deverão ser tidos em consideração, como uma correta seleção da espécie fúngica a utilizar, o timing de corte da árvore e sua inoculação, a adequação da árvore a esta técnica (p.e. as árvores resinosas não são adequadas), entre outros fatores.

Em suma, o presente estudo demonstra a eficácia do controlo biológico do aparecimento de toiças e preconiza o conceito de que é possível usar a natureza a favor da natureza.

Bibliografia

Elevitch, C.R. (ed), 2004. The Overstory Book: Cultivating Connections with Trees, 2nd Edition. Permanent Agriculture Resources. Holualoa, Hawaii, USA.

Hamberg , L., Vartiamäki, H., Hantula, J., 2015. Breeding increases the efficacy of Chondrostereum purpureum in the sprout control of birch. PLOS ONE 10(2).

Stamets, P., 2005. Mycelium Running – How mushrooms can help save the world. Ten Speed Press, Berkeley, California.

Wall, R.E., 1990. The fungus Chondrostereum purpureum as a silvicide to control stump sprouting in hardwoods. Northern Journal of Applied Forestry 7: 17 – 19.

Publicado na Voz do Campo n.º 209 (novembro 2017)