Agroalimentar Agrociência

Castanha, Folhas e Flores de Castanheiro

Aspetos Nutricionais, Propriedades Químicas e Potenciais Medicamentos Naturais

Márcio Carocho, João C.M. Barreira, Isabel C.F.R. Ferreira

A Castanha em Portugal e no Mundo

As castanhas são frutos secos consumidos em todo o mundo, sendo que a Europa representa 12% da produção mundial e, Portugal, apenas 3%. Ainda que a representatividade do nosso país seja baixa à escala mundial, internamente, na região de Trás-os-Montes, onde se produz 81% de toda a castanha nacional, o mercado de exportação representava cerca de 40 milhões de euros em 2015, verificando-se uma tendência de crescimento desde então. A castanha europeia é da espécie Castanea sativa Mill., uma das doze espécies que existem [1, 2].

Aspetos Nutricionais

Do ponto de vista nutricional, as castanhas são um alimento bastante saudável, sem glúten, fornecendo muitas vitaminas, e outros compostos bioativos. Os nutrientes mais abundantes são a água e o amido (que tem um melhor índice de assimilação do que, por exemplo, o da batata). A fibra é outro nutriente em quantidade apreciável, enquanto os valores proteicos e de gordura são baixos (2-4%). Esta gordura é, ainda assim, essencialmente composta por ácidos gordos insaturados, com propriedades benéficas para a saúde, nomeadamente o ácido oleico e linoleico. Nos açúcares simples, predomina a sacarose numa quantidade bastante superior à frutose e glucose, embora com perfis diferentes entre variedades [1, 3].

Compostos Bioativos e Bioatividades

Compostos bioativos podem ser definidos como compostos com uma atividade biológica específica, que pode representar um benefício fisiológico em diferentes organismos vivos. As castanhas, possuem bastantes compostos com potenciais efeitos benéficos. São uma fonte de vitamina E, essencial para a prevenção de várias doenças. Outros compostos como os ácidos orgânicos e os polifenóis, representam classes de compostos com bioatividade, em particular no combate contra o stresse oxidativo (aumento de radicais livres no nosso corpo em desequilíbrio com as defesas antioxidantes). Esse combate é conhecido como atividade antioxidante. Curiosamente, a atividade antioxidante da castanha é muito mais elevada nas cascas interna e externa do que na polpa, tradicionalmente consumida. As cascas, ainda que não sejam comestíveis, são, portanto, bastante interessantes sob o ponto de vista bioativo, daí que o seu consumo empírico em infusões, chás e preparados seja hoje corroborado pela ciência [4-7].

Aplicações na Indústria Alimentar

A indústria alimentar está constantemente a procurar produtos novos e mais saudáveis para o consumidor. Nesta linha de investigação, o grupo BioChemCore (esa.ipb.pt/biochemcore) do Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança, tem desenvolvido alguns alimentos onde algumas partes da castanha e do castanheiro são usados como fonte de bioativos, conservantes e ingredientes diferenciadores. Assim, um bolo tradicional de Trás-os-Montes, o económico, foi incorporado com flores de castanheiro de modo a conferir propriedades antioxidantes e melhorar o efeito do seu consumo na saúde. Por fim, também queijos de ovelha foram incorporados com extratos e flor desidratada de castanheiro, sob a perspetiva de conservar os queijos sem aditivos artificiais e para criar um novo produto lácteo com propriedades bioativas. Outra conclusão interessante foi a capacidade de maturação dos queijos com flor de castanheiro, que foi encurtada por ação da flor, reduzindo o tempo necessário para a maturação de um queijo amanteigado.

Conclusão

A castanha e as suas cascas, mas também a flor de castanheiro são matrizes de trabalho diversificadas para se fazer ciência aplicada, aproveitando subprodutos para enriquecer outros, criando novos alimentos mais saudáveis enquanto se potenciam produtos regionais que movem a economia. Assim, a próxima vez que comer uma castanha saberá que está a comer algo saudável, mas que a casca da castanha ou a flor que lhe deu origem pode estar nos ingredientes de um outro alimento [8, 9].

[1] – Instituto Nacional de Estatísticas, Estatísticas Agrícolas 2016.

[2] – Barreira, J.C.M., Casal, S., Ferreira, I.C.F.R., Oliveira, M.B.P.P., Pereira, J.A. (2009). Nutritional, fatty acid and triacylglycerol profiles of Castanea sativa Mill. Cultivars: A compositional and Chemometric approach. J. Agric. Food Chem., 57, 2836-2842.

[3] – Barreira, J.C.M., Casal, S., Ferreira, I.C.F.R., Peres, A.M., Pereira, J.A., Oliveira, M.B.P.P. (2012). Chemical characterization of Chestnut cultivars from three consecutive years: Chemometrics and contribution for authentication. Food Chem. Toxicol., 50, 2311-2317.

[4] – Barreira, J.C.M., Ferreira, I.C.F.R., Oliveira, M.B.P.P., Pereira. (2008). Antioxidant activities of the extracts from Chestnut flower, leaf, skins and fruit. Food Chem., 107, 1106-1113.

[5] – Carocho, M., Barros, L., Antonio, A.L., Barreira, J.C.M., Bento, A., Kaluska, I., Ferreira, I.C.F.R. (2013). Analysis of organic acids in electron beam irradiated chestnuts (Castanea sativa Mill.): Effects of radiation dose and storage time. Food Chem. Toxicol., 55, 348-352.

[6] – Carocho, M., Barros, L., Bento, A., Santos-Buelga, C., Morales, P., Ferreira, I.C.F.R. (2014). Castanea sativa Mill. Flowers amongst the most powerful antioxidant matrices: A phytochemical approach in decoctions and infusions. BioMed Res. Int., ID232956.

[7] – Carocho, M., Calhelha, R.C., Queiroz, M.R.P., Bento, A., Morales, P., Sokovic, M., Ferreira, I.C.F.R. (2014). Infusions and decoctions of Castanea sativa flowers as effective antitumor and antimicrobial matrices. Ind. Crops Prod., 62, 42-46.

[8] – Carocho, M., Barreira, J.C.M., Bento, A., Morales, P., Ferreira, I.C.F.R. (2014). Chestnut flowers as functionalizing agents to enhance the antioxidant properties of highly appreciated traditional pastry. Food Funct. 5, 2989-2995.

[9] – Carocho, M., Barreira, J.C.M., Bento, A., Fernández-Ruiz, V., Morales, P., Ferreira, I.C.F.R. (2016). Chestnut and lemon balm based ingredients as natural preserving agents of the nutritional profile in matured “Serra da Estrela” cheese. Food Chem. 204, 185-193.

*Centro de Investigação de Montanha (CIMO), Instituto Politécnico de Bragança

Publicado na Voz do Campo n.º 212 (fevereiro 2018)