Inovação Investigação Tecnologia

Agricultura (mais) Inteligente

Nunca como nos dias de hoje se falou tanto de tecnologia, inteligência artificial, dados, conectividade, transformação digital (…) uma verdadeira revolução que está a acontecer na sociedade, na vida das pessoas, das empresas e da qual a agricultura não está de todo excluída.

Produtos e serviços associados à agricultura como a condução assistida e automática por GPS em distribuidores de adubo, semeadores, pulverizadores e até ceifeiras-debulhadoras, plataformas de monitorização das culturas com recurso a dados de deteção remota obtidas “drones”, aviões ou satélites e disponibilizando séries temporais de cartas de índices de vegetação (NDVI e outros) começam hoje a ser do domínio mais comum (Ricardo Braga).
Se recentemente Portugal esteve “nas bocas do mundo” aquando da realização do Web Summit, que reuniu em Lisboa qualquer coisa como 60 mil participantes e 1200 oradores para abordar os últimos avanços tecnológicos e os seus impactos na sociedade, o mundo agrícola não tem perdido este comboio. E, para além de algumas presenças neste fórum de discussão mundial, em outubro tinha sido a vez de Oeiras acolher o Agri Innovation Summit, onde participaram cerca de 600 pessoas e onde foram apresentados e discutidos cerca de 120 projetos de inovação.
São números bem demonstrativos da transformação que o setor agrícola está a viver, refere-nos Luís Mira da Silva, docente do Instituto Superior de Agronomia e presidente da INOVISA, criado em 2005 pelo ISA com o intuito de ajudar os docentes, investigadores e alunos a criarem o seu projeto empresarial e que esteve ligado à organização deste evento. Além disso, não são projetos de investigação, mas sim de inovação, a maior parte dos quais com aplicação direta no setor.
Veja-se o exemplo da própria INOVISA que no último ano e meio tem apostado bastante num projeto designado CropUp, muito virado para as startups. Com quase duas dezenas de startups incubadas, nem todas nacionais, é um projeto com grande potencial na ligação às empresas. “Se conseguirmos criar em Portugal um ecossistema de inovação, que tenha ali meia centena de empresas /startups e depois fizermos a ligação a 10-15 empresas para potenciar a inovação, era um resultado muito bom”, afirma o docente reforçando que desta forma estão a ser criadas condições para que a agricultura possa evoluir.
As áreas dominantes dessas startups são “o que se refere a informação, plataformas de análise de algoritmos e modelos de análise e posterior aplicação desses dados na gestão das parcelas / das culturas”. É esta a matéria-prima das (muitas) novas startups e de grandes investimentos porque as grandes multinacionais do setor, além dos seus próprios programas também investem nestes modelos de negócio.
Os exemplos são muitos e ainda na edição comemorativa dos 20 anos da Voz do Campo tivemos oportunidade de retratar por exemplo o Irrispot, uma ferramenta concebida pela Hidrosoph para proporcionar a pequenos e médios agricultores uma rega monitorizada, tal como o Canopy Ajusted Real Time Spraying, relativa à aplicação seletiva de pesticidas na vinha através da pulverização em tempo real com base na densidade da folhagem. Nessa mesma Edição, num artigo de opinião, o fundador da Agroinsider, José Rafael Marques da Silva escrevia “à medida que os equipamentos e sensores inteligentes invadem as empresas agrícolas, o volume de dados cresce em quantidade e género, levando a que a atividade agronómica passe a ser cada vez mais dependente de informação intensiva. O rápido desenvolvimento da Internet das Coisas (IoT) tem servido de motor ao fenómeno conhecido como Agricultura Inteligente”.

“Havendo alguma escala, a tecnologia tende a tornar as coisas mais eficientes e mais baratas”

Parece que há um desenvolvimento perfeito mas é legítimo questionar se do outro lado existe mercado. Ou seja, para Luís Mira da Silva “tudo isto só faz sentido se no fim existir um produtor interessado e a quem se possa criar valor”.
Não quer dizer que a utilização desta tecnologia torne a forma de fazer agricultura necessariamente mais cara, uma vez que é tudo uma questão de escala. “É difícil ter tecnologia quando a escala é pequena, mas, havendo alguma escala, a tecnologia tende a tornar as coisas mais eficientes e mais baratas”.
Ora aqui pode entrar também a “divisão dos mundos”, ou seja, regiões onde está a acontecer uma verdadeira “revolução”, com explorações que abraçaram a tecnologia de forma completamente aberta e que estão a funcionar a “anos luz” de outras que são mais tradicionais, numa clivagem tende a ser cada vez maior. Uma opinião semelhante à de Bruno Fonseca, CEO da Agroop, para quem “no futuro evoluirá mais rapidamente quem tiver capacidade de se organizar e partilhar informação. Acredito claramente que entre os próximos cinco a dez anos irá assistir-se a uma “revolução de dados”, que poderá designar-se de “big data”. E, big data basicamente resume-se à capacidade de analisar grandes quantidades de informação com o intuito de extrair conhecimento que consequentemente irá contribuir para uma maior eficiência da nossa agricultura”.

Outros títulos dentro do tema:

Ricardo Braga: “O pragmatismo aumenta à medida que o retorno do investimento se torna mais óbvio”

Agricultura de precisão: utilização de RPAS na Proteção das plantas

Tecnologias para monitorização do montado

Wisecrop: O Sistema Operativo da Agricultura

Hanna: A precisão na medição de pH, agora sem fios

A Bosch está na Agricultura Inteligente

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 210 (dezembro 2017)