Opinião

Descoberta de cogumelo silvestre mortal responsável pela maioria das intoxicações no Outono

No próximo dia 10 de março realiza-se um  Seminário de Micologia, organizado pela  Casa do Povo do Paul, em colaboração com a Câmara Municipal da Covilhã e  a Junta de Freguesia do Paul, com vista à apresentação de um trabalho de  investigação de base, onde se conclui pela toxicidade potencialmente mortal de uma espécie muito semelhante ao Macrolepiota procera (frade, roque, gasalho, marifusa, tortulho, etc.), que é responsável pela maioria das intoxicações de Outono que ocorrem aquando a apanha deste cogumelo, o mais conhecido e consumido em Portugal.

Além da caracterização pormenorizada e comparativa da espécie mortal com o Macrolepiota procera, dar-se-á conta de relatos e testemunhos de vítimas sobreviventes, de práticas úteis para evitar confusões na apanha  e algumas recomendações a seguir, por pacientes e profissionais de saúde, em caso de intoxicação. Os  presentes terão acesso à publicação “Nem sempre há horas de sorte. Macrolepiota venenata/Chlorophyllum venenatum incógnito e dissimulado, o principal responsável pelas intoxicações de Outono”, que está na origem deste Seminário.

Ver alerta:

O Macrolepiota procera, vulgarmente conhecido entre outros nomes vulgares por frade, gasalho, roque, marifusa, o da calcinha, púcara, roca, tortulho, é o cogumelo silvestre comestível mais apanhado e consumido em Portugal.

Esta espécie está presente, com muita frequência, na dieta alimentar de uma grande parte da população rural.

Foram no entanto recolhidos vários relatos de casos de intoxicação, alguns dos quais mortais, por pressuposta ingestão de Amanita phalloides, confundidos por Macrolepiota procera.Por razões de desconhecimento e de receio, a nível familiar a apanha e o consumo restringe-se muitas vezes apenas a esta espécie, baseados num princípio de que é fácil a sua identificação, em particular pelas características do chapéu e pela existência de um anel, concluindo daí, de forma precipitada, não haver possibilidades de confusão com outros cogumelos.

Os exemplares recolhidos e os testemunhos directos ou por terceira pessoa vieram confirmar que nunca se tratou de Amanita phalloides, apontando, de facto, para o consumo de Macrolepiota venenata, uma espécie semelhante nalgumas características ao Macrolepiota procera.

Ultimamente tem-se notado o aparecimento, com alguma frequência, de exemplares de Macrolepiota venenata. No entanto esta espécie, recentemente identificada, ainda está pouco estudada, sendo a informação produzida escassa e pouco divulgada.

A pouca atenção dada às características macroscópicas na identificação do Macrolepiota procera, o desconhecimento da generalidade das pessoas sobre a existência de uma espécie não comestível, muito semelhante, assim como a manutenção do uso do alho e de objectos em prata como método vulgar de confirmação da comestibilidade dos cogumelos, têm conduzido à ingestão de Macrolepiota venenata e provocado intoxicações que foram do simples mau estar à morte, por falta de assistência atempada.

Numa altura em que cresce a pressão da colheita e se nota um aumento das populações de Macrolepiota venenata, por uma questão de saúde pública e para evitar intoxicações que de forma sistemática continuam a ocorrer todos os anos, afectando particularmente crianças e idosos, afigura-se premente alertar e dar a conhecer de forma alargada, a existência desta espécie semelhante e os riscos que derivam do seu consumo.assistência atempada.

Resumida e comparativamente ao Macrolepiota procera: o Macrolepiota venenata, espécie tóxica a rejeitar, tem uma forma atarracada (o chapéu pode apresentar dimensões semelhantes ao frade mas o pé é mais pequeno); o chapéu, inicialmente globoso, não tem mamilo central; a cutícula rompe-se mais radialmente e as escamas são maiores e menos uniformes; as lâminas avermelham ao toque; o pé é liso e o bolbo do pé é marginado; o anel não é móvel, é mais simples e central; e, em jovem, toda a carne avermelha ao corte.

Contrariamente ao que a maioria das pessoas julga, não se pode facilitar com o Macrolepiota procera. A sua apanha exige de todos um aprofundado conhecimento das características distintas destas duas espécies, passíveis de confusão.


José Luís Gravito Henriques

Engenheiro Agrónomo

Escrito ao abrigo do anterior AO