Hortofruticultura Investigação

Manga e abacate na Madeira: um futuro promissor

A situação geográfica da Madeira (32º N 17ºW), com uma temperatura média anual sem extremos e que nas zonas costeiras raramente desce abaixo dos 15ºC ou supera os 30ºC, torna-a ideal para a produção de culturas tropicais e subtropicais.

A proximidade ao continente europeu permite a exportação de fruta de qualidade, colhida no ponto ótimo de maturação e, cada vez mais importante, com uma pegada de carbono muito inferior à da fruta proveniente dos trópicos. A isto há que acrescentar a importância do setor turístico da Madeira, não só para o consumo local de fruta mas também pela publicidade que pode ser feita à fruta da Madeira nos seus países de procedência desses turistas. A Madeira tem uma larga experiência na exportação de diversos produtos para a Europa, entre os quais se destaca a banana, comércio favorecido, sem dúvida, pela sua qualidade, mas também pela importante ajuda comunitária existente para este produto que lhe permite competir com êxito com as produções latino-americanas e de outras proveniências.

Embora seja verdade que as outras frutas tropicais não contam com ajudas similares às da banana, é possível que tenha chegado o momento, pelas considerações que irei explicar neste artigo, de promover o aumento das plantações de outras duas (culturas tropicais), o abacate e a manga, ainda que seja necessário adaptar a oferta à procura varietal exigida pelo mercado. Consideremos em primeiro lugar o caso do abacate. Trata-se de uma cultura tradicionalmente cultivada com excelentes resultados na Madeira onde, tal como nas Canárias pode produzir todo o ano com diferentes cultivares como a ‘Hass’, ‘Fuerte’, ‘Pinkerton’ e ‘Reed’.

Tal como nas Canárias, na Madeira o abacate pode produzir todo o ano com diferentes cultivares como a ‘Hass’, ‘Fuerte’, ‘Pinkerton’ e ‘Reed’

O mercado do abacate na Europa está em franca expansão e, apesar do aumento de plantações em muitos países, ainda há um longo caminho a percorrer. De acordo com estudos recentes, estima-se um aumento do consumo na Europa em cerca de 200.000 toneladas por ano até 2027. Esta é sem dúvida a razão pela qual a cultura do abacate tem crescido grandemente nas vizinhas Ilhas Canárias, onde atualmente são cultivados quase 2000ha e onde está em vias de ser criada uma associação de produtores de abacate para melhor defender a mesma. A excelente qualidade da fruta das Canárias e sua produção ao longo de todo o ano, que também pode ser conseguida na Madeira, permitiu que fosse muito bem recebida no mercado europeu com exportações rentáveis apesar da produção em pequenas parcelas e do elevado custo da água – muito superior ao da Madeira – e do transporte.

O mercado europeu do abacate ainda é monopolizado pela cultivar ‘Hass’ que, embora produza regularmente na Madeira e possa ser colhida durante vários meses, tem o problema de ser altamente suscetível a ataques de ácaro-do-abacateiro (Oligonychus perseae) que enfraquece muito as árvores, reduzindo a sua produção. O seu controlo, quer por tratamentos químicos, quer por libertação de predadores não é fácil, especialmente na Madeira devido à pequena dimensão das parcelas, uma vez que para ser eficaz é necessário controlar todas as plantações limítrofes (…).

Autoria: Víctor Galán Saúco, Professor de Investigação Jubilado no Instituto Canário de Investigação Agrária (ICIA), atualmente exerce funções de Consultor em Fruticultura Tropical.

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo.