Agrociência Agropecuária

Utilização de pastagem na alimentação de Vacas Holstein Friesian: efeito sobre a produção e composição do leite

Sandra Duarte Dias1, António Moitinho Rodrigues1,2 1 – Escola Superior Agrária – Instituto Politécnico de Castelo Branco, Qta da Sra Mércules, 6001-909 Castelo Branco. sandraduarte@ipcb.pt 2 – CERNAS – Centro de Estudos de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade (FCT UID/AMB/00681/2013) – Instituto Politécnico de Castelo Branco, 6000-084 Castelo Branco

Introdução
Os consumidores têm vindo a alterar os hábitos alimentares influenciados por valores ambientais e de bem-estar animal e pelo interesse em consumirem alimentos cada vez mais saudáveis e saborosos. Estas alterações requerem sistemas de produção que permitam a obtenção de produtos animais utilizando melhores e mais sustentáveis técnicas de produção.
O leite é considerado um alimento essencial. Contém numerosos nutrientes sendo um alimento completo, de elevado valor biológico e de grande polivalência alimentar (Haug et al., 2007). O leite e/ou produtos lácteos como o queijo e o iogurte são grandes fontes de proteína e de cálcio e devem fazer parte de uma dieta saudável e equilibrada. As proteínas do leite são ricas em aminoácidos essenciais e a gordura de leite contém mais de 30% de ácidos gordos monoinsaturados e polinsaturados (USDA, 2017).
A composição química do leite pode ser modificada através da alteração do regime alimentar da vaca. Os alimentos utilizados influenciam a síntese de ácidos gordos voláteis (AGV) no rúmen, ácidos acético, propiónico e butírico. A proporção molar destes AGV no rúmen vai influenciar depois, direta ou indiretamente, a capacidade das células epiteliais secretoras do úbere para sintetizar os constituintes sólidos do leite (proteínas, ácidos gordos e lactose). A fração lipídica do leite é a mais suscetível com variações na quantidade de gordura e na sua composição em ácidos gordos monoinsaturados, polinsaturados e conjugados do ácido linoleico (CLA) (Ryhänen et al., 2005).

Metodologia
O trabalho decorreu na Qta da Sr.ª de Mércules, propriedade da Escola Superior Agrária de Castelo Branco com 166 ha. Teve como objetivos avaliar o efeito que a substituição de um regime alimentar com base em silagem de milho por outro regime alimentar com base em pastagens de regadio teve sobre a produção e a composição do leite.
Foram escolhidas 6 vacas Holstein Friesian na mesma fase de produção e com diferentes números de lactação. A variação dos dois regime alimentares isoenergéticos (NRC, 2001) incidiu sobre: utilização de silagem de milho como alimento forrageiro base; utilização de pastagem de consociação gramíneas X leguminosas como alimento forrageiro base. Cada período de alimentação foi precedido por 7 dias de habituação ao novo regime alimentar. A produção de leite foi registada diariamente (n=168 por tratamento); ao sétimo dia do início de cada regime alimentar foram recolhidas amostras de leite por vaca (2 amostras por período de alimentação; n=24 por tratamento) para determinação da composição química do leite (teor em gordura, composição em ácidos gordos, teor em proteína, composição em aminoácidos e quantidade de ureia no leite).
O delineamento experimental foi uni-fatorial para estudar o efeito do regime alimentar com dois níveis (silagem de milho ou pastagem) sobre a quantidade e composição química do leite produzido. Utilizou-se o teste t-student para comparação dos valores médios.

Resultados

Tabela 1. Quantidade de leite produzido e composição química

Tabela 2. Composição em ácidos gordos da gordura do leite (% da gordura total)

Tabela 3. Presença de caseínas na proteína do leite (% da proteína total)

Na tabela 1 apresentam-se os resultados para a produção e composição do leite. Verifica-se que as vacas alimentadas com pastagem produziram significativamente mais leite, leite com mais ureia. No entanto, em termos de constituintes sólidos do leite não se observaram diferenças entre os teores em gordura e proteína.
Ao analisarmos a composição da gordura do leite (Tabela 2), verificamos que o leite das vacas alimentadas com pastagem apresenta significativamente maior quantidade de ácidos oleico (C18:1cis-9) e linoleico (C18:2cis-9,12), ácidos gordos mono e polinsaturados considerados hipocolesterémicos ou seja, que potenciam a redução do colesterol LDL (Teixeira, 2015).
Pelo contrário, verifica-se que a gordura do leite das vacas alimentadas com silagem de milho apresenta significativamente maior quantidade de ácidos gordos laurico (C12:0), mirístico (C14:0) e palmítico (C16:0) (Tabela 2), ácidos gordos saturados que são considerados hipercolesterémicos (Teixeira, 2015).
Relativamente à quantidade do CLA ácido ruménico (C18:2 cis-9,trans-11), verifica-se que o leite produzido pelas vacas alimentadas com pastagem de regadio apresenta valores de CLA significativamente maiores do que o leite produzido por vacas que consumiram silagem de milho (Tabela 2). Os CLA representam um grupo de isómeros geométricos e posicionais do ácido linoleico sendo o ácido ruménico o isómero mais abundante (85- 90%), biologicamente mais ativo (Teixeira, 2015) que parece exibir benefícios potenciais para a saúde humana nomeadamente efeito protetor de doenças cardiovasculares e de vários tipos de cancro.

Verificou-se que o leite das vacas alimentadas com pastagem de regadio continha maior quantidade de caseínas (Tabela 3) (Tabela 3). Como a quantidade total de caseínas presentes no leite está diretamente relacionada com a eficiência de transformação do leite em queijo, parece ser possível afirmar que o leite das vacas que ingeriram pastagem perspetiva maior rendimento queijeiro.

Conclusões
Concluiu-se que vacas em pastoreio produzem mais leite (10%) e leite com mais C18:1 cis9 (30%), C18:2 (n-6) (22%), CLA (36%), ácidos gordos considerados hipocolesterémicos.
Pelo contrário, a utilização de silagem de milho parece favorecer o aumento dos ácidos gordos de cadeia curta e média, ácidos gordos considerados hipercolesterémicos.

Referências Bibliográficas
Haug, A; Høstmark, AT; Harstad OM (2007). Bovine milk in human nutrition – a review. Lipids in Health and Disease, 6:25.
NRC (2001). Nutrient requirements of dairy cattle. National Research Council. Seventh Revised Edition. National Academy Press, Washington, D. C., USA.
Ryhänen, EL; Tallavaara, K; Griinari, JM; Jaakkola, S; Mantere-Alhonen, S; Shingfield, KJ (2005). Production of conjugated linoleic acid enriched milk and dairy products from cows receiving grass silage supplemented with a cereal-based concentrate containing rapeseed oil. International Dairy Journal, 15, 207:217.
Teixeira, JA (2015). Leite de pastagem, benefícios do consumo de leite de pastagem. Centro de Engenharia Biológica, Universidade do Minho, Braga.
USDA (2017). USDA National Nutrient Database for Standard Reference. (acesso em 18 abril 2017), https://ndb.nal.usda.gov/ndb/foods/show/70.

Comunicação apresentada sob a forma de poster nas XXXVIII Reunião de Primavera da SPPF, selecionado como Melhor Poster – prémio para o progresso dos pastos atribuído pela Sociedade Portuguesa de Pastagens e Forragens.

Publicado na Voz do Campo n.º 214 (abril 2018)