Agrociência

Malhado de Alcobaça

Uma raça suína autóctone em risco de extinção

Inês Carolino*1, Rosa Lino Neto Pereira 1, Nuno Carolino1 e António Vicente2,3 1Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária 2Escola Superior Agrária de Santarém 3Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores

Introdução

Em 1865, foi criada a população Malhado de Alcobaça (MA), por cruzamentos sucessivos de porcos bísaros açorianos com porcos ingleses das raças Berkshire e Yorkshire (Diaz Montilla, 1958). Estes animais também denominados por “porcos da terra”, apresentavam ótimas características, nomeadamente conservavam a rusticidade e a densidade dos músculos típica da raça Bísara e a boa conformação, eficiência alimentar e grande precocidade das raças inglesas (Póvoas Janeiro, 1944). Estas qualidades ajudaram a que rapidamente estes animais ficassem a predominar na região de Leiria até Oeiras. Em 1947, havia cerca de 65000 animais em Alcobaça, Batalha e Porto de Mós (Reis, 2003). No entanto, o fraco potencial económico dos seus pequenos criadores, que normalmente não possuíam mais do que duas porcas reprodutoras, associado à tendência para introduzir Large White nos seus efetivos, na grande procura da carne de porco magra e, no final de 1957, o surto de Peste Suína Africana que assolou Portugal, provocou a diminuição destes animais criados em linha pura, colocando-os em vias de extinção.

Figura 1 – Suíno da raça Malhado de Alcobaça

Durante muitos anos, a preservação desta população foi somente assegurada por um criador, na região oeste (Torres Vedras). Em 2003, na sequência de várias iniciativas da então Direção Geral de Veterinária, viria a ser implementado o registo zootécnico dos elementos desta população, ano em que foi também efetivamente reconhecida e homologada a raça Malhado de Alcobaça.

Em 2014, a Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS) assegurou a gestão do livro genealógico (LGMA) da raça e foram também criados um núcleo de conservação no polo de investigação da Fonte Boa – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) e um núcleo de multiplicação na Escola Profissional Agrícola e de Desenvolvimento Rural de Cister (EPADRC), em Alcobaça. Desde então, muitos organismos, tais como a Escola Superior Agrária de Santarém, têm estado envolvidos na promoção e divulgação da raça, associados a vários trabalhos de preservação, com reflexo no número de criadores que aumentou de 3, em 2014 para 11, em 2017.

Atualmente, o efetivo nacional ronda as 150 fêmeas reprodutoras e 12 varrascos, estando por isso a raça seriamente ameaçada de extinção. A raça Malhado de Alcobaça está classificada com o maior grau de ameaça (Grau A) nas portarias n.º 55/2015 e 268/2015 que estabelecem, respetivamente, os regimes de aplicação dos apoios 7.8.1 «Manutenção de raças autóctones em risco» e 7.8.3 «Conservação e melhoramento de recursos genéticos animais», do Programa de Desenvolvimento Rural do Continente (PDR2020). Desta forma, os criadores de animais da raça Malhado de Alcobaça podem candidatar-se a apoios comunitários inseridos no Quadro Comunitário de Apoio 2014-2020 (PDR2020), que visam a conservação do património genético nacional.

No LGMA são registados todos os animais desta raça, com a avaliação/pontuação e recolha de DNA para análise do perfil genético para efeitos de teste de paternidade e, para os reprodutores, a genotipagem para o gene associado à resistência/suscetibilidade ao Halotano. Pretende-se, desta forma, desenvolver um programa de melhoramento genético para a raça com redução da consanguinidade existente através da difusão de reprodutores testados e planos de inseminação artificial dirigidos.

Características / padrão da raça

A raça Malhado de Alcobaça apresenta animais bem conformados, de coloração malhada de branco e preto, com um esqueleto forte e um temperamento calmo e dócil (Figura 2).

Figura 2 – Animal adulto da raça Malhado de Alcobaça

 

Pele e pigmentação: Pele revestida uniformemente por cerdas fortes, compridas e grossas de cor branca e preta, formando malhas bem definidas, mas de tamanho e forma irregulares, disseminadas por todo o corpo. As mucosas apresentam tons rosados e a extensão das malhas apresenta-se, nalguns casos, uniformemente distribuída, mas noutros com predomínio do branco (em especial na cabeça). A pigmentação do corpo tende a reduzir-se com a idade dos animais.
Cabeça: Cabeça comprida de tamanho médio, grossa e perfil côncavo. As orelhas são grandes, largas e pendentes para a frente, cobrindo na maioria dos casos, os olhos e chegando mesmo à ponta do focinho, noutros.
Tronco: O esqueleto é bem desenvolvido, com linha dorso-lombar convexa, sendo animais longilíneos de garupa estreita, pouco comprida e membros altos. As fêmeas apresentam mamilos bem desenvolvidos e uniformes, em número não inferior a 12.

Adaptado de Reis, 2003, Leal, 2003 e Vicente, 2005.

A prolificidade média nos porcos Malhado de Alcobaça é de 9.6 leitões nascidos totais e 9.1 nascidos vivos/parto, dos quais são desmamados, em média, 8.3 leitões (Vicente, 2005).

Os leitões (Figura 3) apresentam boas características para assar, porque não são muito fortes em membros, e o seu corpo é esguio e comprido, o que lhes confere um assamento homogéneo e uma boa qualidade (Vicente, 2005).

Figura 3 – Leitões da raça Malhado de Alcobaça

 

 

 

Perspetivas futuras para a raça

Muitos organismos têm estado envolvidos na promoção e divulgação da raça Malhado de Alcobaça e muito tem sido feito para potenciar o seu crescimento e expansão, mas é necessário continuar a “estudar” para a conhecer melhor, promovendo a sua variabilidade genética e o incentivo ao desenvolvimento de novos produtos certificados DOP, IGP e tradicionais associados a esta raça autóctone, tendo em conta a qualidade da sua carne, ideal para a produção de leitões para assar. Dentro deste objetivo, realizou-se na Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS), no dia 13 de outubro, um Workshop intitulado “Conservação e Melhoramento de populações suínas: A importância da preservação do porco Malhado de Alcobaça”, incluído nas Jornadas de Transferência de Conhecimento Cientifico e Tecnológico do projeto ALT BioTech (ALT20-03-0246-FEDER-000021).

Um encontro que reuniu várias individualidades do sector suinícola e dos recursos genéticos animais, nomeadamente a FPAS, INIAV, EPADRC, AIM-AIM CIALA, SA (Centro de Inseminação do Litoral Alentejano), criadores, docentes e alunos da ESAS, num total de cerca de 150 pessoas, seguindo o lema do preservar, valorizar e divulgar esta raça genuinamente portuguesa e impedir a sua extinção.

A preservação da biodiversidade é uma obrigação transversal a todos os sectores da sociedade, pelo que, todos juntos temos o dever e o poder de preservar esta raça, componente do património genético nacional, tendo em consideração que ”A EXTINÇÃO É PARA SEMPRE”.

 

ALT20-03-0246-FEDER-000021

 

BIBLIOGRAFIA

  • Diaz Montilla, R. (1958) – Ganado Porcino. Salvat Editores, S.A. Barcelona
  • Leal, M. (2003) – Malhado de Alcobaça com futuro garantido. Suinicultura. 60: 18-20pp.
  • Póvoas Janeiro, J. (1944) – Boletim Pecuário N.º 2, Sociedade Astória, Lda., pg. 25 – 33.
  • Reis, J. (2003) A raça Malhado de Alcobaça é património pecuário nacional – há que o defender, fomentar e melhorar. Edição da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores. Suinicultura nº 60:15 – 16.
  • Vicente, A. (2005). Caracterização do porco Malhado de Alcobaça. Dissertação de Mestrado em Produção Animal. Universidade Técnica de Lisboa.

Publicado na Voz do Campo n.º 209 (novembro 2017)