Vinha & Vinho

Os consumidores (de vinho) estão cada vez mais sofisticados

“Um Vinho de Talha, um Espumante Doc, um monocasta branco, e um tinto em 2018, são a prova do nosso dinamismo!” Quem o diz é José Miguel D’Almeida, presidente do Conselho  de Administração  da Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito.

Pode fazer um balanço da atual campanha, ou seja destas últimas vindimas?
A vindima deste ano esteve alinhada com os resultados dos anos anteriores. Tivemos o problema da seca, aliás comum a todo o país, mas felizmente as uvas recebidas já passaram pelo nosso recém inaugurado CAP, que é o Centro de Análise e Pesagem da Adega. Ou seja, as uvas entregues pelos nossos associados para além de pesadas, também foram analisadas em vários parâmetros, e depois foram encaminhadas para a produção mais adequada dos vinhos que constituem o nosso variado portfólio. Isto permitiu-nos fazer uma gestão mais profissional dos vinhos que pretendíamos produzir com essas uvas.

Qual o impacto das alterações climáticas na produção ? Será possível precavermo-nos face às mudanças de clima?
A seca deste ano foi dura, mas provavelmente ainda foi mais difícil de gerir a elevada temperatura média que se verificou durante o verão. As videiras onde os nossos associados colhem as uvas estão adaptadas à nossa região, mas esta situação de temperaturas extremas obriga-nos a eventualmente termos que nos adaptar a uma nova realidade cujos contornos ainda não conhecemos com detalhe. Estamos a fazer os estudos necessários, com medições que nos indiquem parâmetros em que devemos basear decisões futuras, mas uma coisa é certa: cada vez mais teremos que escolher castas e clones que estejam adaptados a situações extremas de seca e calor

Há novos vinhos para breve?
A Adega e a sua região, Vidigueira, Cuba e Alvito, sempre estiveram ligadas a conquistas de outros tempos. A Adega sempre teve como objetivo cumprir a promessa de descoberta e afirmação desta região tão profundamente marcada pela cultura do vinho.
Para já, este ano lançaremos um Espumante DOC, na sequência da extraordinária aceitação que teve a nossa estreia neste segmento. O VDG de 2016 foi um sucesso, e o próximo Espumante ainda vais ser mais exclusivo. Mais perto do Natal teremos um novo monocasta branco e no próximo ano comemorando-se os 520 anos da chegada dos portugueses à Índia, iremos lançar um tinto tão marcante como o foi na altura a epopeia de Vasco da Gama.

Há novos mercados a explorar?
O esforço de internacionalização é enorme e constante na nossa Adega. Crescemos muito no mercado interno, mas sabemos que o grande desafio está nos mercados internacionais, onde se está a fazer uma grande aposta. Tão grande que há três semanas recebemos um grupo de 25 profissionais do setor (entre produtores, enólogos e jornalistas de todo o mundo) que quiseram aqui inteirar-se da excelência dos nossos vinhos, e verem com os seus olhos, a realidade da atual ACVCA, as nossas iniciativas e maneira de atuar.

Quais as preferências dos consumidores? Notam-se diferenças entre eles?
Os consumidores estão cada vez mais sofisticados. Sofisticação na nossa área, significa vinhos cada vez mais subtis de perfumes, aspeto, aromas, textura, e gosto, sempre características que depois estão aliadas ao prazer do consumo. E é aí que temos marcado pontos: os nossos vinhos são cada vez mais apreciados pelos consumidores esclarecidos, que sabem escolher, e que escolhem a qualidade acima de tudo. E quando o preço é depois apelativo, estão reunidas as condições para a compra perfeita, como se costuma dizer….!

Vinho da talha. O que está a ser feito para preservar este vinho tão típico da região?
O processo de produção de vinho de talha utilizado desde há muito nesta zona do Alentejo, e que ainda perdura. Herdámos essa tradição dos romanos, em que a talha tem dupla finalidade, a produção e o armazenamento do vinho.
Para não deixarmos morrer este método tão antigo, a Adega teve a iniciativa de produzir vinho de talha a partir de uvas de vinhas centenárias. Fomos à freguesia de Vila Alva no Concelho de Cuba buscar as uvas das vinhas mais antigas desta zona do país, muitas delas plantadas há mais de um século, mas cujos cachos têm uma refinada qualidade e gosto.
Através desta iniciativa conseguimos produzir um vinho diferente do habitual, graças à disponibilidade e colaboração dos nossos associados enquanto proprietários dessas vinhas.

Quais os investimentos e projetos a curto-médio prazo?
Desde que esta equipa tomou conta dos destinos da Adega, o objetivo foi romper com algum imobilismo, modernizá-la ou seja adaptá-la e torná-la numa estrutura moderna, virada para o futuro, com ambição e vontade de crescer. Para isso foram feitos investimentos na parte industrial e operacional, na área do marketing e Comunicação, e também Enoturismo. A Adega de hoje é uma empresa viva e atual, dinâmica, com uma gestão profissional, alinhada com o que de melhor se faz no mundo. Estamos a crescer para bem dos nossos associados, das comunidades onde nos inserimos, e dos três concelhos que cobrimos.

Publicado inicialmente na edição nº 209 (novembro 2017)