Grande Entrevista

“Haverá poucas regiões no mundo que permitam oferecer tanta diversidade, qualidade e inovação de produtos, 12 meses por ano, como o Sudoeste Alentejano”

A Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos concelhos de Odemira e Aljezur – AHSA – foi fundada em 2004 por um grupo de empresas a operar no Perímetro de Rega do Mira (PRM).

Desde então a evolução foi gigantesta e as empresas suas associadas faturam mais de 200 milhões de euros/ano. O presidente da AHSA, Nuno Pereira, explica-nos o que é que mudou e o que diferencia as empresas instaladas nesta região, reforçando que além da preocupação em trazer novidades para o mercado, os associados procuram responder às exigências do mesmo, suportadas por rigorosos referenciais de certificação, nas diferentes dimensões do processo produtivo.

Quem são os associados da AHSA? A AHSA congrega as principais empresas das fileiras hortícola, frutícola e florícola, dos concelhos de Odemira e Aljezur. Apesar de ser um número tendencialmente crescente, contamos hoje com 27 empresas no seio da Associação.

Caracterize-nos um pouco cada um dos três grandes setores que a Associação representa. Num perímetro de rega com 50 anos de história, falamos hoje de uma região agrícola tecnologicamente evoluída, moderna e com uma diversidade cultural sem paralelo em Portugal. A agricultura moderna, de regadio e fortemente direcionada para os mercados de exportação, que define esta Associação, nas diferentes fileiras carateriza-se pela produção de hortícolas, desde o tomate, pimentos, saladas, cenouras, abóboras, rabanetes ou alho francês, passando pelas ervas aromáticas. Na fruticultura pela produção de pequenos frutos, melão e melancia, e também pela produção de plantas ornamentais, como o bambu, os fetos ou as proteas, na floricultura. Com expressão diferente, a horticultura e a fruticultura têm já um importante peso no setor agrícola da região.

“Na última década registou-se um aumento significativo na produção de pequenos frutos”

Destes há algum mais significativo, em volume de produção e negócios? Na última década registou-se um aumento significativo na produção de pequenos frutos, nomeadamente framboesas e mirtilos, o que contribuiu muito significativamente para um maior equilíbrio da balança comercial agrícola nacional, dado que uma significativa maioria desta produção é exportada para os mercados do Norte da Europa. Que novidades é que os associados têm apresentado aos mercados? Haverá poucas regiões no mundo que permitam oferecer tanta diversidade, qualidade e inovação de produtos, 12 meses por ano, como a região do Sudoeste Alentejano. Desde especialidades como as babyleafs e saladas 4ª gama, as ervas aromáticas, pequenos frutos, vinho, pecuária de leite e de corte, mini hortícolas, todas elas produzidas e desenvolvidas por empresas fortemente especializadas nos mercado premium onde operam. Mercados bastante exigentes em matéria de qualidade e disponibilidade, que valorizam cada vez mais a responsabilidade social, implícita na produção do que consomem.

Qual tem sido a evolução dos mesmos nos últimos anos? De que forma têm “entrado” nas novas tecnologias? Pode dar alguns exemplos? A evolução tecnológica do setor nesta região em particular é muito direcionada para os ganhos de eficiência na utilização de recursos, sejam eles a água, a terra ou a força de trabalho. A título de exemplo, destacamos a busca permanente por genéticas resistentes e resilientes a pragas e doenças, a utilização de softwares preditivos de necessidades hídricas das culturas ou de volumes de colheita, drones na identificação de níveis de stress hídrico ou na caracterização da sanidade das culturas, ou ainda a mecanização e robotização das principais operações culturais. Não é difícil encontrar no seio dos nossos associados quem consiga gerir todas as operações em casa através de um tablet (regas, ventilação das estufas, produtividade da mão de obra, etc).

Tem havido muito investimento estrangeiro na região, de que forma se tem relacionado com a Associação? As empresas estrangeiras que aqui se instalaram decidiram fazê-lo tendo por base uma lógica de investimento de longo prazo e estão muito comprometidas em impactar positivamente a comunidade local. Também por isso, grande parte destas empresas decide associar-se à AHSA, para conhecer as idiossincrasias desta região e para, em conjunto com outras empresas do mesmo setor, partilhar boas práticas a vários níveis, nomeadamente social e ambiental. A nível social, por exemplo, a AHSA é parceira institucional de entidades públicas locais que apoiam a integração de migrantes na região. Também através da AHSA, as empresas estão abrangidas por um contrato coletivo de trabalho que confere aos colaboradores condições de trabalho mais favoráveis.

Presidente da AHSA, Nuno Pereira.

Qual a mais-valia que este investimento estrangeiro deixa em Portugal? Este investimento vem trazer um novo vigor económico para Portugal e para esta região em particular. Para além do “saber-fazer”, do aporte tecnológico e das novas consciências ambientais e sociais que estas empresas trazem para Portugal, estas geram ainda valor acrescentado e riqueza através da criação de emprego, muito dele especializado, da dinamização do tecido empresarial que suporta a atividade agrícola, do pagamento de impostos, nacionais e locais, bem como da promoção do equilíbrio do sistema de proteção social nacional. Contrariamente ao que se assistia há uns anos atrás, hoje temos um concelho pujante de vida, que acolhe, não só imigrantes, mas também centenas de jovens quadros superiores ligados às ciências agrárias, provenientes de outras regiões do país e que aqui se instalaram, se fixaram e desenvolveram as suas relações familiares. Apesar disto, nem tudo são rosas e a região e as empresas têm efetivamente alguns desafios pela frente, nomeadamente ao nível infraestrutural e social (…).

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo.