Desenvolvimento Local

Pede-se mais agricultura para o Algarve

O Algarve está muito longe de ser apenas o chavão “sol e praia”, como ficou bem patente na recente conferência realizada no auditório do NERA – Associação Empresarial da Região do Algarve – na qual, durante um dia inteiro, vários empresários, docentes e investigadores universitários ligados ao setor, bem como vários quadros de organismos públicos estiveram reunidos para debater a agricultura da região, perante uma vasta plateia.

A Conferência: “Reforçar dinamismos e explorar oportunidades”, da responsabilidade de várias entidades locais, partiu da convicção que, sendo o turismo o principal setor económico da região, o Algarve não pode descurar outros setores que estão na base dos recursos que lhe são próprios e que no passado permitiram gerar muita riqueza.
Entre outras conclusões, no final desta jornada constatou-se que o Algarve tem recursos e potencialidades, tem experiência histórica nas áreas ligadas ao setor agrícola e está a dar provas reais dessa capacidade. De uma forma muito direta o presidente do NERA, Vitor Neto, faz a síntese com a frase: “O Algarve precisa de mais agricultura”.
Num rápido retrato do setor agrícola algarvio foi possível reter a partir da comunicação de João Guerreiro (Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve) que, ao analisar alguns dados estatísticos, no cenário nacional de aumento da idade média dos produtores agrícolas, no Algarve é onde essa média é mais elevada – 69 anos.
Já Maria de Belém Freitas, da Universidade do Algarve, explicou que em relação a Portugal Continental a região tem uma situação interessante do ponto de vista agrícola, particularmente devido às suas condições edofoclimáticas, mas a sua caracterização socioestrutural revela algumas fragilidades e a diversidade desta região agrária levanta alguns problemas.
No período entre os dois últimos recenseamentos agrícolas (1999 e 2009) assistiu-se a uma redução do número de explorações agrícolas tal como da Superfície Agrícola Útil, maioritariamente por responsabilidade das explorações agrícolas com menos de 5 ha (redução em 20 anos de mais de 50% da área ocupada por estas unidades produtivas), enquanto que as explorações com uma SAU superior a 20 ha sofreram uma redução da respetiva área bem mais moderada (cerca de 19%).
Sobre a forma como a agricultura do Algarve mudou, a docente recordou que em muitos casos, a horticultura foi substituída por novas produções (pequenos frutos vermelhos, etc.) com novas tecnologias, designadamente recorrendo a procedimentos desenvolvidos no âmbito do que hoje se designa por agricultura de precisão (ver o caso da MadreFruta na página 26).
Mesmo o pomar de sequeiro, mais à frente abordado também por José Graça, em tempos responsável por uma parcela significativa das exportações algarvias, hoje já não tem a importância de outras épocas, embora alguns dos seus componentes, designadamente a alfarrobeira e a oliveira, se mostrem muito dinâmicos. Já o pomar de citrinos que nos últimos anos ocupa uma área superior a 10 mil hectares, depois de em anos anteriores tem alcançado os 15 mil, mostra-se com produtividades e capacidade exportadora cada vez mais interessantes.
Assim, tendo em conta a diversidade da região, para Maria de Belém Freitas, seria fundamental pensá-la, do ponto de vista agronómico, de uma forma integrada, procurando soluções adequadas para os diferentes setores e os diferentes agricultores, aproveitando os dinamismos que existem, reforçando-os e procurando sinergias para explorar as oportunidades.

97% da produção de alfarroba está no Algarve

Falar de agricultura no Algarve também é falar de pomares e José Graça (Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve) abordou a vertente de sequeiro, nomeadamente de quatro culturas tradicionais: amendoeira, alfarrobeira, figueira e oliveira.
Começando pela alfarrobeira, das quatro é a que maior peso tem no Algarve, ainda assim é uma pequena cultura à escala nacional, apenas com expressão no Algarve. Existem cerca de 13 500 hectares de alfarrobeiras para uma produção média de 41 mil toneladas e 97% dessa produção está no Sul do país.
De acordo com o técnico, esta é uma cultura com escoamento assegurado, baixas necessidades de mão de obra, boa conservação do produto, elevado nível de industrialização do produto e com um mercado relativamente estável a longo prazo. Em termos de pontos fracos surge a baixa valorização da polpa e a debilidade da organização da produção.
Há oportunidades a ter em conta, como a possibilidade de expansão da cultura, existe uma associação interprofissional tal como a possibilidade de se encontrarem novos mercados. “A principal ameaça, e enquanto as polpas não forem valorizadas, é a elevada dependência do preço da alfarroba comparativamente com a saída das gomas de alfarroba”, sublinha.
A nível nacional a figueira apresenta uma área de 4400 hectares e uma produção de 2700 toneladas de produção, com o Algarve e representar 60% da área e 60% da produção.
No caso da amendoeira o Algarve já perde o lugar de destaque para a terra quente transmontana. Ou seja, no país encontram-se 28 mil hectares e 8 mil toneladas. O Algarve tem 7800 hectares, o que significa 10% da produção.
O olival é das quatro a que maior área tem à escala nacional, (348 mil hectares e 469 mil toneladas de azeitona) mas o Algarve apenas significa 1% dessa produção e 3% da área, o que não invalida que se produza azeite (ver caso Monterosa na página seguinte).
O Algarve não é todo igual e a evolução destas culturas também não, mas, em termos de futuro a evolução tenderá para culturas cada vez mais extremes, com propensão para o desaparecimento de pomares mistos. “Quando muito ficará no alto barrocal o pomar misto de alfarrobeiras e oliveiras, que são as árvores de maior longevidade”. José Graça acredita neste panorama porque as novas oportunidades de mercado assim o ditam.
Hoje em dia as fileiras de maior peso económico ligadas à floresta no Algarve (não considerando a alfarroba e o pinhão) são a cortiça, a madeira (trituração), o medronho, o mel e outros produtos apícolas), a caça e o (eco) turismo/paisagem, lazer e recreio, apesentou Maria de Belém Freitas, na sua comunicação. E, acrescenta também José Rosendo, que trabalhou na Autoridade Florestal Nacional, o turismo está a atrair também muitas pessoas que procuram novas soluções, e, como tal é necessária a criação de políticas sólidas e contínuas que combatam o atual desincentivo e desinteresse em relação à floresta.
Ou seja, existe um elevado potencial num projeto integrado – uma gestão ordenada do território, aproveitando recursos (incluindo mão de obra) até porque existem determinados condicionalismos, como pouca atratividade, população envelhecida, proprietários ausentes e incerteza dos apoios. Em suma “falta definir uma estratégia que junte a floresta, a agricultura e a pecuária e os outros setores paralelos como a apicultura por exemplo, numa gestão conjunta”.

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 218 (ago.set 2018)