Cereais Investigação

Centeio. Abriu-se uma janela de oportunidade

O projeto PRODER Medida 4.1 PA 55.570 “Recuperação de populações de CENTEIO DA REGIÃO DA SERRA DA ESTRELA” integrou a parceria entre a empresa de sementes NUTRIPRADO (Promotor), o Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa (responsável pelo desenvolvimento técnico-científico do projeto) e a Consulai.
A parceria propôs-se desenvolver um projeto que teve como objetivo tomar medidas de prevenção, recuperação e preservação das populações autóctones de centeio de Altitude – Serra de Estrela e zonas limítrofes -, dado que os reservatórios disponíveis de germoplasma de centeio relativos a esta região são escassos ou nulos.

Durante a vigência do projeto, 2015 a 2017, desenvolveram-se diversas ações cujos resultados se sintetizam.
Com o apoio da DRAPCentro, em 2015 foram efetuados inventários e recolhas de amostras de centeio na região. Constatou-se o abandono da cultura, tendo sido apenas possível obter 10 variedades autóctones de centeio para panificação (SECCE1 a SECCE10). E uma variedade forrageira de centeio de ciclo curto, denominada na região por “Centenico” (SECCE11) e semeada em meados de março. A razão do cultivo do ‘Centenico’ no passado justifica-se pela sua elevada qualidade forrageira.

Os resultados obtidos mostraram que:
1. As variedades de Centeio da Serra da Estrela (SECCE1 a SECCE11) são distintas de outras cultivares e de outras populações de centeio, oriundas de regiões geográficas diferentes (fig 1). Este resultado é de extrema importância por revelar novos recursos genéticos inexplorados. A descoberta de uma assinatura genética única das populações portuguesas abre uma janela de oportunidade para a agricultura e economia portuguesa.
2. A proteína total do grão foi superior à do centeio comercial e próximo da que ocorre no trigo (ca. 13%).
3. A qualidade forrageira do centeio corresponde ao que é requerido a uma espécie forrageira em termos de equilíbrio de valor nutritivo, com a proteína bruta a diminuir após o encanamento, sem diferenças entre as variedades analisadas.
4. Relativamente à avaliação da aptidão da farinha de centeio para panificação, com base nos dados de farinografia e alveografia, verifica-se que a farinha de centeio na mistura com trigo confere uma maior extensibilidade e maior tenacidade. Para produzir pão de centeio, a proporção mais indicada para o efeito é de 70% de centeio e 30% de trigo.
5. Os solos da região da Guarda são ácidos, não salinos e a matéria orgânica é na maioria dos solos média. O potássio extraível, em geral, foi alto ou médio. O fósforo apresentou uma gama de variação bastante ampla desde muito alta a muito baixa. Os catiões, Na, K, Ca e Mg apresentaram valores tendencialmente baixos a muito baixos. O alumínio de troca é elevado. Os valores da relação Ca/Mg indicaram que, em geral, são desfavoráveis (< 1,5) para as propriedades físicas dos solos e para a nutrição das culturas. Quanto aos micronutrientes, os solos apresentam, no geral, concentrações baixas de cobre, zinco e manganês incluindo-se nas classes de fertilidade baixa a muito baixa. O ferro apresenta concentrações variadas, mas no geral altas a médias. Os valores de boro extraível foram baixos (0,21-0,40 mg/kg) a médios (0,41-1 mg/kg). No entanto, as concentrações de boro na maioria destes solos podem considerar-se acima da concentração crítica abaixo da qual há probabilidade de surgir deficiência deste micronutriente nas plantas cultivadas em solos de textura grosseira, como é o caso dos solos em análise.
Os resultados obtidos no conjunto das ações desenvolvidas permitiram, no final de 2017, a seleção de uma variedade diploide, de polinização aberta (OPV), provisoriamente designada por Secale cereale L. var. ‘Beirão’, com origem na amostra recolhida na freguesia de Manteigas (SECCE6, coordenadas: 40.403310, -7.539938) e cultivada desde 1985 até 2014 pelo agricultor. Esta variedade regional continua, atualmente, em ensaios de campo, na região da Guarda e Tapada da Ajuda, ISA, com o objetivo de completar o processo necessário ao seu registo no Catálogo Nacional de Variedades.

Um artigo da autoria de Ana Monteiro para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 216 (junho 2018)