Hortofruticultura

Algumas notas sobre a poda de inverno

Escrever sobre o tema da poda não é uma tarefa fácil, uma vez que não existem duas árvores iguais. No mesmo pomar existem muitas plantas semelhantes que podem ter a mesma altura e largura, o mesmo número de ramos, mas estarem inseridos e orientados de forma diferente. Ao observarmos uma árvore antes de a podar também temos perspetivas diferentes conforme o ângulo de visão, seja do lado do vento predominante ou do lado contrário a este. Na poda, o que temos de ter são princípios básicos, compreende-los e depois saber aplicá-los consoante a situação. A poda não se ensina, aprende-se fazendo e observando a reação das árvores à nossa intervenção.
Neste pequeno apontamento tentaremos recordar, para uns, alguns dos princípios básicos, e para outros, despertá-los para a compreensão dos mesmos.

O que é a poda?
A poda é a arte de manter uma árvore produtiva e saudável durante muitos anos no espaço que lhe destinámos aquando da sua plantação. Quando plantamos um pomar a 4 x 1m (4m entrelinhas do pomar e 1 m entre plantas na linha) significa que a árvore se vai desenvolver em 2 m2, ou seja, no sentido da linha a árvore só pode desenvolver ramos com 0,5 m para cada um dos lados da linha e 1 m no sentido da entrelinha, os restantes dois metros são para as máquinas e alfaias passarem. Por princípio, as árvores não devem ter uma altura superior à distância da entrelinha.

Para que serve a poda?
A poda serve para orientar as árvores segundo a forma que lhe pretendemos dar, mantendo o equilíbrio entre folhas e frutos de forma a não enfraquecer a árvore devido ao excesso de frutos, nem se tornar muito vigorosa pela falta dos mesmos. Serve também para induzir à formação de madeira nova no espaço onde se elimina madeira velha, ou ainda estimular a formação de ramos em zonas desguarnecidas da árvore. Pretende-se assim formar madeira nova todos os anos. A poda deve favorecer a entrada de luz solar em toda a copa da árvore, para permitir que todas as folhas sejam eficientes na fotossíntese e que toda a árvore seja produtiva devido ao favorecimento da diferenciação floral, mesmo nos ramos do interior da copa. Deve ainda promover a qualidade dos frutos pela seleção dos melhores órgãos florais e respetiva localização. Esta gestão da copa facilita também o controlo das pragas e doenças. Na poda devemos eliminar todos os ramos doentes e secos de forma a prolongar a vida económica da árvore.

Quando se deve podar?
A poda das árvores de folha caduca pode efetuar-se no inverno, enquanto as árvores não têm folhas, designando-se por poda em seco ou de inverno, ou pode efetuar-se quando as árvores têm folhas e designa-se por poda em verde ou de verão.
A poda de inverno das prunoídeas (pessegueiros, ameixeiras e outras espécies de caroço) em geral efetua-se após a queda das folhas e antes do abrolhamento, ou seja, entre novembro e janeiro. A poda das pomóideas (macieira, pereira e outras espécies de pevide) também se efetua após a queda e antes do abrolhamento, mas um pouco mais tarde que a das prunoídeas, ou seja, janeiro a março. No caso particular da nogueira a poda só se deverá efetuar enquanto esta tiver folhas (após a colheita), caso contrário fica a “chorar” durante muito tempo e dificilmente cicatrizará os cortes. Devemos ter sempre presente que qualquer corte que façamos na poda de inverno estamos a retirar ramos que contêm reservas que são fundamentais na fase de abrolhamento das árvores. Relembramos que o abrolhamento e a floração, principalmente nas espécies de folha caduca, se realizam com as reservas que a planta formou durante o outono quando se deu a translocação dos nutrientes das folhas para os ramos, tronco e raiz. Assim, na poda, deve retirar-se o mínimo de ramos, com o mínimo de cortes e com uma eficácia máxima. As primeiras folhinhas que surgem nas árvores ao abrolhamento não são suficientes para satisfazer as necessidades da árvore em hidratos de carbono, razão pela qual as reservas são fundamentais no início do ciclo vegetativo. Como é do conhecimento geral, as árvores são reguladas por hormonas, ao efetuarmos a poda provocamos desequilíbrios hormonais fazendo com que a árvore reaja. Assim, a poda de inverno tem um efeito importante na formação de novos crescimentos. No entanto, tem um fraco efeito sobre a formação de novos órgãos de frutificação.
A poda de verão é efetuada durante o ciclo vegetativo das árvores, ou seja, desde que esta tem folhas até à queda das mesmas. A poda de verão tem um efeito desvitalizador, pois reduz o vigor das árvores e por essa razão favorece a formação de órgãos de frutificação. Esta poda pode ser efetuada em diferentes fases do ciclo vegetativo consoante a finalidade pretendida (enfraquecimento da árvore, favorecimento da diferenciação floral, favorecimento da qualidade dos frutos). O período de cicatrização das feridas é mais rápido do que na poda de inverno e menos favorável ao desenvolvimento de infeções.

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 212 (fevereiro 2018)

Autor:
Rui M. Maia de Sousa
INIAV, I.P.
Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade
2460-059 Alcobaça – Portugal
e-mail: rui.sousa@iniav.pt