Agrociência Hortofruticultura

Algumas Fisiopatias em Horticultura

António Pedro Tavares Guerra Engenheiro Técnico Agrário Licenciado em Engenharia Agro-Pecuária Formador e Consultor Técnico em Nutrição Vegetal

Introdução

As Fisiopatias podem ser definidas como alterações ou desordens de ordem natural, ou em consequência de agentes directos ou indirectos de ordem climática, nutricional ou fisiológica.
Entre os vários factores, os que maior influência tem no desenvolvimento das fisiopatias de ordem climática, são as geadas, as baixas e as altas temperaturas, a humidade atmosférica e o vento.
Relativamente às fisiopatias de ordem nutricional, temos as ligadas à salinidade, à acidez do solo, ao cálcio e ao boro, assim como a outros desequilíbrios nutricionais.
Podemos ainda acrescentar outras causas, como a textura e a estrutura do solo, as adubações incompletas e desequilibradas, as fitotoxicidades, etc.
Assim vamos descrever algumas das fisiopatias de ordem nutricional mais vulgares em Horticultura, no que se refere à sintomatologia, às causas e às soluções preventivas.

· Necrose marginal “Tip burn” da Alface
· Necrose apical do Tomate
· Rachamento dos frutos do Tomate
· Enrolamento fisiológico das folhas do Tomate
· A Grillage do Melão
· A Vitrescência do Melão

Necrose Marginal “Tip Burn” da Alface

SINTOMAS
Necroses na zona apical do limbo das folhas mais novas. /Foto: Miguel Morató

Causas:
Deficiente translocação do cálcio para as zonas afectadas, que acusam baixos teores de cálcio.

Principais factores que influenciam no desenvolvimento da Necrose Marginal:
. Salinidade excessiva dos solos.
. Disponibilidade elevada de azoto e potássio.
. Falta de insolação.
. Solos com baixos teores de cálcio, ou com más condições de absorção, devido à acidez do solo.
. Temperaturas elevadas.
. Desequilíbrios hídricos.

Condições de desenvolvimento:
Todos aqueles factores culturais e ambientais, que influenciam o crescimento excessivo da planta, potenciam este acidente fisiológico.
Nota: sobre as zonas necrosadas por esta fisiopatia, podem desenvolver-se agentes patogénicos.

Medidas preventivas:
. Escolher variedades mais tolerantes a esta fisiopatia.
. Utilizar adubos equilibrados, com pouco azoto.
. Fornecer o azoto, de preferência na forma nítrica.
. Não exceder nas adubações potássicas e magnesianas, que entram em concorrência com o cálcio.
. Aplicar cálcio na forma de cloreto, nitrato ou quelato;
. Manter um bom nível hídrico no solo, com regas frequentes e pouco abundantes.
. Adaptar o sistema de rega ao tipo de solo, que é um factor importante na prevenção deste acidente fisiológico.

Nota: é muito importante a relação N/K no desenvolvimento desta fisiopatia, em que Stéphan, cita que esta tem uma grande incidência na Necrose Marginal, como se pode verificar, no seguinte quadro:

 

Necrose Apical no Tomate

SINTOMAS:
Mancha necrótica na zona apical do fruto, que inicialmente tem um aspecto oleoso e que posteriormente evolui para uma podridão negra invadida por fungos saprófitas como “Alternária”, etc.

Principais causas:
. Baixos teores de cálcio nas zonas afectadas, resultantes de uma carência deste nutriente no solo ou de uma deficiente translocação do mesmo na planta.
. Elevada condutividade eléctrica (salinidade excessiva dos solos).
. Água de rega com elevada concentração de sais.
. Disponibilidade elevada de azoto amoniacal e potássio.
. Temperatura elevada, especialmente associada a humidade relativa baixa, aumentando a transpiração das plantas.
. Desequilíbrios hídricos.
. Etc.

Soluções:
. Regas regulares e frequentes.
. Aplicação de cálcio solúvel na água de rega, complementado com aplicações foliares, nas doses apropriadas, segundo as necessidades da cultura.
. Nos solos ácidos, proceder à correcção calcária com Carbonato de cálcio, antes da plantação.

Sintomas no pimento

Nota: sintomas de necrose apical podem surgir em outros frutos, tais como beringela, pepino, pimento, etc.

 

 

 

Rachamento dos frutos no tomate

SINTOMAS:
Rachamento dos frutos de tomate de forma longitudinal ou radial.

Principais causas:
. Sensibilidade varietal.
. Rega excessiva a seguir a stress hídrico.
. Higrometria elevada.
. Temperaturas elevadas.
. Grandes diferenças entre temperaturas diurnas e nocturnas.
. Desequilíbrios de nutrição (N/Ca, K/Ca).
. Frutos de grande calibre.

Enrolamento Fisiológico das Folhas no Tomate

SINTOMAS:
Enrolamento dos folíolos, especialmente na zona basal da planta.

Principais causas:
. Sensibilidade varietal.
. Muita carga de produção.
. Podas excessivas.
. Excesso de água a seguir a stress hídrico.
. Diferenças de temperatura entre o dia e a noite.

Queima das folhas “Grillage” no melão

SINTOMAS:
Necroses e seca das folhas muito características, causando muitas vezes a morte das plantas.

Principais causas:
. Desequilíbrio entre a parte aérea da planta, especialmente a carga de frutos e o sistema radicular.
. Variedades muito vigorosas.
. Períodos frios a seguir à plantação ou depois da frutificação.
. Podas muito severas.
. Insuficiência de certos nutrientes, como o Azoto, o Magnésio, o Cálcio, o Boro e o Molibdénio.

Soluções:
. Aplicações foliares de nitrato de cálcio e sulfato de magnésio, a partir do início do engrossamento dos frutos, são utilizadas na prevenção da grillage.

Vitrescência dos frutos no Melão

SINTOMAS:
Polpa do fruto com aspecto vítreo, situada entre a casca e a zona das sementes.
Foto: INRA

Principais causas:
. Solos frios (mau desenvolvimento radicular).
. Grandes diferenças de temperaturas diurnas e nocturnas.
. Adubações minerais desiquilibradas, em excesso ou insuficientes.
. Regas excessivas ao longo do engrossamento e da maturação dos frutos.
. Insuficiência de cálcio nos frutos.

Soluções preventivas:
. Evitar a plantação em solos frios e húmidos.
. Aplicar cálcio a partir do vingamento dos frutos.
. Regar em função do estado do desenvolvimento das plantas e das condições climáticas: importante no início do engrossamento dos frutos e reduzi-la uma semana antes da colheita.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cadahia, Carlos (1998) “Fertirrigacion en cultivos Hortícolas y Ornamentales”
Caja Rural Valencia (1995) “La Lechuga”
Caja Rural Valencia (1995) “El cultivo del Melon”
CTIFL (1982) “La Fertilisation des cultures légumières ”
CTIFL (1998) “Le Melon”
INRA (1991) Maladies des Cucurbitacées
INRA (1988) Maladies de la Tomate
PHYTOMA (1998) “ La sanidade del cultivo del Tomate”
STEPHAN, M. (1982) “ La Fetilisation de la Latue de Serre”

Escrito ao abrigo do anterior AO.

Publicado na Voz do Campo n.º 211 (janeiro 2018)