Hortofruticultura

Grande Reportagem: Culturas protegidas onde menos área é igual a mais produção!

No dicionário, horticultura é a arte de cultivar hortas e jardins. No dia a dia horticultura é essa arte mas com objetivo de obter rendimentos, quando feita de forma profissional. Em Portugal este ramo da agricultura tem assistido a um crescimento dos seus números, desde logo na exportação, que de acordo com os dados da Portugal Fresh, em 2015 significaram 248 milhões de euros e em 2016 foram 268 milhões de euros. São valores significativos e que representam um setor que também teve de mudar a sua forma de estar. Veja-se o caso a Norte do país da Associação Empresarial Hortícola – Horpozim – que com 30 anos de existência e cerca de 800 associados tem uma forte preocupação em que os produtores pratiquem uma horticultura mais sustentável, amiga do ambiente e sensibilizada com a segurança alimentar do consumidor final.
Todos os anos esta Associação organiza umas Jornadas Técnicas de Horticultura, que já vão na décima edição, para as quais desafia as empresas de agroquímicos a apresentarem soluções cada vez mais seletivas e que resolvam os problemas, ao mesmo tempo que sejam vanguardistas. Manuel António da Costa e Silva, presidente da Horpozim, reconhece que essa evolução tem acontecido e hoje já é prática comum o uso de bioestimulantes e dentro da própria luta biológica, para além do uso de polinizadores, já se trabalha até ao nível da utilização de bactérias (bacilos).
Uma parte da horticultura nacional faz-se sob proteção, em estufa e abrigos altos, o que em 2016 representava apenas 0,7 % do nº total de explorações especializadas, com 1695 explorações ocupando 4301 ha (0,1% da SAU total), mas representava 3,4% do VPPT (INE, 2017), conforme dados apresentados nas páginas mais à frente por Mário Reis, Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade do Algarve, doutorado em Ciências Agrárias e que tem desenvolvido investigação em Horticultura, Horticultura protegida, Cultivos sem solo (…). Ainda de acordo com o mesmo, “a expansão da horticultura protegida resulta de vários fatores, como a menor dependência das condições climáticas adversas, a maior eficiência de uso dos fatores de produção e produtividade das culturas, a elevada qualidade dos produtos, a abertura de novos mercados e as exigências dos consumidores. Além disso, a horticultura protegida cria elevado número de postos de trabalho de exigência técnica variável, dinamiza a atividade económica das regiões, e estimula a formação profissional no setor”.
Através da proteção das culturas tem sido possível inovar, produzir alguns alimentos durante praticamente todo o ano, o que ao ar livre seria impossível, mas também tem dado lugar o desenvolvimento de projetos bastante diferenciadores, como o de Tomás Lancastre que a partir de um trabalho de fim de curso se lançou na produção de microvegetais, criou a empresa Microgreens e só trabalha com Chefs de renome.
Cultivar assim também traz outras necessidades, nomeadamente o controlo de tudo o que se passa dentro da estufa, seja a humidade, seja o calor, o pH e a condutividade das soluções nutritivas, o que tem dado aso a outras áreas de negócio, como a da Hanna Instruments que, há duas décadas em Portugal tem acompanhado em proximidade as necessidades analíticas dos empresários agrícolas, para encontrar soluções de teste e controlo de propriedades químicas, contribuindo para uma gestão eficiente dos nutrientes do solo e da água, e para a prevenção da contaminação ambiental.

“De um total entre 2000 a 2500 hectares de hortícolas cultivados nestes três municípios, a Horpozim estima mais de 300 hectares de estufas, só no concelho da Póvoa”
Na horticultura particularmente incidente dos concelhos da Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Esposende as culturas tradicionais continuam a marcar presença e aliás tem sido uma das preocupações da Horpozim mostrar aos produtores que a produção artesanal também tem o seu lugar (Couve Penca da Póvoa, a Cebola Vermelha da Póvoa e o alho seco). Todavia, nos anos mais recentes, a área coberta tem aumentado exponencialmente. “De um total entre 2000 a 2500 hectares de hortícolas cultivados nestes três municípios, a Horpozim estima mais de 300 hectares de estufas, só no concelho da Póvoa”.
Nesta região a área média da exploração situa-se entre 1,2 e 1,5 hectares, praticamente o mínimo para a sustentabilidade de uma exploração familiar, que é também nota dominante na região. São estas pequenas explorações que abastecem um vasto número de operadores comerciais que por sua vez fazem chegar o produto às várias capitais de distrito do Norte do país, incluindo também a Galiza. Os mercados tradicionais continuam a ser uma forma de complementar rendimentos, embora Manuel Costa e Silva aponte o dedo ao desinvestimento nos mercados municipais o que faz afastar os consumidores sobretudo para as grandes superfícies, um canal que por enquanto os horticultores daquela região ainda não abraçaram. No papel de mediadora que tem neste processo a Horporzim tem-se preocupado em que haja comunicação (normalmente nas Jornadas) no sentido dos operadores trazerem aos produtores as preferências do consumo que, segundo diz, funciona muito “por modas”, e assim vão sendo testadas e introduzidas novas variedades e até formas de trabalhar (por exemplo usando porta-enxertos).
O principal anseio dos associados da Horpozim seria terem uma atividade que por si só fosse capaz de gerar mais receitas. “Há uma mutação da realidade do que era há 20 anos atrás , o que faz com que a produção local também tenha de reposicionar-se. Não havia relação comercial com aquilo que são os grandes grupos económicos , existindo agora a promessa de que irá abrir na Póvoa uma central de compras da Mercadona, o que provavelmente fará com que haja algumas mudanças”.

Associação Interprofissional de Horticultura do Oeste estima 600 a 700 hectares de estufas
Outra região hortícola por excelência é o oeste, aqui a Associação Interprofissional de Horticultura do Oeste estima entre 600 a 700 hectares de estufas. Aqui faz-se horticultura protegida na região desde a década de 80 mas o temporal que se abateu sobre a região em 2009, causando grandes prejuízos, levou a que, ao reerguerem-se as pessoas tenham contruído novas estufas, mais modernas, com maior resistência aos ventos, tal como também se organizaram ao nível da comercialização e do tipo de produtos que têm vindo a cultivar, avança-nos António Gomes, presidente da Associação. Hoje as estufas são de estrutura metálica, automatizadas, com sistemas de controlo de temperaturas e ventos (… ). A principal cultura é o tomate que segue essencialmente para exportação, onde tem tido boa aceitação em mercados como o espanhol ou o inglês. Mas, no oeste são muitas as outras culturas praticadas em estufa, como o pepino, o pimento, o melão, meloa, feijão verde, curgete, alface (…). Dentro do tomate, que por si só ocupa metade da área de estufas, também tem havido mudança, ou seja, já não se faz apenas tomate para salada, também há outros tipos: cacho, cherry (…).

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 212 (fevereiro 2018)