Agrociência

A importância das pastagens e forragens em Portugal: estado atual e perspetivas futuras

Figura 1

A Sociedade Portuguesa de Pastagens e Forragens (SPPF) foi fundada em 1979 e tem sede em Elvas, no INIAV-Polo de Elvas (Figura 1). Conta atualmente com cerca de 600 sócios ativos, entre técnicos do setor, investigadores, agricultores e estudantes. É uma associação pública sem fins lucrativos, reconhecida com utilidade pública, e que tem por objetivos: (a) intensificar o desenvolvimento e difusão da ciência e das técnicas de produção e utilização das pastagens e forragens para o progresso da agricultura e benefício público; (b) apoiar e estimular, entre investigadores, técnicos e agricultores, iniciativas tendentes à divulgação e intercâmbio de informação de carácter científico e técnico dentro de um contexto de entreajuda e aperfeiçoamento no domínio das pastagens e forragens. Para atingir estes objetivos organiza anualmente duas reuniões, uma Reunião de Primavera, de caráter técnico-científico e com duração de 2-3 dias (Figura 2), e uma Reunião de Outono, de caráter mais técnico e de 1 só dia (Figura 3). Nestes eventos promove a difusão entre os participantes dos mais recentes avanços no domínio das pastagens e forragens e facilita o contacto e o estabelecimento de parcerias entre os interessados nestas temáticas. A cada 10 anos, realiza uma Reunião Ibérica em parceria com a sua congénere espanhola, a Sociedad Española de Pastos (SEP). Para difusão do conhecimento sobre pastagens e forragens publica a revista “Pastagens e Forragens”, dá apoio a iniciativas locais de sócios, mantém uma página na internet (www.sppf.pt) e posiciona-se como interlocutor especializado junto das entidades oficiais e nos mais diversos fóruns onde se abordam estas temáticas, o ambiente e o mundo rural.

Figura 2 – XXXVIII Reunião de Primavera (Castelo Branco) Sessão de abertura

Figura 3 – XXXVIII Reunião de Outono (Odemira) visita técnica

As pastagens e forragens em Portugal
Os prados e pastagens permanentes (pobres e melhoradas) ocupavam em 2016 uma superfície de 1,92 milhões de hectares, o que correspondia a cerca de 52% da Superfície Agrícola Utilizada (SAU). A sua importância na ocupação cultural tem vindo a aumentar nas últimas décadas, tendo-se registado um aumento de 6% desde 2009, data do último Recenseamento Agrícola, que por sua vez já registava um aumento de 27% em comparação com o do ano de 1999. Predominam os prados e pastagens permanentes em terra limpa (55% do total) sobre as que estão sob coberto de matas e florestas (41%) e as que estão sob coberto de culturas permanentes (3%) ou as que são não produtivas em regime de RPU (1%). O Alentejo é a região com maior área de prados e pastagens permanentes, com cerca de 66% do total nacional (1,27 milhões de ha) e os Açores são a região com maior ocupação da SAU pelos prados e pastagens permanentes (80% da SAU) (Quadro 1). Em todo o país, à exceção dos Açores, predominam as pastagens pobres – ou seja pastagens naturais/espontâneas não adubadas nem semeadas – representando, em média, 73% da superfície total dos prados e pastagens permanentes. Nos Açores, o peso das pastagens pobres não chega aos 10%, correspondendo os restantes 90% a prados semeados ou pastagens naturais melhoradas (por fertilização ou introdução de espécies melhoradas/selecionadas).

Quadro 1 – Superfície de prados e pastagens permanentes (em ha) no ano de 2016 – fonte INE

Os prados temporários e culturas forrageiras ocupavam, em 2016, 523 346 hectares, dos quais 423 670 ha correspondiam a culturas forrageiras, maioritariamente aveia forrageira e milho forrageiro, e apenas 99 676 ha correspondiam a prados temporários. Comparando estes valores com os de 2009, verifica-se que os prados temporários e culturas forrageiras ocupavam uma área superior em mais de cerca de 30 000 ha (494 364 ha). O Alentejo é a região com maior área de prados temporários (56% do total nacional) e de culturas forrageiras (37% do total). Segue-lhe em importância, a região de Entre Douro e Minho, com 10% dos prados temporários e 19% das culturas forrageiras (Quadro 2).

Quadro 2 – Superfície dos prados e das culturas forrageiras (em ha) no ano de 2016

Somando a superfície de prados e pastagens permanentes com a das pastagens temporárias e das culturas forrageiras obtém-se um valor de 2 451 329 hectares (67% da SAU) dedicados à alimentação animal, ou seja, 2/3 do território português está ocupado por estas culturas agrícolas. Apesar da importância atual e do aumento da área registado nas últimas décadas, fruto da alteração das políticas agrícolas que levaram a uma diminuição das superfícies das culturas arvenses, em particular dos cereais, e a um aumento do efetivo animal em pastagens, nomeadamente do número de bovinos em regime extensivo, não ocorreu o impacto positivo esperado no incremento da produção pecuária, por diversas razões. Por um lado, porque a área de pastagens permanentes que aumentou foi sobretudo de pastagens pobres, cujo potencial produtivo é incomparavelmente menor que o de um prado semeado/melhorado (400 UF/ha contra 2000 UF/ha, em média), e por outro lado, porque as misturas pratenses usadas nos prados (permanentes e temporários) ou as misturas forrageiras usadas não foram as melhores por falta de informação ou de experimentação. Falta portanto trabalho de investigação e experimentação para apurar as melhores variedades e misturas para cada combinação edafoclimática. Faltam também estudos sobre a resposta aos fatores de produção (fertilização, rega, etc.) e sobre o maneio, para poder aconselhar os produtores pecuários e elaborar manuais de boas práticas, que possam servir de guias para um bom aproveitamento destas produções pelos animais.

Contributo das pastagens e forragens para a mitigação das alterações climáticas
É cada vez mais frequente o reconhecimento da importância do papel das superfícies ocupadas por prados, pastagens permanentes e pastagens temporárias na mitigação das alterações climáticas, não só na captação e fixação de grandes quantidades de C02 nos solos não mobilizados ocupados por estas culturas, como também na redução das quantidades de alimento produzidos sob a forma de forragens semeadas localmente ou produzidas e transportadas de locais distantes, que obrigam a emissões de gases com efeito de estufa (GEE) nos processos da sua produção e transporte. Importantes evidências científicas, neste sentido, foram produzidas através de trabalhos de investigação de acompanhamento do projeto Terraprima “Pastagens semeadas biodiversas” (Figura 4).

Figura 4 – Mistura biodiversa para pastagem

Atualmente, a SPPF está envolvida numa parceria com a Fromageries BEL Portugal, S.A. e outros parceiros, num projeto de pastagens biodiversas sustentáveis a implementar na ilha de São Miguel, nos Açores, onde através do incremento das espécies leguminosas nas misturas a usar, em substituição das tradicionais pastagens permanentes de azevém, se pretende reduzir o uso de adubos azotados e o seu impacto ambiental, aumentar a produção de biomassa e a fertilidade do solo e contribuir para um aumento do volume e da qualidade da produção leiteira. Simultaneamente espera-se reduzir os custos de produção e o consumo de alimentos concentrados e de matérias-primas necessárias para o seu fabrico. Reduz-se ainda a produção de GEE resultantes dos processos de fabrico e transporte de alimentos compostos e de fertilizantes provenientes do continente. Até certa medida, este projeto enquadra-se numa lógica de Economia Circular, com o correspondente impacto positivo nas alterações climáticas.

Reunião de Primavera em Ponte de Lima
Em 2018, a Reunião de Primavera da SPPF, irá decorrer nos dias 3 e 4 de Maio em Ponte de Lima. Organizada em parceria com a Escola Superior Agrária de Ponte de Lima (Instituto Politécnico de Viana do Castelo) e a Sociedade Portuguesa de Recursos Genéticos Animais (SPEGA) e irá ter como tema central as “Forragens e pastagens no noroeste atlântico”. Este evento irá debruçar-se sobre os sistemas forrageiros e pratenses próprios do litoral norte (e centro) do nosso país, onde predominam a produção de forragens e a bovinicultura leiteira, sem descurar aspetos ligados aos prados e pastagens permanentes e aos bovinos, ovinos e caprinos de carne, com será ilustrado em duas visitas técnicas a efetuar a explorações pecuárias da região. Entre os oradores convidados estão diversos investigadores e técnicos especialistas nas diferentes variantes desta temática central. Estarão também presentes alguns investigadores galegos que trarão a experiência dos sistemas pecuários da Galiza baseados em pastagens e forragens, que apresentam grandes semelhanças com os do noroeste atlântico português.

Em conclusão
O contributo das pastagens e forragens para a agricultura portuguesa não tem sido devidamente reconhecido nem aproveitado. São 2/3 da área agrícola que estão ocupados por estas culturas que são o suporte da produção animal (especialmente ruminantes) mais barata e de qualidade. Falta a definição de estratégias nacionais que permitam incentivar o uso de espécies e misturas mais produtivas, mais resilientes e persistentes, e falta melhorar o maneio das pastagens instaladas (sementeira, adubação, correção mineral, maneio animal, etc.). As ajudas diretas (produção integrada, modo de produção biológico, greening, etc.) não são suficientes nem adequadas para promover a melhoria da produção e do impacto das culturas forrageiras e pratenses. É necessário mais investigação e experimentação, sobre as espécies, as variedades, as misturas, as técnicas culturais e o maneio das pastagens e dos animais, para poder aumentar a eficiência do uso destes alimentos, a sua qualidade, reduzir custos, melhorar o desempenho animal e sobretudo o aumento do efetivo animal/carga animal para melhor valorizar os prados e as pastagens naturais (Figura 5). O papel da SPPF, no futuro próximo, será continuar a pugnar para o reconhecimento do importante papel que as pastagens e as forragens podem desempenhar na produção animal nacional e na necessidade de articular esforços para produzir e difundir mais conhecimento sobre a produção pratense e forrageira como garante de produções animais mais baratas, de maior qualidade e mais sustentáveis.

Francisco Mondragão Rodrigues
Presidente da Sociedade Portuguesa de Pastagens e Forragens
Professor-coordenador da Escola Superior Agrária de Elvas

Publicado na Voz do Campo n.º 214 (abril 2018)