Cereais

Já há Estratégia para os Cereais. E agora?

Conseguir um grau de autoaprovisionamento de 80% no arroz, 50% no milho e 20% nos cereais praganosos num horizonte de cinco anos são os objetivos mais imediatos da Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais, tornada pública nas recentes comemorações do Dia do Agricultor que aconteceu em Elvas na Estação Nacional de Melhoramento de Plantas – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV).

Para falar do setor dos cereais e do ponto em que se encontram nos dias de hoje é necessário recuar no tempo e a um período em que sobretudo o trigo foi cultivado praticamente em regime de monocultura e em grande parte suportando a alimentação da população. As mudanças sociais e culturais que aconteceram no nosso país no século passado levaram a que entre 1989 e 2016 se tenha verificado uma diminuição de 56,2% da terra arável, sendo que só no Alentejo essa diminuição foi superior a 767 mil hectares. Estes foram valores apresentados pelo Coordenador do grupo de trabalho que definiu a Estratégia, Luís Souto Barreiros, perante uma plateia que reuniu mais de três centenas de pessoas.
Entre algumas das medidas previstas, Luís Souto Barreiros destacou a criação da marca “Cereais de Portugal”, a constituição de uma Organização Interprofissional e de uma Agenda de Inovação para o setor e a promoção da capacitação técnica das organizações de produtores de cereais, com vista a aumentar a transferência de conhecimento para os agricultores.
É de sublinhar que esta Estratégia reuniu consenso entre todos os agentes quer quanto à necessidade de ser concebida quer quanto ao compromisso de a executar de acordo com as metas propostas. Desde a primeira hora contou com o apoio, e colaboração, das principais organizações ligadas à produção, nomeadamente a ANPOC – Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais, a ANPROMIS – Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo e a AOP – Associação dos Orizicultores de Portugal, representadas no Dia do Agricultor pelos respetivos presidentes: José Palha, José Luís Lopes e Joaquim Cabeça.
Na programação do Dia do Agricultor, e no âmbito do painel onde foi tornada publica a Estratégia, organizações como a Orivárzea e a Cersul reforçaram também a vontade de “puxar” pelo setor. António Madaleno, em representação da Orivárzea afirmou que a produção de arroz no nosso país tem grandes oportunidades na exportação, mas para isso é fundamental o papel da investigação, como aconteceu recentemente com o “apuramento” de duas variedades nacionais. Já Bulhão Martins, em nome da Cersul acredita que este documento será capaz de derrubar as barreiras burocráticas que se têm erguido e têm impossibilidado o setor de avançar.
Mas também a indústria manifestou o seu apoio à Estratégia, pela voz do secretário-geral da IACA-Associação Portuguesa do Industriais de Alimentos Compostos para Animais, Jaime Piçarra, que manifestou a disponibilidade desta associação para a constituição de uma Organização Interprofissional dos Cereais, considerando importante a definição de um modelo de contratação entre indústria e produtores de cereais.
Já Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente, avançou à nossa reportagem que esta Estratégia vem confirmar aquilo que o Clube, juntamente com algumas organizações de produtores, identificou como “a necessidade de fazer crescer e organizar um setor que estava completamente partido”.
Esta Estratégia “vem sedimentar a nossa crença na agricultura nacional e local, fazendo o alinhamento com aquilo que os consumidores hoje em dia procuram e que é um pão rústico e sustentável e que para além disso também ajuda à economia nacional”. Com o seu projeto “Pão com Cereais do Alentejo” neste momento os hipermercados Continente estão a produzir 56 diferentes tipos de pão à base da farinha proveniente dos aderentes a esta iniciativa. “Isto representa uma compra de cerca de 3 mil toneladas de cereais por ano, convertidos depois em farinha e uma garantia para estes produtores de durante dois anos escoarem a sua produção, com preços fixados”, sustenta Ondina Afonso.

Em termos estratégicos, o que se pretende é reduzir a dependência externa, consolidando e aumentando as áreas de produção, criar valor na fileira dos cereais e a viabilização da atividade agrícola em todo o território.

Uma das preocupações que dominam a atualidade e que requer planeamento estratégico de longo prazo é determinado pelas alterações climáticas que este ano também foram mote para um painel na programação do Dia do Agricultor. O tema foi tratado pelo presidente do IPMA, Miguel Miranda e comentado por José Núncio (Presidente da Fenareg e Irrigants d’Europe), João Paulo Crespo (Presidente da Fertiprado) e Benvindo Maçãs (Diretor da UEIS – Biotecnologia e Recursos Genéticos – INIAV, I.P.).
“O melhoramento, ao manipular a composição genética das plantas, promove a sua adaptação a novas realidades. No INIAV/ENMP este fenómeno está a dominar os objetivos dos programas não só no que se refere ao melhoramento mas também na área dos itinerários técnicos das diferentes culturas”, faz-nos saber o presidente do INIAV, Nuno Canada.

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 216 (junho 2018)