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Pastagens e Forragens. Conhece-lhes realmente o valor?

Os prados e pastagens permanentes (pobres e melhoradas) ocupavam em 2016 uma superfície de 1,92 milhões de hectares, o que correspondia a cerca de 52% da Superfície Agrícola Utilizada (SAU). A sua importância na ocupação cultural tem vindo a aumentar nas últimas décadas, tendo-se registado um aumento de 6% desde 2009, data do último Recenseamento Agrícola. Predominam os prados e pastagens permanentes em terra limpa (55% do total) sobre as que estão sob coberto de matas e florestas (41%) e as que estão sob coberto de culturas permanentes (3%) ou as que são não produtivas em regime de RPU (1%). São dados da Sociedade Portuguesa de Pastagens e Forragens que levam a concluir igualmente que em todo o país, à exceção dos Açores, predominam as pastagens pobres – ou seja pastagens naturais/espontâneas não adubadas nem semeadas.
Ainda segundo aquela organização, o contributo das pastagens e forragens para a agricultura portuguesa não tem sido devidamente reconhecido nem aproveitado. São 2/3 da área agrícola que estão ocupados por estas culturas que são o suporte da produção animal (especialmente ruminantes) mais barata e de qualidade
David Crespo, aquele que é considerado o “pai” do conceito pastagens à base de misturas biodiversas ricas em leguminosas e mais tarde fundador da empresa Fertiprado, não podia estar mais de acordo. Trouxe conceitos do exterior que desenvolveu nas condições particulares de Portugal ao longo de várias décadas de estudo e não compreende que depois de tantas provas, como o facto deste tipo de pastagens promoverem maior fertilidade do solo, controlarem a erosão, permitem maior biodiversidade do ecossistema entre muitos outros benefícios, ainda não estarem mais difundidas.

Provas dos benefícios são científicas
Ainda assim, segundo a SPFF, é cada vez mais frequente o reconhecimento da importância do papel das superfícies ocupadas por prados, pastagens permanentes e pastagens temporárias na mitigação das alterações climáticas, nomeadamente na captação e fixação de grandes quantidades de C02 nos solos não mobilizados ocupados por estas culturas. Importantes evidências científicas neste sentido foram produzidas através de trabalhos de investigação de acompanhamento do projeto Terraprima “Pastagens semeadas biodiversas” referido por todos os intervenientes desta Grande Reportagem como um marco nesta atividade já que provou eficiência das pastagens permanentes semeadas biodiversas no sequestro de carbono.
Embora para o grande público possa parecer um “tema menor”, há muito trabalho de investigação que tem vindo a ser desenvolvido, nomeadamente o Pólo de Elvas do Instituto Nacional de Investigação Agrária a Veterinária, I.P. (Estação de Melhoramento de Plantas) que há mais de 70 anos desenvolve programas de melhoramento genético de diversas espécies com aptidão pratense e/ou forrageira com o principal objetivo de obter novas variedades. As metas e critérios de seleção de cada programa são definidos de forma a corresponderem às diferentes exigências do mercado, aos condicionalismos caraterísticos de cada época e às perspetivas de evolução dos diferentes sistemas agrários.
Também um trabalho desenvolvido na Escola Superior Agrária de Castelo Branco e premiado como Melhor Poster – prémio para o progresso dos pastos atribuído pela Sociedade Portuguesa de Pastagens e Forragens – estudou a utilização de pastagem na alimentação de vacas Holstein Friesian e o respetivo efeito sobre a produção e composição do leite e chegou a conclusões significativas como a de que as vacas em pastoreio produzem mais leite (10%) e leite com ácidos gordos considerados hipocolesterémicos.

Ajudam à mitigação dos efeitos das alterações climáticas mas também sofrem com eles
E as próprias empresas que entretanto surgiram dentro desta temática, como a Nutriprado, têm muitas vezes encabeçado projetos e desenvolvido diferentes área de negócio no sentido de promover e divulgar este conceito. Isto é, na última Reunião de primavera da SPPF foi precisamente apresentada uma comunicação nesse sentido, com base num trabalho liderado pelo professor e climatologista, João Santos, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Assim, de acordo com aquele investigador, as alterações climáticas vão implicar uma subida das temperaturas que vão afetar mais as zonas do interior do país em consequência também de uma intensificação do anticiclone dos Açores, principalmente durante o verão. Na primavera, verão e outono vai verificar-se também uma diminuição da precipitação.
No caso das pastagens e forragens as consequências são óbvias porque a precipitação da primavera é fundamental para o seu desenvolvimento. Uma diminuição da precipitação, associada ao aumento da temperatura implica mais evapotranspiração, menos teor de humidade nos solos e tudo isso terá consequências ao nível da produção de biomassa e do crescimento das pastagens e também das forragens.
O estudo incidiu numa parcela na Beira Baixa, e mostrou uma diminuição da produção (biomassa) à medida que se avançava nas décadas, até ao final deste século. Significa que haverá menos forragem disponível e também que, sem recurso à rega, nalguns casos será insustentável a continuação da produção de forragens, de forma economicamente viável. Outro resultado curioso do estudo foi que, mesmo com recurso à rega, limitando o limiar do stress hídrico num valor que é considerado confortável para as plantas (mistura de várias plantas), há uma diminuição da biomassa. A explicação vem de que as temperaturas excessivamente elevadas que se verificam durante o verão (mais visível quando se procede ao corte mais tardio) influenciam a produtividade devido ao maior stress térmico. Pode acontecer que, mesmo existindo água as plantas nem a vão utilizar devido às temperaturas excessivamente elevadas que bloquearão o seu crescimento. De forma sucinta pode concluir-se que mesmo aplicando rega esta não será uma solução completa para o problema, pelo que, na visão do investigador “há sempre a possibilidade de optar por plantas com origens em climas tropicais, ou de zonas mais quentes, que estão mais adaptadas ao calor”.

Grande Reportagem para ler na íntegra na edição 214 (abril 2018)