Agroalimentar Agrociência

A utilização de subprodutos vitivinícolas para a produção de cogumelos

Contributos para a economia circular

1. Enquadramento e objetivos
Face aos atuais desafios sociais, económicos e ambientais à escala global, relacionados com o crescimento demográfico, escassez de recursos e alterações climáticas, reconhece-me na transição para a economia circular um papel chave para a dissociação do crescimento económico do aumento do consumo de recursos e uma importância crescente para a sustentabilidade das organizações e territórios. O Plano de Ação para a Economia Circular (PAEC), aprovado pela Resolução do Concelho de Ministros n.º 190-A/2017, define um modelo estratégico de crescimento e de investimento assente na eficiência e valorização dos recursos e na minimização dos impactes ambientais no alinhamento com diversos compromissos, planos e estratégias nacionais e internacionais, nomeadamente o Acordo de Paris e a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
O setor vitivinícola tem vindo a ganhar importância económica e social a nível nacional e global, com uma evolução positiva na produção e comercialização de vinho. Dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho reportam uma produção global de vinho em 2016 de 266 milhões de hectolitros (6 milhões em Portugal), estimando para 2018 o aumento da produção global para 279 milhões de hectolitros. A produção de uva e a vinificação geram volumes elevados de resíduos orgânicos, nomeadamente podas de videira, engaço, películas e grainha, associados a problemas ambientais, ecológicos e económicos que diminuem a competitividade do setor (OIV, 2018a,b). A adoção de estratégias de valorização destes resíduos, assentes em técnicas e tecnologias para uma efetiva segregação e transformação em produtos de valor acrescentado, promovendo a circularidade do setor, tem vindo a assumir um interesse crescente pelo contributo à sua sustentabilidade.
O desenvolvimento de substratos para a produção de cogumelos a partir de subprodutos vitivinícolas pode ser uma opção de valorização para as empresas do setor, com exemplos de vários casos de sucesso em grande escala em países produtores de vinho e com aposta no enoturismo como a França e a Austrália. O valor do mercado global de cogumelos edíveis em 2018 foi avaliado em cerca de 37 mil milhões de euros. Além da aplicação no setor alimentar, os cogumelos também têm potencial de aplicação biotecnológica e farmacêutica. Pelo menos 350 espécies são usadas na alimentação, mas a maioria destas não pode ser cultivada devido à complexidade nutricional e dependência de relações simbióticas com plantas (e.g. micorrizas) que dificulta a produção à escala industrial. De facto, 85 % dos cogumelos comercializados pertence apenas aos géneros Lentinula, Pleurotus, Auricularia, Agaricus e Flammulina (Prescott et al., 2018). Os fungos saprófitos, que decompõem matéria orgânica morta desempenhando um papel importante no ciclo do carbono, têm capacidade de decompor praticamente qualquer material orgânico, nomeadamente resíduos agroindustriais.
O presente trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto WAW – Waste Around the World, promovido pela AMOG – AMOG – Associação para a Melhoria da Organização e Gestão em co-promoção com o Instituto Politécnico de Viana do Castelo e com a parceria de doze empresas Portuguesas do setor vitivinícola. O projeto teve por objetivo estratégico a introdução do conceito de economia circular nas empresas do setor vitivinícola visando contribuir para o desenvolvimento de processos, técnicas, tecnologias e produtos inovadores e sustentáveis baseados na valorização de resíduos em processos de produção primários, nomeadamente o desenvolvimento de substratos para a produção do cogumelo comestível Pleurotus ostreatus.

2. Metodologia
Com vista à avaliação dos resíduos agroindustriais como substratos para a produção de P. ostreatus foram recolhidas, junto de empresas parceiras, amostras de engaço de diferentes variedades regionais de uva branca e tinta. Da Quinta do Mosteiro da ESA-IPVC foram obtidas amostras de palha de trigo, podas de vinha e carolo de milho (Figura 2.1). As amostras foram trituradas e caraterizadas (Tabela 3.1). A preparação dos substratos envolveu a autoclavagem dos resíduos triturados (121ºC, 1 h) e mistura em diferentes proporções (Tabela 3.2) em sacos de plástico, com a adição de carbonato de cálcio (2 %) para correção de pH. Após inoculação (10 % spawn) os sacos foram fechados, abrindo-se lateralmente orifícios para permitir a frutificação. O período de incubação para crescimento do micélio ocorreu à temperatura ambiente e na ausência de luz. Após 30 dias, verificando-se a colonização do micélio na totalidade do substrato e a ausência de contaminações, foi induzida a frutificação expondo os fardos às condições de iluminação natural e temperatura ambiente, em local arejado para evitar acumulação de CO2. Foi monitorizada a eficiência biológica (100 x peso fresco de cogumelo/peso seco de substrato) e a produtividade biológica (100 x peso fresco de cogumelo/peso fresco de substrato).

Figura 2.1 – Amostras de resíduos agroindustriais utilizados na preparação de substratos para a produção de P. ostreatus: a) carolo de milho; b) podas de vinha; c) palha de trigo; d) engaço branco; e e) engaço tinto.

3. Resultados
Os resultados da caraterização dos resíduos agroindustriais são apresentados da Tabela 3.1. De acordo com as condições ótimas do substrato para o crescimento do micélio: pH 5,5 a 6,5; 50 a 75 % humidade; razão C:N de 75 a 80:1 (Chang e Miles, 2004), verifica-se que a generalidade dos resíduos apresenta valores de pH abaixo do valor ótimo, necessitando da adição de carbonato de cálcio, e que relativamente à razão C:N a mistura do engaço com os resíduos agrícolas (palha/poda/carolo de milho) permite aumentar a razão C:N para valores mais favoráveis.

Figura 3.1 – Imagens da fase de frutificação: a) formação dos primórdios; e b) crescimento e colheita de cogumelos.

Na Tabela 3.2 são apresentados os resultados da eficiência biológica e da produtividade biológica nos diferentes substratos. Após o período de crescimento do micélio de cerca de 30 d, sem quebras por contaminação, verificou-se que em todos os fardos foi viável a produção de P. ostreatus obtendo-se 2 a 3 colheitas de cogumelos (Figura 3.1). Os valores da eficiência biológica variaram entre 12,52 (poda de vinha) e 99,61 (75 % Palha + 25 % Engaço Tinto), resultados comparáveis aos obtidos em estudos similares realizados com resíduos agroindustriais (e.g. 74,17 %, 34,22 %, 35,88 % e 9,73 % usando como substratos sementes de algodão, resíduos de papel, palha de trigo e serrim, respetivamente (Girmay et al., 2016)), reforçando o potencial dos substratos testados para a produção de cogumelos. O menor rendimento verificado nos fardos com resíduos de poda de vinha pode dever-se à sua maior granulometria, por limitações do equipamento de trituração, conduzindo a dificuldades na transferência de nutrientes para os corpos frutíferos.

4. Conclusões
Os resultados obtidos neste estudo permitiram validar a metodologia utilizada na preparação de substratos preparados a partir de resíduos vitivinícolas e o seu potencial de valorização para aplicação na produção de cogumelos P. ostreatus. A incorporação destes resíduos em novos processos produtivos permite fomentar a economia circular do setor vitivinícola e alavancar oportunidades de simbiose industrial.

5. Referências bibliográficas
Cayuela M.L., Sánchez-Monedero M.A., Roig A., 2010. Two-phase olive mill waste composting: enhancement of the composting rate and compost quality by grape stalks addition. Biodegradation, 21, 465–473.
Chang S.T., Miles P.G., 2004. Mushrooms: Cultivation, Nutritional Value, Medicinal Effect and Environmental Impact. CRC Press, 2ª Edição. 451 pp.
Girmay z., Gorems W., Birhanu G., Zewdie S., 2016. Growth and yield performance of Pleurotus ostreatus (Jacq. Fr.) Kumm (oyster mushroom) on different substrates. AMB Expr 6(87), 1-7.
OIV, 2018a. OIV Statistical Report on World Vitiviniculture, 26 pp.
OIV, 2018b. Managing by-products of vitivinicultural origin, 16 pp.
Prescott T., Wong J., Panaretou B., Boa E., Bond A., Chowdhury S., Davies L., Østergaard L., 2018. State of the World’s Fungui 2018. Royal Botanic Gardens, Kew and the Kew Foundation, stateoftheworldsfungi.org.
Wang Y.Q., Schuchardt F., 2010. Effect of C/N ratio on the composting of vineyard pruning residues. vTI Agriculture and Forestry Research 3(60), 131-138.
Yao X., Xu K., Yan F., Liang Y., 2017. The Influence of Ashing Temperature on Ash Fouling and Slagging Characteristics during Combustion of Biomass Fuels. BioResources 12(1), 1593-1610.

Um artigo de Ana Isabel Ferraz1, Isabel Afonso1, Ana Sofia Rodrigues1, Joaquim Alonso1, Susana Mendes1, Ana Paula Vale1, Jéssica Pereira1, Margarida Alves1, Emanuel Senra1, Eduarda Oliveira1, Cláudia Oliveira1, Sandra Pais1, Sandro Figueiredo1, Ana Cristina Rodrigues1

1Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo

Publicado na Voz do Campo n.º 227 (junho 2019)