Agroalimentar Agroindústria Grande Entrevista

“Os produtos alimentares nacionais estão a beneficiar de uma aceitação crescente nos mercados externos pela sua qualidade e pelas experiências de consumo que geram”

A Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares – FIPA – é uma estrutura de cúpula da indústria alimentar e das bebidas representando, através do seu universo de associados, cerca de 80% do setor no que respeita ao seu volume de negócios.

Sendo a indústria agroalimentar a segunda indústria transformadora com mais empresas em Portugal, o presidente da FIPA, Jorge Tomás Henriques, reconhece que as empresas nacionais do setor têm sabido estar à altura das exigências do futuro. Agora há novos desafios que se colocam para conhecer nesta Entrevista. Um facto é que a internacionalização das empresas nacionais é uma inevitabilidade.

Qual é a missão da FIPA?

A Federação das Indústrias Portuguesas AgroAlimentares (FIPA) tem como missão, promover, em conjunto com as suas associadas, a criação de uma envolvente na qual todas as empresas do setor agroalimentar, independentemente da sua dimensão, possam acompanhar os constantes desafios colocados pelos consumidores e, ao mesmo tempo, estejam aptas a competir por um crescimento sustentável, inteligente e inclusivo.

Com quantos associados conta? Quem são?

A FIPA tem três grupos de associados. Catorze associações setoriais de empresas que exercem a sua atividade no ramo alimentar dentro do território nacional. Um grupo de quinze empresas de maior dimensão que operam no setor e que constituem o nosso conselho consultivo e um terceiro grupo constituído por empresas ou suas associações (no total de oito) que, não atuando diretamente no setor agroalimentar, têm com a indústria relações privilegiadas.

Quais são os setores mais representativos, dentro da FIPA?

A FIPA é hoje a estrutura de cúpula da indústria alimentar e das bebidas, representado, através do seu universo de associados, cerca de 80% do setor no que respeita ao seu volume de negócios. Todos os setores têm uma participação ativa nos trabalhos da Federação. Temos setores e empresas de atuação muito variada e que englobam os setores da alimentação humana, da alimentação animal e das bebidas.

É a segunda indústria transformadora que mais emprega em Portugal.

Qual é o peso da indústria agroalimentar portuguesa, em termos económicos?

É das indústrias transformadoras a que mais contribui para a economia nacional, tendo um volume de negócios de aproximadamente 17 mil milhões de euros e um valor acrescentado bruto de 3,3 mil milhões de euros. É a segunda indústria transformadora que mais emprega em Portugal, sendo responsável por mais de 114.000 postos de trabalho diretos e cerca de 500.000 indiretos.

Quais são os principais desafios com que se confrontam os industriais agroalimentares?

Em virtude do atual cenário de pandemia e das muitas consequências ainda pouco previsíveis, os próximos anos irão certamente fazer acelerar a complexidade dos desafios que se têm vindo a colocar a toda a economia nacional e em particular à indústria agroalimentar. Torna-se assim prioritário desde já promover um compromisso nacional em torno da indústria agroalimentar, envolvendo todos os decisores políticos, parceiros e sociedade civil, que permita reforçar a competitividade industrial, apostar na investigação, desenvolvimento e inovação e alavancar o crescimento externo, para fomentar o emprego.

Persistem barreiras que necessitam de ser mitigadas, identificandose a já conhecida instabilidade de políticas, problema que Portugal mostra dificuldade em ultrapassar, o atual desequilíbrio de forças na cadeia de valor e uma política fiscal que nos coloca em forte desvantagem competitiva face a Espanha e que, mais grave ainda, contempla atualmente situações de discriminação de certas categorias de produtos (são exemplo as bebidas açucaradas e adicionadas de edulcorantes).

Por outro lado, têm proliferado mensagens que visam, ao abrigo de certas agendas políticas e institucionais, atingir a reputação do setor e desvalorizar os esforços de autorregulação, criando um ambiente propício à adoção de medidas que limitam o desenvolvimento e que podem vir a afastar os investimentos. Do ponto de vista do funcionamento das organizações, as dimensões consideradas mais críticas para o futuro do setor são a eficiência ao nível da cadeia de abastecimento, produção e logística, o reforço das marcas e o posicionamento das empresas, a inovação e o desenvolvimento e a captação de recursos humanos. Ainda num nível de prioridade relevante encontram-se a utilização de novas tecnologias, a exploração de novos canais de distribuição, a estratégia comercial e o conhecimento dos mercados estratégicos.

A inovação é o oxigénio das empresas para que possam alimentar o crescimento e dinamismo já identificados e conseguir sair na linha da frente quando se trata de dar resposta aos desafios dos diversos mercados e da afirmação das suas marcas

Como é que estas indústrias têm evoluído, tanto a nível tecnológico como dos próprios produtos que colocam no mercado?

Não há hoje dúvidas que a inovação é o oxigénio das empresas para que possam alimentar o crescimento e dinamismo já identificados e conseguir sair na linha da frente quando se trata de dar resposta aos desafios dos diversos mercados e da afirmação das suas marcas. É importante referir que existe sempre uma inovação que se pretende visível aos olhos dos consumidores, nomeadamente ao nível do produto final, mas têm havido igualmente grandes investimentos em inovações mais estruturais como os que se têm realizado ao nível da tecnologia dos processos industriais, da logística, do marketing e das vendas, os quais dependem cada vez mais da resposta que for dada aos desafios colocados pela era da digitalização.

As empresas nacionais têm sabido estar à altura das exigências do futuro. Acredito que vamos continuar a ser surpreendidos pela capacidade inovadora das nossas empresas, independentemente da sua dimensão, pois ao contrário do que às vezes parece transparecer a inovação não é exclusiva das grandes empresas. Por outro lado, a indústria agroalimentar tem colocado todo o seu foco no consumidor procurando dar respostas às suas crescentes exigências e expectativas. O consumidor português está cada vez mais racional, mais conectado e exige cada vez mais dos produtos que consome e das empresas da indústria alimentar. As evoluções mais recentes no contexto social, económico e tecnológico têm tido um elevado impacto nos hábitos de consumo dos cidadãos, havendo hoje, a par da gestão do orçamento familiar, uma crescente preocupação com a saúde, a origem e a sustentabilidade dos alimentos, aliada a uma cada vez maior procura de novas experiências. A verdade é que a mudança dos hábitos de consumo tem sido vista pelas empresas mais atentas não como uma ameaça ao seu modelo de negócio, mas como uma oportunidade para se reposicionarem e, proactivamente, tirarem partido de novos segmentos de mercado que permitam expandir a sua base de clientes e aumentar a penetração das suas marcas.

As evoluções mais recentes no contexto social, económico e tecnológico têm tido um elevado impacto nos hábitos de consumo dos cidadãos, havendo hoje, a par da gestão do orçamento familiar, uma crescente preocupação com a saúde, a origem e a sustentabilidade dos alimentos, aliada a uma cada vez maior procura de novas experiências.

Desenvolvimento deste e de outros artigos, na edição impressa da Revista Voz do Campo.