Ambiente Bio

Serpa: Agricultura biológica para a sustentabilidade

Mais de quatro dezenas de participantes reuniram-se em Serpa, num workshop dedicado às questões da produção e do consumo de produtos biológicos.

O encontro pretendeu contribuir para as linhas mestras de um manual de bio-regiões. Um documento que se pretende eficaz para o desenvolvimento ambiental sustentável dos territórios agrícolas do país bem como para a capacidade de fixar população nos territórios do interior.

O Centro Musibéria, em Serpa acolheu, recentemente, o workshop “Bio- Regiões” com o objetivo de estimular a reflexão conjunta de especialistas nacionais e internacionais sobre a operacionalização do modelo das bio-regiões no desenvolvimento integrado e sustentável dos territórios rurais portugueses. Um encontro que pretendeu desenvolver o planeamento estratégico do modelo das bio-regiões de forma ajustada à realidade dos territórios rurais nacionais, assumindo a preservação dos sistemas agrícolas e a promoção dos sistemas alimentares e dietas sustentáveis.

Neste workshop, financiado pelo Programa de Desenvolvimento Rural 2014- 2020, que contou com a presença de 45 participantes, bem como em outros dois previstos (em Viseu e Penafiel), pretende-se que sejam delineadas as diretrizes mestras para a criação de um manual das bio-regiões, essencial, de acordo com os responsáveis do encontro, “para apoiar e informar os territórios portugueses interessados em aderir à Rede Internacional das Bio-regiões e aos Sistemas Importantes de Património Agrícola Mundial, quanto à correta implementação, operacionalização e monitorização do modelo de desenvolvimento preconizado”. Tomé Pires, presidente da Câmara Municipal de Serpa, um dos cinco municípios, juntamente com Barrancos, Mértola, Moura e Mourão, que constitui a Bio-Região da Margem Esquerda do Guadiana, criada em 2019, e que integra a Rede Internacional das Bio-Regiões, realçou ao “Diário do Alentejo” a relevância deste encontro e da criação do manual: “Estas ações são importantes para incentivar a produção agrícola em modo biológico e o seu consumo, preferencialmente próximo dos locais onde são produzidos”, referindo-se ao conceito de mercados de cadeias curtas que preconiza a comercialização de proximidade, de produtos agrícolas e transformados, entre produtores e consumidores.

Tomé Pires considera que a produção em modo biológico, relevante do ponto de vista da sustentabilidade ambiental – “questão que nos deve preocupar a todos nós” –, tem também implicações positivas na questão da sustentabilidade demográfica, “pois se existirem apoios a estes agricultores, se possibilitarmos a viabilidade e valorizarmos o estatuto de agricultura familiar em que não é necessária grande área de terra para produzir produtos de qualidade, estamos a garantir postos de trabalho e a consequente fixação de pessoas no território”. O autarca entende ainda importante a possibilidade de outros municípios se juntarem aos cinco que atualmente constituem a Bio- Região da Margem Esquerda do Guadiana para que, em colaboração com outras entidades – “o Instituto Politécnico de Beja, as escolas, as associações de desenvolvimento local, as IPSS, para dar alguns exemplos” se consiga articular uma estratégia que permita aumentar o número de produtores e consumidores de produtos biológicos, “os principais atores” deste projeto.

David Machado, presidente da Rota do Guadiana – Associação de Desenvolvimento Integrado, considera que existe na região “uma realidade extremamente interessante” em torno das questões da produção biológica, com um número “muito considerável”, cerca de 150, de produtores biológicos registados na Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural. Um número muito superior, por exemplo, ao da região algarvia, que apresenta em todo o seu território cerca de 70 agricultores a produzir em modo biológico. “No quadro da bio-região, estamos agora a tentar construir com os municípios e entidades várias de cada concelho um plano de atividades, plurianual, para a bio-região e no qual irão estar equacionadas questões como a alimentação nas escolas, a capacidade de ligação entre o consumidor e o produtor, os vários tipos de mercados, os apoios a quem se pretenda tornar produtor biológico”, refere. Questões que na sua globalidade pretendem promover o consumo de alimentos mais saudáveis e consequentemente “um futuro mais sustentável para o nosso território”. Deste workshop foram retiradas várias conclusões que estão a ser estabilizadas no sentido do aprofundamento das futuras linhas do manual de trabalho e que oportunamente serão divulgadas pela Rede Rural Nacional.

Texto: José Serrano