Grande Entrevista

“Tudo faremos para alcançar um acordo político sobre a PAC”

Maria do Céu Albuquerque assumiu a pasta da Agricultura no final de outubro passado com o sentido de responsabilidade que trouxe do tempo em que foi autarca, manter uma política de proximidade com as pessoas.

Licenciada em Bioquímica pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, fez pósgraduação em Gestão da Qualidade e Segurança Alimentar no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz. Foi presidente da Câmara Municipal de Abrantes durante nove anos e desde 2013 presidiu ao Conselho Intermunicipal da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. Já fazia parte do XXI Governo Constitucional enquanto Secretária de Estado do Desenvolvimento Regional. Praticamente três meses depois de ter assumido este cargo fomos conhecer o projeto da Ministra para o país, quais as grandes estratégias e o que já conseguiu percecionar das inúmeras visitas que tem realizado de Norte a Sul. Reconhece que há muito trabalho (bem) feito, mas a expressão que mais usa nas respostas às nossas questões é: “temos de ir mais longe”.

Com que sentimento assumiu a pasta do Ministério da Agricultura?

Em primeiro lugar com um grande respeito. Respeito por quem me antecedeu, respeito pelos agricultores e respeito pelos portugueses que são a razão de ter assumido esta pasta. Também com um grande sentido de responsabilidade em honrar um património que tem vindo a ser construído com base nas políticas públicas para a agricultura. Por outro lado, com a responsabilidade de, preservando a tradição e a agricultura nas suas formas mais tradicionais, ter a capacidade de inovar e de adaptar para um novo ciclo que se impõe à economia portuguesa e à agricultura, que também é economia. Este desafio prende-se com uma relação de equilíbrio entre os valores ambientais e os valores que são produzidos para podermos corresponder aos números importantes que decorrem da atividade agrícola. Importa dizer que queremos também que a agricultura seja um fator distintivo no ‘esbatimento’ das desigualdades e ao mesmo tempo queremos ser capazes de promover a renovação geracional na agricultura, cuja média etária é superior a 55 anos. Trazer mais jovens para a produção agrícola propriamente, mas também para a produção de tecnologias para colocar ao serviço nomeadamente da agricultura de precisão. Na assunção destas responsabilidades na pasta da agricultura e pegando nas orientações globais do Governo, nomeadamente nos quatro desafios colocados à nossa intervenção governativa: as alterações climáticas, a digitalização, as desigualdades e a demografia, para nós faz sentido que sejam trabalhadas como um todo.

Nesta sua função já fez várias deslocações ao terreno, o que é que já viu e qual a perceção que já consegue ter do setor agrícola nacional?

Essas deslocações já foram muitas e trago comigo, enquanto autarca que fui, este sentido de responsabilidade para manter uma política de proximidade, neste caso com os agricultores. Gostava de referir que encontro um setor muito dinâmico, com grande vitalidade e muito motivado para fazer esta transição, que nós queremos que seja justa. Queremos continuar a visitar como forma de incentivar a pequena agricultura que queremos estimular cada vez mais para promovermos o comércio de proximidade (cadeias curtas), mas também queremos continuar a fazê-lo nas grandes explorações, até porque temos excelentes exemplos de boas práticas já muito alinhadas com aquilo que são os desafios neste modelo de transição para adaptação e mitigação às alterações climáticas.

Sobre os jovens na agricultura. O que é que tem verificado? Temos sentido que os jovens estão atentos e percebem o potencial que o país tem e o que a agricultura pode representar. Mas temos de ir mais longe no sentido de criar melhores condições para que possam fazer da agricultura um modo de vida. Por outro lado, também nos parece fundamental criar consciência no cidadão sobre a importância de fazer escolhas informadas, seja por via da qualidade nutricional que os alimentos apresentam, seja percebendo que ao consumir localmente também está a estimular a economia daquela região e a combater as alterações climáticas de forma muito direta. Estamos a preparar um conjunto de propostas que dizem respeito precisamente à agricultura familiar, à pequena agricultura, à agricultura biológica, como forma de podermos corresponder a uma estratégia para onde queremos trazer cada vez mais pequenos agricultores, agricultores jovens, que se dediquem a práticas agrícolas mais sustentáveis (…). Estamos a desenvolver uma agenda, a que chamámos de ‘Inovação na Agricultura’, na qual propomos uma transição justa para todos, garantindo rendimento ao agricultor bem como a acessibilidade a alimentos seguros, nutricionalmente ricos e a preços compatíveis com os rendimentos das nossas famílias.

Como é que vê a organização das diferentes fileiras? Acha que ainda há falta de união entre os produtores, ou a juventude que tem chegado ao setor também trouxe mudança? As organizações de produtores são determinantes. No nosso país não temos uma grande capacidade organizativa e embora já existam alguns exemplos, temos de ir mais longe. Isso com base num importante trabalho de aconselhamento e de acompanhamento, por via da política pública ou pela iniciativa privada que nos permita ganhar escala. Todos temos consciência de que para nos propormos num mercado que é global não temos quantidade de produtos suficientes para sermos competitivos. Mas, se olharmos para a qualidade dos nossos produtos, aí situamo-nos muito acima da média. Veja-se o sucesso da PortugalFresh. É desta forma que Portugal tem de evoluir e, mesmo que não achássemos que este era o modelo, o próximo ciclo de investimento – PAC – aponta claramente no sentido da organização de produtores para podermos fazer face a um modelo sustentável.

No Orçamento de Estado preconiza-se uma agricultura ainda mais sustentável, mais competitiva e mais inovadora. De que forma se vão cumprir estes objetivos? São estas as grandes prioridades para a agricultura nacional? Apostar na agricultura é sinónimo de apostar no nosso território, nos nossos produtos, nas nossas pessoas. A agricultura assume um papel fundamental na garantia do desenvolvimento local e, consequentemente, nacional. Falamos de um setor com grande peso nas zonas rurais e uma forte ligação ao ecossistema e ao contexto social. Um setor que consegue ainda alavancar outras atividades económicas ligadas, nomeadamente, ao turismo, à gastronomia, ao artesanato e à nossa cultura.

Acredito que teremos de continuar a procurar chegar mais longe. E, nesta ambição, a digitalização da nossa agricultura é um fator essencial para a sua competitividade e sustentabilidade. Estamos na era da agricultura inteligente, de uma agricultura que, partindo de uma sociedade digital, será capaz de dar resposta aos desafios estabelecidos para este XXII Governo. Uma agricultura mais inovadora será uma agricultura mais sustentável e eficiente na gestão dos recursos, contribuindo, assim, para a resposta global às alterações climáticas. Uma agricultura mais tecnológica atrairá os mais jovens e fomentará o empreendedorismo, assumindo-se como parte fundamental da resposta aos desafios demográficos e no combate às desigualdades, reforçando ainda mais a coesão territorial e o desenvolvimento rural (…).

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo.