Hortofruticultura

Para onde caminha a nossa fruticultura?

A fruticultura tem vindo a crescer nos últimos anos no nosso país, mas também no resto do mundo, em área, mas sobretudo em produção. O aumento da produtividade está relacionado com a sua modernização tecnológica, que é cada vez mais rápida e abrangente, chegando a praticamente todas as culturas frutícolas. Esta modernização vai em dois sentidos que não são necessariamente opostos, embora por vezes sejam entendidos como tal. Por um lado, há uma intensificação de muitas culturas, com compassos de plantação tendencialmente mais apertados, aumento do grau de mecanização e diminuição do período de vida dos pomares, com frequente renovação de cultivares. Este modelo é acompanhado de uma frequente aplicação de produtos fitossanitários e sistemas de fertirrega com aplicação diária de adubos. Porém, a intensificação pode fazer-se à custa de alguma(s) da(s) mudança(s) aqui referida(s), sem que as outras aconteçam. Por outro lado, a preocupação da sociedade com a qualidade e segurança dos alimentos e com a conservação do ambiente tem-se refletido na fruticultura europeia pela retirada dos produtos fitossanitários mais tóxicos e pelo estímulo a modos de produção mais sustentáveis, nomeadamente, a produção integrada e a agricultura biológica. Associada a esta tendência de aumento da sustentabilidade está a conservação e a valorização das variedades regionais de fruteiras e dos produtos a elas associados.
Tanto a intensificação da produção frutícola, como o desenvolvimento de modos mais sustentáveis de produção exigem cada vez mais um conhecimento científico profundo e um desenvolvimento tecnológico avançado. Em ambos os casos são necessários agrónomos altamente qualificados, que sejam capazes de aplicar o conhecimento científico, respeitando os princípios éticos e respondendo às preocupações da sociedade. Também ao nível dos operários agrícolas, as exigências são cada vez maiores, devido à complexidade das máquinas e equipamentos usados na produção e acondicionamento dos frutos e às exigências de certificação de produtos e processos. Portanto, também aqui são necessários trabalhadores mais qualificados. Em suma, a fruticultura é cada vez mais uma atividade para ser exercida por gente qualificada, desde o empresário até ao operário. A fruticultura baseada em mão de obra não qualificada e barata pode ser temporariamente lucrativa, mas não tem futuro.

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 219 (outubro 2018)

Amílcar Duarte
Centro para os Recursos Biológicos e Alimentos Mediterrânicos (MeditBio) /Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade do Algarve, Campus de Gambelas, 8005-139 Faro
Professor da licenciatura em Agronomia  e do mestrado em Hortofruticultura
aduarte@ualg.pt