Agropecuária

Coronavírus e o bullying à Agricultura!

Vivemos um tempo novo, um tempo de incertezas e inseguranças. O medo apoderou-se das aldeias, cidades e países! A incerteza e a ansiedade impera em todo o mundo e Coronavírus é assunto do momento.

Marisa Costa, APROLEP – Associação dos Produtores de Leite de Portugal

Todos os setores de atividade sentirão os efeitos negativos dos tempos em que vivemos e a preocupação com a escassez de alimento surge, por ser uma necessidade básica e comum a todos os seres.

Este acontecimento, demonstrou a importância de um setor que estava esquecido e que tem sido vítima do desinteresse político, de uma sociedade de abundância que desconhece a essência do trabalho do agricultor. Ao contrário do que acontecia até então, toda a população sente a importância que a agricultura adquire neste momento.

Todos sabemos que uma alimentação saudável e equilibrada tem um impacto significativo na capacidade de combater vírus e é fundamental ter um sistema imunitário reforçado.

PERANTE TODO ESTE CENÁRIO, SERÁ ESTA UMA OPORTUNIDADE PARA ACABAR COM O BULLYING À AGRICULTURA E AOS AGRICULTORES?

O bullying à agricultura tem sido uma constante nos últimos tempos.

Os agricultores sofrem de bullying quando são acusados pelo aumento da emissão de Gases Efeitos de Estufa. Curiosamente dados recentes apontam uma redução da poluição em Lisboa – cerca de 80%. Como todos sabemos na capital portuguesa a agricultura não é a atividade mais abundante.

Os agricultores sofrem de bullying quando para otimizarem os recursos apostam na agricultura intensiva, permitindo obter mais produção, em menos área e assim fazer face ao baixo preço a que recebem pelo seu trabalho. Percebemos hoje, com o coronavírus que a agricultura biológica implicaria ter alimentos mais caros e não permitiria ter a quantidade de alimentos necessários para alimentar a população.

Os agricultores sofrem de bullying quando são atacados por aplicarem fitofármacos nas suas plantações para evitarem pragas, doenças e infestantes. Hoje são os mesmos agricultores que com os seus Equipamentos de Proteção Individual e munidos de pulverizadores saem às ruas para combater uma praga que nos afeta a todos. O destino é irónico e a mesma arma que é utilizada para combater este vírus é aquela que utilizamos nos nossos campos.

Os agricultores sofrem de bullying quando para fertilizar os solos utilizam chorume dos seus animais que poderá causar mau cheiro. Este é um fertilizante natural, sem químicos e fundamental para obter mais produção nas suas colheitas. Mas, se por um lado somos acusados de utilizar fertilizantes, por outro somos acusados de deixar maus cheio ao aplicar chorume.

Os agricultores sofrem de bullying quando recebem os filhos nos braços a chorar porque o professor de Ciências Naturais referiu que a carne de vaca consumida provinha de animais com antibióticos e bactérias. A conclusão a que chegamos é que muita da formação dos professores dos dias de hoje é feita nas redes sociais ou com base no documentário cowspiracy e poucos são aqueles que querem vir às nossas quintas conhecer a nossa forma de trabalhar.

Os agricultores sofrem de bullying quando o personal trainer recomenda a substituição do leite por bebidas vegetais, por considerar que o leite além de ser um alimento de reduzido valor nutritivo era também ele, vendido com antibióticos. Isto demonstra que além de não conhecer o perfil nutricional do leite, ele desconhece que se por enganado, o produtor, deixar este leite seguir para a fábrica, o leite será destruído e o produtor será severamente penalizado.

Os agricultores sofrem de bullying quando para proteger os seus animais são acusados de administrar vacinas e antibióticos, porque alguns consideram desnecessário e inseguro. Neste momento todos reconhecemos a importância das vacinas e o mundo aspira ansiosamente que esteja disponível a vacina para o Coronavírus.

Os agricultores sofrem de bullying quando o reitor da Universidade de Coimbra, sem evidência científica afirma que irá banir a carne de vaca das cantinas da universidade para reduzir a pegada carbónica. Infelizmente, por lapso não referiu que a principal causa desta decisão é a falta de dinheiro para comprar a carne.

Os agricultores sofrem de bullying quando são acusados de não colocarem as vacas nas pastagens e por mantê-las dentro de um estabulo, porque as vacas no pasto são mais felizes. Por esta ordem de ideias as crianças que vivem nas cidades e apartamentos são infelizes e as que vivem em casas com jardim e nos meios rurais são mais alegres.

Neste cenário em que vivemos em que a palavra coronavírus é a mais pronunciada em todo o mundo, acredito que a palavra ESPERANÇA se seguirá. Esperança é aquilo que nós agricultores sentimos todos os dias quando, já a trabalhar, vemos o dia a surgir, um animal a nascer, uma planta a germinar e ao final do dia, ainda a trabalhar, vemos o pôr do sol.

365 dias por ano, trocamos o conforto do escritório, pelos campos; o ar condicionado pelo ar puro da natureza; os carros pelos tratores, com a certeza que damos o melhor de nós para levar até si o melhor do nosso trabalho: ALIMENTO!

Chegou a hora de parar, pensar, refletir e perceber que a Natureza nos deu uma grande lição. É necessário repensar o nosso sistema económico, reconsiderar os nossos comportamentos e as nossas ações. A natureza mostrou-nos que é a protagonista desta novela e que na nossa vida será a personagem principal.