Opinião

Ser jovem agricultor em 2018!

Marisa Costa Vice-presidente da Associação de Produtores de Leite de Portugal

“O que queres ser quando fores grande?” Esta pergunta é muito comum, principalmente quando os jovens concluem o ensino básico e têm que optar por uma área de formação que lhe permita depois, escolher uma profissão de que gostem. Há quem sonhe ser professor, advogado, médico ou jogador de futebol, mas é pouco frequente ouvirmos alguém dizer: -”Quero ser agricultor!” Isto faz-nos prever vários problemas no futuro, sendo o mais preocupante o facto de comermos todos os dias e não termos quem produza alimento.
A agricultura tem um papel muito importante pois, como sabemos, o setor primário serve de motor do setor secundário e terciário e gera emprego, quer de uma forma direta, quer indireta.
Além disso, os agricultores são os arquitetos da paisagem. Caso não fossem cultivados os campos seriam matagais onde se desenvolveriam cobras e outros seres vivos perigosos, os incêndios no Verão rapidamente destruiriam habitações, pois estas estariam rodeadas de mato e árvores. Olhemos para o impacto que a agricultura tem no turismo no Alto Douro Vinhateiro ou mesmo no arquipélago dos Açores.
Com o desenvolvimento e a globalização o agricultor profissionalizou-se e hoje não é só agricultor, é também empresário agrícola, com um vasto leque de conhecimentos para fazer face às exigências atuais. Investir na agricultura implica ter bastante dinheiro, ou antecedentes familiares com ligação à área porque pressupõe um grande investimento e, cada vez mais, os apoios PDR2020 em nada facilitam a instalação de novos jovens. O tempo de análise das candidaturas, os critérios de hierarquização que fazem com que haja regiões e setores de atividade que ficam de fora logo à partida, a alteração constante de critérios de concurso para concurso, uma vez que alguns projetos ao transitarem de um concurso para outro (por falta de verba) deixam de ser elegíveis e tiveram que ser reformulados são alguns dos obstáculos que os jovens agricultores enfrentam para se poderem instalar.

Embora estes obstáculos sejam comuns a vários setores foquemo-nos nos jovens produtores de leite
Um bom exemplo de paixão pelo setor são o Pedro e a Isabel. Um jovem casal, ela formada em medicina veterinária, ele em economia decidiram dedicar-se à produção de leite e dar continuidade ao negócio dos pais, mas andam há 3 anos para tentar realizar este sonho. Entre começar a tratar da documentação para fazer a primeira candidatura ao PDR2020 e o dia de hoje, já se passaram cerca de três anos. Em que fase estão? A aguardar o parecer da segunda e última tentativa ao PDR2020, cansados de tanto esperar, de tanto adiar algo que é urgente realizar. Com a vida em stand by, os pais continuam a ajudar e a ordenhar as vacas sacrificando-se fisicamente até que se saiba se há dotação financeira para a execução do novo estábulo: um hotel de 5 estrelas face ao estábulo atual. Na primeira candidatura o projeto foi aprovado, mas o envelope financeiro não foi suficiente para executar este projeto. Entre a esperança e o desânimo, continuam à espera como muitos jovens agricultores.
Infelizmente não caso único. O Ruben ponderou se submeteria um projeto de primeira instalação para a construção de uma nova vacaria (os últimos anos não têm sido fáceis para a produção de leite), e agora que decidiu avançar está na expectativa de abrirem ou não as candidaturas. Entretanto fez uma análise e verificou que nos últimos dez anos recebeu o leite a 33 cêntimos, longe dos 35 cêntimos necessários para produzir um litro de leite. Sabe que é urgente investir, mas também sabe que sem ajudas é um risco demasiado elevado que não está disposto a correr. Caso não crie melhores condições, perde competitividade e terá que optar por outro caminho.
Na mesma situação está a Maria, o António e o José que aguardam a abertura das novas candidaturas para criarem melhores condições para os seus animais. Entretanto, as boas notícias teimam em não chegar e sabe-se que está em discussão a nova PAC e prevê-se uma redução de cerca de 15% para o desenvolvimento rural em Portugal.

Todos estes factos fazem-nos questionar: A agricultura será mesmo fundamental para a economia portuguesa?

Para ler na íntegra na Voz do Campo 217 (julho 2018)