Agrociência Vinha & Vinho

Os acidentes fisiológicos ligados à nutrição da vinha

Introdução

Em viticultura, podem aparecer, com alguma frequência, os três acidentes fisiológicos, que vamos descrever, cuja origem por vezes desconhecida, podem afectar a produção. São eles o desavinho, a bagoinha e a dessecação do engaço.
O desavinho, para o viticultor, representa um grave prejuízo, sempre a ter em consideração.
As causas que podem originar este acidente fisiológico são diversas, podendo ser classificadas da seguinte maneira:
. Causas genéticas;
. Causas fisiológicas;
. Causas climáticas;
. Causas patológicas;
. E outras.
A bagoinha quando está presente nas nossas vinhas, afecta seriamente o rendimento das mesmas, resultante da diminuição do peso da colheita.
As causas podem ser diversas, desde aquelas ligadas à natureza da casta ou do clone até ao fraco poder germinativo do pólen.
Todos os factores que prejudicam a fertilidade do pólen, como sejam as temperaturas baixas, a chuva durante a floração e a fecundação, impedem a sua germinação e dificultam a queda das caliptras florais.
A dessecação do engaço é aquela que não tem só reflexos a nível da quantidade da produção, mas também a nível da qualidade da uva, com a diminuição de açucar, de antocianas e azoto total.
Este acidente fisiológico, resulta de uma competição hídrica entre a parte foliar e os cachos, sendo estes mais sensíveis do que aquelas.
As carências de magnésio e de cálcio contribuem para o agravamento desta situação e que podem ser atenuantes deste acidente, pela aplicação foliar dos mesmos..
Nesse sentido, vamos descrever neste artigo, a sintomatologia destes acidentes fisiológicos, as suas causas e o modo de tratamento dos mesmos.

O desavinho e a Bagoinha na Vinha
Desavinho

O DESAVINHO é um acidente fisiológico resultante da ausência de fecundação das flores e sua consequente queda.
Nas vinhas plantadas o desavinho aparece nas duas situações seguintes:
. Anos em que o período da floração é pouco soalheiro, frio e eventualmente chuvoso.
. Anos em que as temperaturas são elevadas.
. No 1º caso, um tempo frio e pouco soalheiro vai conduzir a uma diminuição ou um bloqueio da fotossíntese (menor produção de açucares).
. No 2º caso, um tempo quente vai conduzir a uma grande libertação de azoto no solo, o que se traduz num vigor excessivo.
O crescimento dos ramos é favorecido em detrimento dos cachos.
O combate contra o desavinho pode ser encarado de duas formas:
Reduzir o consumo das folhas fornecendo um adubo rico em fósforo, para responder à necessidade celular, quando esta é mais intensa:
· Melhorando a qualidade da floração;
· E activando e potenciando a qualidade do pólen.
E estimular a fotossíntese, fornecendo por via foliar factores de crescimento:
· As hormonas naturais, que favorecem a fecundação (auxinas e citoquininas).
· Os ácidos aminados, que são a fonte de azoto, directamente assimilados pelas folhas. Eles são úteis para a fotossíntese.
· O Boro, que é indispensável para o pólen, favorecendo o alongamento do tubo polínico e melhorando então a fecundação.
. O Zinco, o cofactor na auxina de crescimento, indispensável para a divisão celular na alimpa.

Causas internas:
. Falta de reservas acumuladas no ano anterior;
. Vigor (muita massa foliar em relação às raízes).

Causas externas (climatologia):
. Húmida: tal conduz a um enfraquecimento da fotossíntese;
. Quente: excesso de mineralização do N, o que conduz a um desequilíbrio da relação Azoto/ Fósforo (vigor).

Bagoinha

A BAGOINHA é um acidente fisiológico caracterizado pela presença de pequenos bagos, misturados com bagos normais.

Principais factores:
. Anatómicos (de carácter genético);
. Patológicos (doenças e vírus);
. Climáticos (temperatura e humidade);
. Nutricionais (carências de Boro e Zinco)

Vinha com carência de Boro

Por último é de salientar o papel das poliaminas, como reguladores de crescimento vegetal, no momento da Floração-Vingamento, que permitem uma melhor alimentação da flor e um vingamento mais homogéneo e, consequentemente, menos desavinho e bagoinha. De referir algumas soluções comerciais à base de algas existentes no mercado, utilizadas em adubação foliar, que têm um efeito favorável na fecundação e no crescimento dos bagos, estimulando a biossíntese das poliaminas pelos bagos.

A Dessecação do Engaço na Vinha

A Dessecação do engaço é um acidente fisiológico resultante de uma concorrência hídrica entre a área foliar e os cachos, que termina numa desidratação dos tecidos.
Esta anomalia está ligada aos factores que aumentam a transpiração ou diminuem a circulação da agua na planta e os desequilíbrios nutritivos em potássio, cálcio e magnésio, que favorecem o aparecimento deste acidente fisiológico.

Sintomatologia:
Os sintomas surgem a partir da metade do pintor:
· Nos pedúnculos e ramificações do engaço formam-se depressões fundas e acastanhadas;
· O engaço escurece e seca, os bagos ficam engelhados, sem secar completamente, nem apodrecer.

Dessecaçao do engaço (Foto Sandoz)

Carência de magnésio

Nota: as vinhas atingidas com a dessecação do engaço, apresentam por vezes teores de Magnésio baixos nas folhas e umas relações K / Ca + Mg, K / Ca e K / Mg nos cachos, mais elevadas.

As principais condições de aparecimento da dessecação do engaço:
. Vinhas muito vigorosas (exemplo: adubações abundantes e desiquilibradas, especialmente a nível do Azoto e do Potássio);
. Tipo de solo: mais frequente nos solos ligeiros;
. Condições climáticas: as chuvas abundantes durante o pintor, seguidas de um período seco e quente;
. As carências de Boro e Manganês, que aumentam a transpiração, potenciam o aparecimento desta fisiopatia.

Nota: as vinhas atingidas com a dessecação do engaço, apresentam por vezes teores de Magnésio baixos nas folhas e umas relações K / Ca + Mg, K / Ca e K / Mg nos cachos, mais elevadas.

As principais condições de aparecimento da dessecação do engaço:
. Vinhas muito vigorosas (exemplo: adubações abundantes e desiquilibradas, especialmente a nível do Azoto e do Potássio);
. Tipo de solo: mais frequente nos solos ligeiros;
. Condições climáticas: as chuvas abundantes durante o pintor, seguidas de um período seco e quente;
. As carências de Boro e Manganês, que aumentam a transpiração, potenciam o aparecimento desta fisiopatia.

Causas:
As causas da dessecação do engaço são várias:

Consequências:
A dessecação do engaço tem consequências graves a nível da quantidade e da qualidade da produção:

Tratamentos:
Preventivos:
. Diminuir o vigor da vinha;
. Controlar a adubação potássica ao nível das necessidades da vinha;
. Prevenir as carências de Magnésio e Cálcio na vinha.

Curativos:
Pulverizações dirigidas aos cachos, ao inicio do pintor, com sulfato de magnésio com 16% de MgO, em 2 aplicações:
. O 1º tratamento no inicio do pintor em concentrações de 5% consideradas suficientemente eficazes (Ilda Melo, 1979);
. e o segundo 10 dias depois, nas mesmas concentrações.

O Sulfato de Magnésio poderá ser substituído por especialidades comerciais com cálcio e magnésio, nas doses recomendadas pelo fabricante.

Efeito da pulverização de sulfato de magnésio na dessecação do engaço (Delas, Dumartin, Molot e Boniface, 1976) – Fonte: Fertilisation de la vigne – Jacques Delas

 

Bibliografia consultada:
DELAS, Jacques (2000) “Fertilisation de la Vigne”
GUERRA, António Pedro Tavares – Algumas considerações sobre a Fertilização das culturas arbóreas, D.R.A.E.D.M., 1986
MAGALHÃES, Nuno (2008) “Tratado de Viticultura”
MELO, Ilda F.S. (1979) “Microelementos – Sua acção na Videira”

Um artigo de: António Pedro Tavares Guerra
Engenheiro Técnico Agrário
Licenciado em Engenharia Agro-Pecuária
Formador e Consultor Técnico em Nutrição Vegetal
*Escrito ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico

Publicado na Voz do Campo n.º 256 (maio 2019)