Grande Entrevista

António Gomes, presidente da Porbatata

“Seja batata primor, batata nova ou batata fresca, tem é de ser promovida”

A batata é um dos vegetais mais usados em todo o mundo e as estatísticas apontam para que em Portugal o consumo médio de cada português seja de 93,5 quilos / ano, o que perfaz um consumo total na ordem das 900 mil toneladas. Situando-se a produção nacional nas 500 mil toneladas, às quais é necessário descontar a exportação (cerca de 100 mil toneladas), significa que o nosso país nem produz metade daquilo que consome.
As razões serão várias tal como os caminhos para inverter a situação, sendo essa uma das missões da Porbatata – Associação da Batata de Portugal – criada há quase dois anos para defender e organizar o setor da batata.
A campanha “Batata Portuguesa Nasce à Sua Porta” é a mais recente iniciativa da Associação e pretende promover a batata nacional, sobretudo a batata fresca, produzida muito próximo dos locais de consumo.
Foi para nos detalhar esta campanha, mas também caracterizar o setor da batata nacional e abordar os projetos da Porbatata que entrevistámos o seu presidente, António Gomes.

Comecemos pela definição da Porbatata.
Porbatata é a Associação da Batata de Portugal. Foi criada há quase dois anos para defender e organizar o setor da batata, por isso integra várias áreas. Engloba o setor da produção: produtores, alguns individuais, OP, cooperativas (…), a área mais comercial: as Organizações de Produtores que fazem comercialização, mas também muitos dos chamados “batateiros” e embaladores que estão ligados à grande distribuição, e ainda a indústria, assim como alguns associados mais institucionais.
O grande objetivo é organizar o setor da batata, representá-lo quer ao nível nacional, junto dos vários organismos do Ministério da Agricultura, e do Governo no seu todo, quer a nível internacional, para o que se associou a uma entidade europeia, a Europatat – European Potato Trade Association que é a associação mais representativa do setor da batata junto da União Europeia.
Outro objetivo importante é promover a batata. A nível externo a Porbatata tem participado com a Portugal Fresh nas feiras internacionais mas a nível nacional, até agora ainda não tinha sido realizada nenhuma ação propriamente dita, tendo lançado recentemente a campanha “estando agora em marcha a campanha ““Batata Portuguesa Nasce à Sua Porta”.
Igualmente importante é a vertente técnica do trabalho, dispondo para tal do conselho técnico e científico, composto por 15 técnicos que procuram gerar soluções para os problemas do setor, especialmente os problemas mais difíceis, como é o caso do Epitrix e agora mais recentemente a Tecia Solivanora, que está em Espanha e sobre a qual está a ser feito todo o esforço para que não chegue a Portugal. Por exemplo em relação ao Epitrix, que tem afetado muito na exportação, iniciámos um trabalho há cerca de um ano e recentemente conseguimos ter uma reunião onde juntámos a Porbatata, uma congénere espanhola, o Ministério da Agricultura português e o Ministério da Agricultura espanhol. A reunião conjunta aconteceu em Badajoz para definir uma estratégia comum de forma a conseguirmos mostrar à Europa que o Epitrix não é um problema assim tão grave. Já foi definido um protocolo de trabalho em Portugal entre a Porbatata, a DGAV e o INIAV que vão realizar um estudo científico, apoiado pelos congéneres espanhóis.

Que estratégia é essa?
De forma muito linear, é tentar demonstrar que o Epitrix é uma praga que existe no Sul da Europa, sendo que algumas das suas espécies até são autóctones, ou seja, sempre cá existiram. Ora, se essas pragas sempre cá estiveram ou já cá estão há tantos anos e nunca chegaram ao Norte da Europa, não deve ser assim tão preocupante. Vai demonstrar-se que as larvas não têm muita duração de vida e no Norte da Europa não existem condições para o seu desenvolvimento (…)
O objetivo final é mostrar à Europa que no futuro podemos continuar a exportar batatas, que à partida o Epitrix não será um problema.

A Tecia é mais preocupante?
Sim. O tema das jornadas técnicas do Festival da Batata da Lourinhã foi precisamente esse, onde foi apresentado o Plano de Contingência para o controlo da Tecia por parte da DGAV. Na Galiza já há uma parte do território em quarentena (não se pode cultivar batata) e se isso acontecesse em Portugal seria muito grave, por isso é preciso fazer tudo para evitar que venha para cá.

Falou há pouco na organização da fileira, um dos objetivos da Porbatata, como é que está a ser desenvolvido esse trabalho? Quais têm sido os principais entraves a essa organização?
É uma fileira muito complexa, muito antiga, muito dispersa. Em todo o lado há sempre alguém que produz, alguém que vende, transforma. No fundo é uma estrutura muito diversificada e dispersa, que nunca teve a capacidade de organizar-se. Sempre se conseguiu ir fazendo o trabalho, com mais ou menos dificuldade, mas o mundo está a mudar, assim como as exigências do mercado. Por exemplo alguns produtos químicos que eram usados para conservar a batata hoje são proibidos e nesse campo as regras serão cada vez mais apertadas.

Embora quem produza batata hoje consiga produtividades muito superiores, mesmo assim não tem sido possível compensar as perdas de áreas que tem havido ao longo dos últimos anos.

Depois, por outro lado, temos concorrentes muito fortes em batata, como Espanha e França, que têm crescido muito e têm conseguido criar batata de forma muito extensiva e a preços mais baixos, e têm “invadido” o nosso país. Isso tem tido consequências negativas para o setor, embora quem produza batata hoje consiga produtividades muito superiores, mesmo assim não tem sido possível compensar as perdas de áreas que tem havido ao longo dos últimos anos.
A Associação não tem objetivo de conseguir mudar tudo de uma vez. O nosso objetivo inicial quando formámos a associação era atingir cerca de 50 associados e já estamos muito perto disso. Praticamente todos associados coletivos, alguns deles com centenas de agricultores associados, o que já nos confere uma representatividade razoável, com associados desde Trás-os-Montes ao Algarve, Ilhas (…).

Presença na Agroglobal 2018 vai ser marcante para o setor

Depois do primeiro ano de “apresentação” agora começa a “mostrar trabalho” e este ano a Porbatata vai marcar uma forte presença na Agroglobal com um campo de ensaio de variedades com seis casas de semente associadas e com um conjunto de associados num espaço exclusivamente dedicado à batata. Perspetiva-se que seja um espaço de comunicação, diálogo (…) com uma manhã de debate sobre a temática da batata, nomeadamente batata para indústria.

Tocando nas variedades, como é que têm evoluído? Qual é a preferência do consumidor neste momento?
As casas de sementes estão a tentar encontrar cada vez mais variedades com resistências /tolerâncias às principais doenças e pragas. É essa a evolução da genética até porque as zonas produtoras de batata não são assim tantas no mundo e na Europa. Quanto mais plantamos mais problemas surgem e cada vez temos mais pragas e doenças de quarentena. A genética está sempre a trabalhar nisto de forma a tentar equilibrar os problemas.
Depois, é também o ir ao encontro daquilo que o consumo quer. Podemos produzir muito bem mas se não formos ao encontro do que o consumidor quer não vale muito a pena. Em Portugal também vamos ter de seguir um pouco o caminho do Norte da Europa onde se conhecem as variedades e quais as utilizações mais adequadas para cada uma.
A tendência é também a da batata já minimamente preparada, mas articulada com a aptidão de cada variedade. E os operadores que trabalham as variedades têm de as trabalhar bem.
Sentimos de alguma forma que o mercado da batata fresca está a ter dificuldades também porque está a ter muita concorrência, quer de legumes quer mais recentemente da batata-doce. Já a batata transformada ou semi-transformada está a crescer. Depois ainda há pequenos nichos, como o das batatas coloridas, de polpa firme (quer para assar quer para cozer).

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 217 (julho 2018)