Agrociência Sanidade vegetal

Plantas de oliveira tolerantes a Xylella fastidiosa, sim é possível

Maria Rosário Félix, Carla Varanda, Patrick Materatski, M. Doroteia Campos, Augusto Peixe

Xylella fastidiosa é atualmente um dos nomes mais conhecidos dos olivicultores portugueses, mas não pela melhor razão. Xylella fastidiosa é o nome da bactéria responsável pela doença do declínio súbito da oliveira, doença esta que tem dizimado milhares de hectares de olival, nomeadamente no sul de Itália. Mais recentemente, outros países têm sido confrontados com esta doença não só no olival, mas também em outras culturas como o amendoal e em jardins e plantas ornamentais.

A Xylella fastidiosa desenvolve-se no interior dos feixes vasculares do xilema das plantas causando, com o seu crescimento, o bloqueio destes vasos e impedindo a passagem de água e nutrientes do solo para a parte aérea da planta. Assim, os sintomas observados podem ser muitas vezes confundidos com sintomas de desidratação ou com sintomatologias de outras doenças causadas por agentes patogénicos que colonizem também os feixes vasculares xilémicos. A rapidez com que sintomas resultantes da obstrução completa dos feixes do xilema se manifestam vai depender da idade da árvore e do seu estado nutricional.

Os sintomas associados a esta doença iniciam-se com uma necrose da parte apical do limbo das folhas situadas nas zonas mais periféricas da copa da oliveira (Figura 1), passando depois para a morte de ramos e pernadas da árvore (Figura 2), até à sua morte total (Figura 3).

A perigosidade desta doença é ainda maior devido à sua forma de disseminação uma vez que esta bactéria é transmitida de planta para planta por insetos vetores que estão regularmente presentes nos nossos ecossistemas. No entanto, tanto quanto se sabe, para já, as amostragens de insetos testados pelos organismos oficiais de Portugal encontram-se isentos de bactéria. Para além dos insetos vetores, existem também muitas espécies vegetais que fazem parte da flora mediterrânica que são hospedeiras desta bactéria, podendo assim servir de repositório. A acrescer a estes fatores de risco, também a livre circulação de material vegetal entre os países, nomeadamente da União Europeia, muitas vezes sem passaporte fitossanitário, representa um risco acrescido para a possibilidade de introdução da doença no nosso país.

Perante este cenário, impõe-se uma pergunta: O que fazer para prevenir esta doença?

Na Universidade de Évora, estamos conscientes da inevitabilidade do aparecimento desta doença nas nossas culturas, não só no olival, como no amendoal atualmente em franca expansão no nosso país, na vinha ou nos citrinos e, por conseguinte, irá haver a necessidade de conviver com a presença da bactéria. Por esta razão, este assunto foi encarado pelo grupo de investigação em Proteção de Plantas como um caso de estudo prioritário, tendo-se, de imediato começado a trabalhar na tentativa de proteger as novas plantas desta doença. O trabalho desenvolvido tem como base a proteção de jovens plantas através da utilização de um vetor autoreplicante que irá ser introduzido nas plantas e lhes irá conferir tolerância a esta doença. Esta linha de trabalho já está a ser desenvolvida há algum tempo no Laboratório de Virologia Vegetal para proteção contra outras doenças não tratáveis.


Maria Rosário Félix (Doutora em Ciências Agrárias, Professora na Universidade de Évora, Depº Fitotecnia, ICAAM; mrff@uevora.pt)

Carla Varanda (Doutora em Ciências Agrárias, Bolseira de Investigação da FCT (SFRH/ SFRH/BPD/76194/2011), Laboratório de Virologia Vegetal, Universidade de Évora, ICAAM; carlavaranda@uevora.pt)

Patrick Materatski (Doutor em Biologia, Laboratório de Virologia Vegetal, Universidade de Évora, ICAAM; pmateratski@uevora.pt)

Doroteia Campos (Doutora em Ciências Agrárias, Bolseira de Pós-doutoramento, Laboratório de Virologia Vegetal, Universidade de Évora, ICAAM; mdcc@uevora.pt)

Augusto Peixe (Doutor em Ciências Agrárias, Professor na Universidade de Évora, Depº Fitotecnia, ICAAM; apeixe@uevora.pt)

Para ler na íntegra na edição 214 (abril 2018)