Agrociência

Avaliação genética – seleção de reprodutores nas espécies pecuárias

Nuno Carolino1,2,3*, Fátima Santos-Silva1 e Inês Carolino1 1 Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P. Estação Zootécnica Nacional – Fonte Boa. Vale de Santarém, Portugal (www.iniav.pt). *nuno.carolino@iniav.pt 2 CIISA – Faculdade de Medicina Veterinária – Universidade de Lisboa. Lisboa, Portugal. 3 Escola Universitária Vasco da Gama. Lordemão, Coimbra, Portugal.

Qualquer criador de animais de uma espécie pecuária, que disponha de um efetivo reprodutor, em condições normais, anualmente ou quase todos os anos, terá que decidir quais os animais (machos e fêmeas) que vai vender, abater ou refugar e quais os que vai deixar ou adquirir para utilizar como reprodutores – Seleção.

Em produção ou melhoramento animal, a seleção consiste pois na escolha de animais, machos ou fêmeas, para utilizar como futuros reprodutores. Estes animais escolhidos para serem reprodutores, a partir do conjunto de animais disponíveis na própria exploração ou nas de outros criadores, deverão ser aqueles que melhor servem os objetivos dos criadores, para transmitir aos descendentes as características desejáveis. Este processo de seleção ou de escolha de futuros reprodutores é difícil e depende de muitos fatores, como a espécie, a raça, o objetivo de produção e o tipo de característica que se pretende melhorar.

O fenótipo (P) de um indivíduo para uma característica qualquer (e.g., peso adulto) depende do seu genótipo (G) e das influências ambientais (E) a que foi sujeito (P=G+E). O genótipo (G) corresponde ao conjunto dos genes de cada animal e constituem o seu património hereditário. Assim, o fenótipo (P) poderá ser um indicador do valor genotípico (G) de um animal, mas como reprodutor não transmite à descendência o seu genótipo, mas apenas metade dos seus genes, é fundamental podermos quantificar o valor destes genes para uma determinada característica (VG –
Valor genético).

Normalmente, os criadores apenas dispõem de informação fenotípica (peso ao desmame, GMD, produção leite, morfologia, etc.) do próprio indivíduo ou dos seus familiares, que é influenciada por diversos fatores ambientais (ano, mês, idade, criador, etc.), mas desconhecem os genes que os candidatos a reprodutores possuem e a forma como estes podem determinar as características que mais lhes interessam. Isto é, independentemente do aspeto físico, morfológico ou funcional, do  desempenho ou idade, um animal que chegue a reprodutor apenas poderá transmitir aos filhos parte dos seus genes e não as condições ambientais a que foi sujeito.


De uma forma simplificada,  poderemos dizer que os filhos herdam metade (50%) do material genético de cada um dos pais (Figura 1). Assim, interessa ao criador conhecer o valor genético (VG) dos animais, ou seja, o que o animal poderá realmente transmitir à descendência. O valor genético representa o valor de um animal para determinada característica (altura, produção de leite, peso, produção de lã, pontuação, etc.) ou o valor que este tem se for utilizado como reprodutor. O VG de um animal para uma característica (e.g., produção de leite) corresponde à soma dos efeitos
de cada um dos genes que afetam essa mesma característica nesse animal. Matematicamente, o valor genético é o dobro do desvio de um grande número de descendentes (teoricamente “ ) do indivíduo relativamente à média da população. Por exemplo, se o VG de um touro para a capacidade de crescimento até ao desmame for de +40 kg, significa que os filhos desse touro terão, em média, pesos ao desmame 20 kg superiores aos da população. Da mesma forma, se um reprodutor tiver um VG para o intervalo entre partos de -60 dias, significa que as suas filhas terão em média intervalos entre partos 30 dias mais curtos do que a média da população.
O valor genético de um animal para determinado caracter,  independentemente de ser fêmea ou macho, representa o valor desse animal como reprodutor (expresso nas respetivas unidades de medida, isto é, litros, kg, etc.) e deve ser interpretado como a superioridade ou inferioridade genética para a característica em causa relativamente à média da população.

Utilizando como exemplo os valores genéticos para a produção de leite aos 240 dias lactação de 2 bodes da raça Serpentinas, em que o 1º tem um valor genético de +20 litros e o 2º um valor genético de -10 litros (diferença de +30 litros entre o 1º e o 2º macho), espera-se que, se forem acasalados com a mesma fêmea, se registe uma superioridade média de 15 litros na produção de leite das filhas do 1º macho comparativamente às
filhas do 2º macho.
O valor genético de +20 litros do 1º macho indica-nos ainda que este animal está acima da média da população e que as suas filhas (que recebem 50% dos seus genes) terão produções de leite, em média, 10 litros superiores às da população donde provêm.
Atualmente, a utilização do método conhecido por BLUP – Modelo Animal para realizar a avaliação genética está generalizada a nível internacional, na maioria das pecuárias (equinos, bovinos, ovinos, suínos, aves, caprinos, etc.), pois quando comparado com a seleção fenotípica e com outras metodologias de seleção, apresenta diversas vantagens:

Em termos práticos, o valor genético de um indivíduo predito pela metodologia BLUP – Modelo Animal considera:
· O mérito genético de todos os seus parentes mais ou menos distantes (pela inclusão da matriz de parentescos – relação de parentesco entre todos os animais).
· O valor genético dos participantes nos diferentes acasalamentos (isto é, um macho não será prejudicado por ser acasalado com fêmeas de mérito genético inferior ou vice-versa).
· Todos os registos produtivos disponíveis (registos repetidos no mesmo indivíduo, registos repetidos nos seu parentes, etc.).
· Os efeitos ambientais a que um registo foi sujeito (e.g., diferentes ambientes/explorações, época de nascimento, sexo, idade, etc.).

Através da avaliação genética com o BLUP – Modelo Animal, pretende-se estimar com a maior precisão possível o valor genético de cada animal, para as diversas características com mais interesse para raça, desde que exista informação produtiva sobre o animal ou sobre os seus parentes (ascendentes, descendentes e colaterais), independentemente da sua
idade, sexo, exploração onde nasceu.

Os bovinos Holstein Frísia em 1994 foram os primeiros em Portugal a ter informação disponível e sistematizada sobre os valores genéticos para diversas características produtivas (quantidade de leite, gordura e proteína, teor butiroso e proteico) e, mais tarde, morfológicas (pontuação, sistema mamário, etc.).
A partir de 2003, praticamente todas as raças autóctones e exóticas das espécies pecuárias, com livro genealógico e programa de melhoramento genético em curso em Portugal, têm vindo a implementar a realização anual da avaliação genética dos seus efetivos para as características consideradas mais importantes.
As diversas Associações de Criadores podem assim apresentar todos os anos e de várias formas (catálogos, relatórios, serviço on-line, etc.) os resultados da Avaliação Genética das suas raças, facultando informação sobre o potencial genético de qualquer animal e respetivas performances permitindo, assim, que os criadores efetuem diversos tipos de consultas, que sirvam de apoio à tomada de decisão sobre os animais a selecionar para futuros reprodutores.
Nas Figuras 3, 4, 5 apresentamos diferentes formas das Associações de Criadores divulgarem os resultados da avaliação genética, respetivamente, para a raça Mertolenga, Merina Preta e Garrana.
Em Portugal, nas raças autóctones e exóticas, a avaliação genética dos animais tem-se tornado gradualmente uma ferramenta comum para apoio à seleção.
Conjugando esta informação, com a avaliação morfológica dos animais, no sentido de avaliar se estão fisicamente aptos para reprodução, os criadores
dispõem de informação objetiva para a seleção dos animais que vão utilizar como futuros reprodutores.

Publicado na Voz do Campo n.º 211 (janeiro 2018)