Grande Entrevista Hortofruticultura

Rui Maia de Sousa: Coordenador da Estação Nacional de Fruticultura Vieira de Natividade

“Não concebo que o investigador não tenha contacto direto com o produtor”

A Estação Nacional de Fruticultura Vieira de Natividade teve origem no Centro Nacional de Estudos e de Fomento da Fruticultura que foi criado por despacho em 1962, inaugurado em 1968 e que passou a Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade já em 1982, sendo-lhe atribuído o nome como reconhecimento dos incontestáveis e notáveis serviços de Joaquim Vieira de Natividade à fruticultura nacional.
A Estação assinalou o seu cinquentenário em 2018 e hoje é um dos vários Pólos de Atividade do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) que com as suas infraestruturas, que incluem cerca de 20 hectares de pomares, tem tido um papel fundamental na fruticultura que se faz no nosso país.
Rui Maia de Sousa é o Coordenador deste Pólo de Atividade desde 2008, tendo ocupado vários cargos desde que ali iniciou a sua atividade profissional em 1986. Conheceu o período áureo da Estação, quando contava com 40 funcionários, e o período menos bom quando era o único técnico superior ao serviço. Nunca deixou de acreditar na fruticultura nacional nem na importância que a investigação tem para o seu sucesso e sempre com uma ligação direta à produção. Aliás, nem sequer concebe que o investigador não tenha contacto direto com o produtor, assumindo que tem de ter duas linhas de trabalho: uma que lhe permite progredir na carreira e outra investigação aplicada para o agricultor poder utilizar Mas a produção também tem de manifestar aquilo que precisa para que depois a investigação possa dar resposta.
Nesta entrevista não pôde ficar de fora o próprio Professor Joaquim Vieira de Natividade, que foi quem deu o grande contributo para a modernização da fruticultura, e todos os técnicos, investigadores e restantes funcionários que ao longo destes 50 anos trabalharam em prol do mesmo.

Comecemos pelos 50 anos da Estação Nacional de Fruticultura. Qual é o sentimento?
É um marco para a fruticultura nacional e não podemos falar dela sem referir o Professor Joaquim Vieira de Natividade, que foi quem a modernizou dentro do II Plano de Fomento – Empreendimento Frutícola, que decorreu de 1959 a 1964. Com esse Plano de Fomento houve uma mudança completa da nossa fruticultura, pois começaram a plantar-se pomares extremes, em vez de pomares consociados, passaram a utilizar-se porta-enxertos mais ananicantes (para que as árvores fiquem mais pequenas), novas variedades (…). Houve uma grande preocupação do Professor em fazer experimentação e investigação e divulgar esse conhecimento, tal como também entrou na própria comercialização pois foi quem fundou a Estação Fruteira Vieira de Natividade, que atualmente tem o nome de Cooperfrutas.
Conseguiu ajudar as pessoas a produzir, selecionar o solos para fazer os pomares, aconselhava as variedades e porta-enxertos e além disso possibilitava a comercialização através da concentração da produção nessa central fruteira.

“Não podemos ter fruticultura sem experimentação
e investigação”

Olhando para trás, como vê esta obra?
Olhando para trás vê-se que foi uma obra a pensar no futuro e grande parte das publicações do Professor ainda hoje se mantêm atuais. O próprio edifício, embora tenha sofrido algumas remodelações, já de génese foi pensado para a investigação em várias vertentes: solos, sanidade, variedades, conservação (…). Em suma, foi fundamental para a fruticultura se tornar mais rentável e promissora.

E hoje, o que é a Estação?
A Estação teve um período menos bom de 1999 a 2013. Em 1986 quando vim para a Estação havia 40 funcionários, entretanto as pessoas foram saindo por várias razões, sem que esses lugares tenham sido ocupados por outros profissionais. Só a partir de 2013 é que começou a verificar-se uma inversão, com a atual direção do INIAV a perceber que a fruticultura era fundamental para o país e como tal desenvolveu um processo de entrada de novos investigadores. Em setembro de 2016 entraram três investigadores, um para a área das pomóideas, outro para as prunóideas e frutos secos e outro para a área da conservação e pós-colheita, o que obviamente deu uma nova dinâmica à Estação.
Com esses investigadores é possível concorrer a mais projetos, que por sua vez permitem contratar bolseiros. Ou seja, além dos três investigadores temos também três bolseiros e uma técnica superior que vieram juntar-se a um corpo técnico que contava apenas com um técnico superior.
Entretanto os laboratórios também entraram em processo de remodelação e o próprio edifício foi alvo de intervenções.
Agora já é possível dar cumprimento às prioridades estabelecidas (em 2017) com a produção para os próximos 10 anos para que a fruticultura pudesse progredir.

Quais são essas prioridades/medidas?
Algumas passam pelo tema tão atual que é as alterações climáticas. É uma realidade que temos de selecionar variedades e porta-enxertos que sejam menos exigentes em termos de frio durante o inverno (porque vamos ter cada vez menos frio durante o inverno) e em contrapartida precisamos de variedades que sejam mais tolerantes ao calor, porque no futuro haverá cada vez mais picos de calor e mais fenómenos extremos. Para contornar essa situação, ou há adaptação por parte das variedades ou se encontram formas técnicas de proteger as árvores. Uma das técnicas é a utilização de redes protetoras (redes de ensombramento), ou mesmo a utilização de produtos que permitam refletir a luz do solo (não aqueçam tanto). Outra linha tem a ver com as pragas e doenças que vão surgindo, consequência dessas alterações. O clima está a modificar-se e algumas pragas e doenças que não eram problema passaram a sê-lo.
Também devido à necessidade de proteger o ambiente os produtos fitossanitários são cada vez mais específicos, fazendo com que algumas pragas e doenças, que não eram problema, passassem a ser devido aos produtos serem mais seletivos.
A estenfiliose, que é um problema grave das pereiras, principalmente na pereira Rocha, tem sido igualmente alvo de interesse, tendo mesmo sido criado pelo Secretário de Estado da Agricultura e Alimentação um grupo de trabalho liderado pelo INIAV – Estação.

Para ler na íntegra na Voz do Campo nº.222 (janeiro 2019)