Grande Entrevista

António Parreira, presidente da Associação de Beneficiários do Roxo

“A nossa filosofia base é que o agricultor tenha rendimento”

Antes de ser presidente da Associação de Beneficiários do Roxo António Parreira já era agricultor. Conheceu a par e passo a evolução do regadio português, particularmente o Aproveitamento Hidroagrícola do Roxo que celebra este ano o 50.º aniversário.
António Parreira continua a ser agricultor e com os seus semelhantes partilha muitas preocupações que vão estar em cima na mesa nas XI Jornadas do Regadio que a Fenareg realiza anualmente e este ano vão acontecer em Aljustrel associadas às comemorações do cinquentenário do Aproveitamento.
Nos dias 15 e 16 de novembro vai debater-se a gestão dos perímetros de rega, preço da água, rendimento das culturas mas também o que vai ser o regadio no futuro, as grandes preocupações quer dos agricultores que formam a Associação de Beneficiários do Roxo quer de todos os outros regantes a nível nacional.

Qual o primeiro sentimento que tem quando pensa nos 50 anos do Aproveitamento Hidroagrícola do Roxo?
Estes marco releva o trabalho feito durante este período e é possível ver que houve uma grande evolução desde o início dessa atividade até aos dias de hoje, a par também do que foi a própria evolução do país.
Encaro estes 50 anos com uma grande responsabilidade e vejo como muito positivo o trabalho realizado, o que nos projeta para um trabalho ainda mais responsável nos próximos anos para os quais existem grande projetos.

Falando da Associação de Beneficiários do Roxo, quais os principais marcos desde a sua fundação?
O primeiro grande marco foi logo depois da construção da barragem, em 1968, quando um problema no paredão obrigou ao seu esvaziamento e reparação (1974). Foi um marco importante para todos porque reforçou-se a segurança da barragem.
Merece destaque também quando se deu a ligação entre Alqueva e o Roxo, em 2010 e mais tarde, em 2016 quando a água de Alqueva chegou pela primeira vez ao Roxo. O próximo marco é o da regulação da entrada de água em Alqueva, porque vai encarecer o preço da água junto dos agricultores. É preciso conjugar todos os fatores para apresentar ao agricultor um preço de água compatível com os seus rendimentos e com as suas culturas.

Com 50 anos de atividade, em que estado se encontra o perímetro em termos de infraestruturas (…)?
Tem havido três grandes preocupações: conservar o perímetro, modernizá-lo e por fim tentar fazer uma gestão muito criteriosa da água.
Dentro destas considerações podemos dizer que temos um perímetro que foi bem conservado, que está a ser modernizado (só de 2010 até agora já foram investidos cerca de 28 milhões de euros, embora houvesse projetos aprovados para muito mais mas que por falta de verbas não puderam ser executados ) e há projeção para que no futuro mais venha a ser feito nesse sentido.

Com quantos hectares conta o perímetro?
Em números redondos, quando se iniciou tinha cerca de cinco mil hectares e hoje são cerca de oito mil, crescimento fruto da ligação a Alqueva que permitiu a construção do Bloco de Rega de Aljustrel. Também pelo facto de termos água de Alqueva hoje é possível satisfazer as necessidades de água dos agricultores, quando no passado a Barragem do Roxo tinha problemas de água, muitas vezes insuficiente para as necessidades da agricultura.

Como se caracterizam os agricultores/ regantes?
Na área de influência da associação existe uma zona de pequena propriedade e que até é bastante significativa que coexiste com outra com parcelas ligeiramente maiores, sem que haja muita grande propriedade.
É a pequena propriedade que tem mais dificuldades em “sobreviver” num mundo tão competitivo porque logo à partida fica limitada em termos do investimento necessário para ser rentável. E é precisamente aqui que a Associação tem centrado alguns dos seus esforços.
Falando do tecido empresarial, existem as grandes multinacionais instaladas com olival, amendoal, fruticultura (…) até ao pequeno agricultor que tem uma pequena parcela de dois ou três hectares.

Em termos das culturas o que é que pode ser destacado?
O que é que no passado seria impensável produzir-se e hoje se faz?
A cultura principal, que projetou toda a região, e foi muito importante do ponto de vista social e económico, foi a cultura do tomate que permitiu mesmo a instalação da indústria na região. Essa cultura sofreu um grande revés e se chegaram a ser produzidos na ordem dos dois mil hectares, nesta última campanha não foram mais de 40.

Para ler na íntegra na Voz do Campo n.º 220 (novembro 2018)