Hortofruticultura

Fundão com manual “anti-vírus”, a um mês da campanha da cereja

Faltam sensivelmente quatro semanas para mais uma campanha da cereja da Cova da Beira e, no cenário atual de proteção da pandemia, os responsáveis preparam um manual “anti-vírus” para conter o risco de contágio.

“Estamos a fechar um caderno de boas práticas que permitam a colheita em níveis de segurança. É um modelo diferente daquilo que eram as práticas normais, que ajudará a que a campanha possa correr bem na cereja do Fundão, produto que foi reconhecido pela União Europeia”, revela à Renascença Paulo Fernandes, autarca do Fundão, munícipio com cerca de 2 mil hectares de cerejais. Área que dá significado à importante desta época do ano para a economia da região.

É sobre os cuidados sanitários a ter que incidem as maiores atenções deste novo manual de procedimentos para a fileira da cereja. A começar no momento da apanha manual, que habitualmente leva aos cerejais centenas de trabalhadores ali colocados por empresas de trabalho temporário.

“Não pode haver nenhum trabalhador externo, nomeadamente essa mão-de-obra que representa 400 ou 500 trabalhadores e que nos últimos anos tem sido fundamental para a colheita, que não tenha feito a demonstração de estar estado de quarentena obrigatória durante 14 dias antes de entrar no nosso território”, esclarece Paulo Fernandes. O autarca dá ainda conta de um sinal revelador de como os produtores de cereja estão a trabalhar para que o novo coronavírus não lhes entre pelos cerejais e lhes arrase a campanha com a mesma crueldade que tem ceifado vidas.

“Já há produtores com trabalhadores em quarentena, como medida preventiva, para depois poderem entrar em pleno. Esta é uma norma que já corre entre os nossos produtores e que poderá ser um bom caminho para permitir a colheita”, assinala o autarca do Fundão.

Cerfundão “faz figas” para que tudo corra bem

“Estamos um pouco como outros setores, à espera do que poderá acontecer e a fazer figas para que tudo corra com normalidade”. A resposta de José Pinto Castello Branco, presidente da Cerfundão, é elucidativa da incerteza que paira na Cova da Beira. Desde 1945 que a empresa, com sede no Fundão, em colaboração com os fruticultores da Cova da Beira, cuida da fileira da cereja, desde a produção, ao embalamento e à colocação nos mercados nacional e internacional.

A apanha da cereja vai começar daqui a aproximadamente quatro semanas e o maior desafio para os fruticultores é garantir a mão-de-obra essencial a uma operação que, dada a sensibilidade do fruto, é feita manualmente. Nos últimos anos, os produtores da região têm recorrido a trabalhadores nepalaleses ou paquistaneses disponibilizados por empresas de trabalho temporário, cuja base de trabalho está essencialmente no litoral alentejano e que por esta altura do ano são deslocados para a Cova da Beira. Uma vez que se trata de mão-de-obra já estacionada em Portugal, o presidente da Cerfundão confia que as restrições impostas à entrada de pessoas em Portugal não terá impacto significativo na angariação de trabalhadores.

Apesar do momento crítico que a economia nacional passa, José Pinto Castello Branco mantém-se otimista quanto à campanha da cereja nesta primavera.

“São Pedro tem ajudado. No inverno choveu o suficiente para repor níveis, não houve muito frio, outra condicionante importante, mas estamos à espera que seja uma boa campanha” diz o empresário. As exportações são residuais no que respeita à cereja produzida na Cova da Beira, com a Cerfundão a entender que seria desejável que o mercado nacional importasse menos e ficasse mais confinado aos “produtores portugueses, que dão melhores garantias”

Com este inimigo por perto todo o cuidado é pouco

Apesar do inexpressivo número de casos de Covid-19 na Cova da Beira, os produtores de cereja mantêm-se alerta, mesmo sabendo que os riscos de contrair a doença no contexto rural são aparentemente menores.

“Na agricultura temos esta vantagem de trabalhar a céu aberto, de maneira que sempre é menos preocupante do que para quem trabalha em ambientes fechados”, diz o responsável pela Cerfundão que, nesta entrevista à Renascença sublinha a importância que todos estão a dar à Covid-19.

“Os trabalhadores respeitam as medidas de segurança que se aplicam a todos, há distanciamento, não há cumprimentos nem toques, com os trabalhadores a desinfentarem-se e a lavar permanentemente as mãos quando estão a operar com os equipamentos, o que tem permitido trabalhar normalmente”, diz José Pinto Castello Branco que conclui com uma chamada de atenção para a realidade do dia a dia do setor.

“Isto não é uma fábrica, em que possamos fechar o portão e mandar as pessoas para casa. As árvores continuam a produzir, os frutos a crescer e nós temos que os tratar”, conclui.

Fonte: Renascença