Agrociência Investigação

O cultivo da batata-doce de Aljezur. Breve análise da situação atual e perspetivas

Fig. 1 – Raiz tuberosa de batata-doce var. Lira

A batata-doce Lira é considerada uma cultura ancestral que sempre foi cultivada pelas suas gentes, que detêm um elevado conhecimento na maneira de produzi-la, na sua conservação e nas suas diversas aplicações gastronómicas, tanto na cozinha como em pastelaria.
A Ipomoea batatas tem o seu centro de origem na América Central é uma planta de climas quentes, resiste bem à falta de água, mas é pouco tolerante à geada. A zona da planta que apresenta valor económico é a raiz de reserva fig.1.
Esta cultura teve o seu auge nas décadas de 60 e 70, tendo começado a decrescer em área na década de 80 e 90. Em 2005, inicia-se a sua recuperação com algum crescimento até aos dias de hoje. Inicialmente, servia de alimento às famílias e contribuía para a alimentação animal. Com a migração da população para os centros urbanos, a batata-doce foi perdendo fôlego. Mais tarde, com o conhecimento das suas propriedades, começou a haver um maior interesse e procura desta cultura, o que tem levado a que novos produtores se interessem na sua produção.

Fig. 2 – Campo de produção de um associado da APBDA

Atualmente, esta cultura constitui uma oportunidade de negócio, mas também um desafio. Uma oportunidade porque, embora seja uma cultura muito trabalhosa, remunera relativamente bem o investimento. Existe maquinaria adaptada ao plantio e colheita, reduzindo grandemente a mão-de-obra e um conhecimento das diferentes fases da cultura e das necessidades da planta fig.2. Um desafio na medida em que a introdução de material vegetal proveniente de outras regiões em que não foram salvaguardadas as devidas questões sanitárias, acabou por introduzir agentes patogénicos no ambiente. Esta prática associada à monocultura e à não rotação de culturas amplificou este problema, o que conduziu à perda de produção.
No concelho de Aljezur, diversas gerações cultivaram e viram cultivar batata-doce. A batata-doce Lira, produzida nesta região, tem a sua qualidade assente no potencial edafo-climático da região, na qualidade do material genético, no “saber produzir” acumulado de gerações e no apoio dado pela autarquia à sua associação. Para assegurar o futuro da batata-doce Lira, é necessário criar maior espírito associativo, produzir mais e melhor e criar um circuito de distribuição, para remunerar melhor o investimento realizado pelos produtores. Para poder produzir mais e melhor, é necessário realizar protocolos com instituições e empresas com vista à criação de uma rede de parceiros que proceda à realização de ensaios de campo e análises de despiste de doenças. Perante este cenário, foi criado um grupo de trabalho diversificado constituído por diversas entidades, com vista a dar resposta aos problemas técnicos que  estão a surgir na produção.
Como conclusão, pretende-se neste artigo divulgar este diagnóstico, para além de realçar o que nos últimos anos tem sido efetivamente realizado, sendo de assinalar a convergência de alguns apoios e reunião de interesses por parte de entidades oficiais (CM de Aljezur, DRAP Algarve e DRAP Alentejo, INIAV, ISA e UALG) e da parte Associativa, através da APBDA, visando neste contexto criar a estrutura de base de apoio para que os Pequenos e Médios Agricultores desta zona consigam desenvolver a sua atividade em bases económicas vantajosas / viáveis. No entanto ainda muito está por fazer…., mas acreditamos que estão criadas as bases para se pensar num futuro sustentável e para dar o devido contributo e visibilidade ao evento que anualmente se realiza nos finais de novembro na Vila de Aljezur.

Fig. 3 – Selo de certificação da batata-doce

 

Fig. 4 – Sede e armazém da APBDA

 

 

Autores: – Manuel Marreiros e Pedro Louro (APBDA) e J. Entrudo Fernandes (DRAP Algarve)

Publicado na Voz do Campo n.º 209 (novembro 2017)